
Irreversível.
Parece um anúncio publicitário: nosso museu pega fogo na noite de domingo. Pensei estar enganado. Pensei que estava assistindo alguma propaganda que anunciava uma desgraça seguida de um produto importado… Mas era o telejornal. Eram meus olhos e chamas.
Era real.
Do alto o helicóptero faz giros mostrando o tamanho das labaredas: tudo acabou. Sento na sala, largo o celular, esqueço a política, desligo do mundo: na minha frente, ao vivo, nossa memória está queimando. Não há o que fazer. É um assassinato televisionado. Um atentado terrorista. Eu não aguento e choro em silêncio.
Vinte milhões de pedaços de nós se apagam nesse momento.
Dentro de mim uma chama arde e confunde: há uma briga íntima entre lógica e emoção. Eu tento ser racional, pensar melhor no que estou vendo, sempre funciona para afastar o sentimento de perda _ sempre há algo positivo em toda a tragédia, mesmo que apenas o recomeço… Mas, curiosamente, o efeito é inverso. Ser racional nesse momento não ajuda, atrapalha: o que estou assistindo é o fim. O tamanho do dano é corroborado pela lógica.
Não tem jeito: é irreversível.
Há uma bagunça dentro de mim. Uma janela explode. Pessoas correm com peças. Eu fico aflito. Fantasmas gritam dentro do prédio. Meu silêncio faz meu corpo arder inteiro na sala. É caos e destruição.
“Queimou tudo”, eu digo, sozinho, surpreso por dizer. Meus ouvidos denunciam minhas palavras. Queimou tudo, eu reconheço. Queimou tudo e não há como fazer emergir das cinzas todas as marcas da nossa história que acabaram de sumir…
No peito sobra um vazio: acabou. Na T.V várias pessoas falam, pesquisadores tentam salvar artefatos, bombeiros jogam água, pessoas choram. Nas mídias sociais pessoas lamentam a destruição, mostram fotos no museu, criticam o governo.
Eu permaneço em silêncio.
Essa é a maior tragédia simbólica da nossa história. Essa é forma como escolhemos cuidar de nossas memórias e o quanto não olhamos para o nosso passado para imaginar o futuro. Talvez, e é isso no que acredito porque preciso acreditar, o incêndio no museu seja um aviso: é no passado que estão nossas respostas do agora e, mesmo que doa, é preciso ler entre lágrimas e labaredas.

