
no jornal, disseram que a fachada não está comprometida
eu estava em outro cômodo quando o gás explodiu na cara de minha mãe. seus cílios, sobrancelhas. os olhos não, a parte mais fluida da cara, não. eu não me lembro mas minha mãe me contou algumas vezes essa mesma história, o perigo de espiar de perto o fogo, a volatilidade inflamável do metano. acidentes domésticos. aprendo.
eu estava em outro cômodo quando minha mãe derrubou sem querer a xícara de porcelana herdada de minha vó. caquinhos da xícara limpa no chão, sem uso, acaso perigoso das faxinas. quebrar coisas estupidamente, as guardadas. agora ponho as mais bonitas para o café com torradas.
eu estava em outro cômodo quando abri a porta o incêndio trepidava na tv ligada por meus pais hipnotizados não entendo pra quê as fotos das fotos da tv ligada no fogo a gente se afasta meu celular vibrando o aviso da tragédia ao mesmo tempo em que ninguém podia fazer nada. deixar ao acaso a destruição ou a sobrevivência. negar-se.
eu penso nas asas das borboletas, na capa dos besouros, eu penso nos túmulos, nos esqueletos, no calcário, eu penso em meteoros não devastados, tanta madeira antiga, lustrosa, polida por tanta gente. esses fantasmas. estupidamente, eu penso nas coisas sem volta e na repetição dos mesmos desastres. o movimento do fogo. as coisas que se estilhaçam, estupidamente, uma a uma, negadas.
se pudéssemos, tiraríamos a água de dentro. dos nossos poros, dos olhos, do filtrado de sangue na bexiga. das garrafinhas que insistem em nossas bolsas nas salas de aula. se pudéssemos, instalaríamos os alarmes, o sistema de avisos corta fogo do Louvre, as saídas de emergência, todas as medidas preventivas. e podemos. mas nos negam.
domingo é dia de visitar o museu mas agora não.
estamos de frente para a Quinta e temos a garrafinha d’água na mochila. o pó gruda na pele, o sol ilumina a vida, é o dia seguinte e alguém nos avisa que vivemos em ruínas mas não cremos. sobrou tão pouco e cada vez sobra menos. a gente acaba que se esquece.

