Web aberta, pagamentos digitais e criptomoedas desenhando o futuro da economia


A moeda surgiu a partir das necessidades das sociedades em encontrar alternativas para facilitar suas trocas em uma economia dominada pelo escambo. O primeiro conceito de moeda foi aquele em que mercadorias com maior liquidez, como gado, sal e metais, eram utilizadas para garantir as trocas. Durante a idade média, o modelo de moeda com lastro foi criado, mas acabou sendo abandonado com os acordos de Bretton Woods, no período pós-guerra[1].

Dessa vez, o conceito de moeda está passando por uma mudança impulsionada pelas características exponenciais e de caráter imprevisível das tecnologias digitais, o que vem criando uma conjuntura complexa e disruptiva. A difusão de uma nova tecnologia traz consigo um comportamento caótico, e os seus efeitos, em longo prazo, são difíceis de serem antecipados. O filósofo Karl Popper já dizia que seria necessário prever inovações tecnológicas se quiséssemos antecipar eventos extremos, o que é imprevisível per se.

No período contemporâneo, pagamentos e moedas digitais estão entre as tecnologias capazes de causar mudanças sociais e econômicas inesperadas, e essas tendências seguem por dois caminhos: a digitalização das moedas tradicionais (fiat) e a criação de novas moedas digitais.

Não é de hoje que a moeda vem passando pelo processo de digitalização. Com a disseminação da tecnologia da informação, nos anos 90, a moeda física foi se tornando bits, sem lastros e sem transparência. Com isso, surgiram novas formas de pagamento, como cartão eletrônico e pagamento na Web, opções que vêm crescendo, apesar de não terem atingido seu nível de maturidade[2].

Como apontado pelo W3C[3], algumas tentativas técnicas em fortalecer o cenário de pagamentos digitais falharam por falta de interoperabilidade e ausência de coordenação e cooperação entre os atores envolvidos no ecossistema. É preciso lembrar que a Web só se tornou um espaço para troca de documentos e dados de alcance global por ter concentrado os seus esforços no desenvolvimento de protocolos e padrões abertos. A Open Web Platform nada mais é do que a coleção de tecnologias abertas que permite que a Web exista, tal qual a conhecemos.

Adrian Hope-Bailie[4], integrante do WebPayments Working Group do W3C, cita que há dois problemas centrais nos pagamentos digitais na Web: o processo de iniciação e a infraestrutura. O primeiro problema tem relação com o comportamento das pessoas e a usabilidade do sistema. Se o processo for burocrático ou complicado, o usuário acaba desistindo de utilizar o pagamento digital.

Nesse sentido, o grupo de trabalho está empreendendo em algumas iniciativas, como a especificação de uma API que permita que sites de vendas aceitem diferentes métodos de pagamentos com uma integração mínima[4][5]. O navegador passa a facilitar o fluxo de pagamento entre o comerciante e o usuário na Web.

Já a questão da infraestrutura deve ser respondida com inspiração nos protocolos abertos da Web para garantir a interoperabilidade, transparência e integração do ambiente. Essa configuração deve permitir que a transferência e a liquidação de valores sejam rápidas, mas cuidadosamente controladas e seguras.

Os sistemas atuais, que fazem parte do ecossistema de pagamentos online, ainda trabalham com intermediários e agentes centrais de liquidação de transações, o que não faz sentido na Web. É preciso pensar em um novo paradigma para um ambiente aberto, descentralizado, mas com controle de risco. Essa é uma questão em debate, mas para qual podemos propor algumas alternativas, como impulsionar o desenvolvimento de tecnologias e protocolos abertos, que permitam agilidade, transparência e confiabilidade em trocas monetárias.

A criação de moedas digitais e criptomoedas que utilizam tecnologias abertas, como bitcoin, tem nos mostrado que esse é um caminho viável. A criptomoeda é implementada por meio de um software de código aberto que habilita um sistema monetário peer-to-peer inédito, baseando-se em criptografia e um banco de dados distribuído[6][7][8]. Esse banco de dados atua como um livro-razão aberto de contabilidade (ledger) em que as transações são públicas e armazenadas em blocos criptografados e organizados em cadeia, recebendo o nome de blockchain.

A grande inovação desse sistema é propor uma contabilidade pública, sem a necessidade de uma autoridade central. Assim como a tecnologia de Grid Computing — que também tem um modelo de processamento distribuído e descentralizado — trouxe benefícios para a ciência, tornando-a mais aberta e colaborativa[9], o paradigma computacional baseado em blockchain tem potencial para reconfigurar as mais diversas áreas das sociedades.

Esse novo modelo desafia o status quo do sistema financeiro mundial e se mostra propício para impulsionar a adoção de pagamentos digitais e facilitar transações. Por exemplo, as remessas internacionais têm um alto custo e podem levar dias no modelo tradicional, mas podem ser mais rápidas e baratas com as moedas digitais.

Há argumentos contrários ao modelo blockchain, como aqueles que alegam diminuição de políticas monetárias. De fato, não existe inovação sem disrupção, mas ela pode combater maleficências econômicas que geram desigualdade de oportunidade, como a ausência de transparência monetária, o que deixa alguns com mais informações do que outros.

Com o uso de paradigmas computacionais para transações transparentes e distribuídas, há a diminuição da assimetria de informação entre os agentes econômicos e aumento de transparência, que podem ajudar na construção de sociedades mais colaborativas e igualitárias. Que o futuro da economia seja desenhado por serviços em uma rede cada vez mais aberta. 
 
Referências
 
[1]FERGUSON, Niall. The Ascent of Money. Londres: Penguin, 2009. 
 
[2]ACCENTURE. 2015 North America Consumer Digital Payments Survey. 2015. Accenture, 2015. 
 
[3]W3C. Making Payments Easy on the Web. Disponível em: <
https://www.w3.org/Payments/>. Acesso em: 12 jul. 2016. 
 
[4]HOPE-BAILIE, A.[Web.br 2015]Internet de Valor. 2015. Disponível em: <
https://www.youtube.com/watch?v=sANeF3_w_3g>. Acesso em: 12 jul. 2016. 
 
[5]BATEMAN, A et al. Payment Request API. 2016. Disponível em:<
https://www.w3.org/TR/payment-request/>.Acesso em: 14 jul. 2016. 
 
[6]VIGNA, P. The Age of Cryptocurrency. London: Picador, 2016. 
 
[7]TAPSCOTT, D. Blockchain Revolution. Londres: Penguin, 2016. 
 
[8]NAKAMOTO, S. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. 2008. Disponível em: <
https://bitcoin.org/bitcoin.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2016. 
 
[9]CORTIZ, D. Grid Computing: Análise dos impactos sociais,ambientais e econômicos da colaboração por meio do compartilhamento de recursos computacionais. Mestrado– PUC-SP São Paulo, 2009.

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