Cu$te o que cu$tar

A transferência de Neymar para o Paris Saint-Germain mostra que os valores no mundo do futebol estão cada vez mais exorbitantes e ofensivos

Neymar em sua apresentação no Paris Saint-Germain (foto: Agência EFE)

Depois de muita novela, a maior transação em termos de valores absolutos, da história do futebol, foi concluída. Neymar saiu do Barcelona e rumou para o Paris Saint-Germain por incríveis € 222 milhões (R$ 812 milhões). A cifra já assusta por si só, mas ela é mais um sintoma de um processo que temos visto nos últimos anos no futebol mundial.

Antes de qualquer coisa não quero fazer com este texto, apenas uma crítica em relação à escolha de Neymar ao trocar o Barcelona pelo Paris Saint-Germain. Cada um é responsável pelas suas preferências e opções em suas vidas e carreiras profissionais. Em relação ao desejo do jogador brasileiro ser o “melhor do mundo” é algo legítimo da parte dele, mas não acho que deveria ser o objetivo de carreira de qualquer jogador, única e exclusivamente para ostentar essa marca.

Robinho foi menos do que se esperava dele, mas teve uma carreira boa na Europa, jogando bem no Milan e no Real Madrid (foto: UOL Esporte)

No caso do Brasil a coisa se torna ainda mais obsessiva, depois das conquistas em sequência de Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká. Depois dessa era com tantos jogadores fora de série, parece que virou uma obrigação para todo grande futebolista tupiniquim conseguir o troféu da FIFA (que foi dividido com a France Football por alguns anos e se tornando o Bola de Ouro, que antes era só para os europeus). O brasileiro que não consegue esse laurel fica com a pecha de ter fracassado na carreira; caso bem claro aconteceu com Robinho. É certo que ele nunca teve o nível que muitos (inclusive parte da imprensa) tentaram colocar no futebol dele. Mas não dá pra dizer que a carreira internacional do ex-santista e atual jogador do Atlético/MG foi um fiasco. Não foi bem no Manchester City, mas jogou em bom nível no Real Madrid e no Milan.

Neymar já possui conquistas importantes em sua trajetória e não precisa necessariamente do reconhecimento da Bola de Ouro para ser tão maior assim. O texto de Felipe Lobo Batista da Trivela fala bem sobre o TEMA.

Em termos financeiros, também não estou aqui para julgar a decisão de alguém querer um aumento salarial ao receber uma outra proposta de trabalho. Ainda que Neymar tenha dito que se mudado para França por um novo desafio, é difícil crer que ele não tenha ido também por causa das finanças, ainda mais após ter passado por um problema fiscal na Espanha.

Gráfico com a evolução de algumas das maiores transferências da história do futebol (arte: Poder 360)

Mas o ponto que quero ressaltar aqui é a gastança desenfreada que vemos hoje no futebol mundial e teve um marco histórico com esta contratação. O gráfico acima mostra um pouco desta situação. A evolução das contratações por valores cada vez mais astronômicos parece ser uma tendência. Porém mesmo a própria Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol (FIFPro) se manifestou contra esta situação:

“O recorde mundial de transferência do brasileiro Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain é o exemplo mais recente de como o futebol é cada vez mais o domínio de um grupo seleto de clubes ricos e majoritariamente sediados na Europa”, disse o secretário-geral da FIFPro, Theo van Seggelen, em um comunicado.

Ainda que a FIFPro possa estar fazendo lobby na União Europeia para proibir taxas de transferência que, nas definições dela, concentram poder nas mãos de alguns poucos clubes muito ricos em detrimento da maioria dos jogadores e do próprio esporte, a crítica, apesar de não ser nova, é válida.

Vemos cada vez mais um controle de poucos clubes que podem comprar quem bem entender. O fato de serem controlados por donos ou mecenas, muitas vezes com dinheiro de origem, digamos, suspeita, contribui para esse desequilíbrio.

O Fair Play Financeiro, regra criada pela UEFA em 2011 para que os clubes não gastem mais do que arrecadem e que, na teoria, serviria para equilibrar um pouco o mercado de contratações, possui três princípios básicos:

  • Quando da sua criação, o déficit entre gastos e lucros dos clubes não poderia ultrapassar os 5 milhões de euros. Hoje em dia, caso os donos das equipes tenham patrimônio como garantia, esse valor chega a 30 milhões de euros (R$ 110,4 milhões) no período de três anos.
  • Os clubes que se qualificam para as competições europeias precisam provar que não têm dívidas em atraso, sejam elas com outros clubes, jogadores, previdência social e autoridades fiscais.
  • A UEFA monitora clubes que tenham tido injeção suspeita de dinheiro, mas, ao mesmo tempo, controla aqueles times com dificuldades estruturais.

No caso do PSG, que possui patrocínios pertencentes ao seu próprio dono Nasser Al-Khelaïfi, o dinheiro da compra de Neymar será compensado pela mídia gerada pelo jogador, além das vendas de camisa e o aumento do…vejam você, patrocínio do clube!

Com esta situação, não é de se espantar que, mesmo em era de “Fair Play” nas finanças, as contratações tenham um aumento exponencial em seus valores. Hoje em dia, se qualquer jogador mediano já custa uma fortuna, não é de se estranhar um valor tão vultoso pago por um atleta acima da média, como é o caso do brasileiro.

Dentro de campo, é possível que Neymar consiga dar frutos ao PSG, ainda que a vitória na Liga dos Campeões seja complicada de acontecer de um ano para o outro. Fora de campo também é possível que ela se pague, só com a “mídia”, como disse o seu presidente. Porém, para o futebol em geral, é perigoso que essa bolha de transferências um dia exploda e o mundo mágico das contratações milionárias possa sofrer um grande abalo.

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