Que felicidade você quer?

Revisitamos um texto de Stela Santin, publicado na revista Bodisatva, em 2010. Atualizado em maio de 2017.

Foto: Rowan Heuvel

Coisas da vida:

– Sabe aquele emprego que você tanto almejava? Agora é dele e do seu chefe que você tanto quer se livrar?

– Aquela linda e carinhosa namorada, com a qual você passou anos radiantes e felizes, agora é o ser que você gostaria de ver longe o mais rápido possível?

– Aquele carro que fez teus olhos brilharem na concessionária, que você tanto sonhava ter e finalmente conseguiu, é hoje a fonte da sua dor de cabeça, porque você não está conseguindo vendê-lo por um bom preço?

– O apartamento mobiliado, que lhe rendeu tantos longos sorrisos quando você o conquistou, agora parece um fardo, pois você tem que se mudar para outra cidade e precisa se desfazer dos pertences de alguma forma.

– A foto de um ser amado causava-lhe calafrios de felicidade e agora você não consegue nem olhar para a foto. Aliás, você já pensou várias vezes em rasgá-la?

O que há de comum em cada uma dessas historinhas tão corriqueiras em nossas vidas?

O simples fato de que aquilo que um dia nos fez feliz, com certeza nos trará algum tipo de sofrimento. É quase matemático: o sofrimento virá na mesma medida e intensidade da felicidade, ensinam os mestres.
Foto: Jacob Culp

A vida nos enche de tantos exemplos disso, e, mesmo assim, a maioria de nós nem desconfia desse fato. Como pode uma simples foto ser adorável e depois de um tempo detestável? Nada mudou na foto, certo? Mas o que mudou, então? Mudaram nossas disposições internas! Se nossas disposições internas mudam, aquilo que consideramos fonte de nossa felicidade hoje, amanhã pode já não ter mais esse poder!

Haveria então algum tipo de felicidade, que não trouxesse o sofrimento “de brinde”?

Para a nossa alegria essa felicidade existe! VIVA! Mas não é uma felicidade baseada em condições, é alguma outra coisa que não conhecemos bem.

E é justamente isso que o Budismo ensina: a alcançar a felicidade plena, e não a felicidade usual que estamos habituados a buscar.

A felicidade usual é como um presente de grego, é uma farsa, uma fraude, porque tem prazo de validade, é temporária, já que logo adiante nos traz sofrimento, pois nos desencantamos com as coisas. Essa felicidade usual está dentro do que o Budismo chama de Roda da Vida, que nos leva inevitavelmente ao sofrimento. É tão certo como 2 + 2 = 4.

Entendido isso? Então, um passo importante agora seria não passar para o próximo passo, mas tentar compreender melhor essa história da felicidade.

Em geral, as línguas ocidentais chamam de “bom” aquilo que é positivo ou que traz prazer e de “ruim” aquilo que é negativo ou prejudicial. Pois existe uma palavra em páli que contém nela mesma o significado de felicidade e de sofrimento. Trata-se da palavra dukkha, que significa felicidade e sofrimento juntos, isto é, não há felicidade, que não traga junto com ela a semente do sofrimento.

Isso pode parecer estranho para nós, porque não temos esse termo no nosso idioma, então achamos que o referente do termo não exista. Mas existe! Basta observarmos! Esse não é um dogma religioso, no qual os budistas acreditam cegamente e por isso são budistas. Basta olharmos para nossas vidas, para as coisas mais comuns do dia-a-dia, que acharemos muitos exemplos de dukkha. Aqueles casos citados acima, todos são dukkha!

Foto: Pablo Garcia Saldana
Então, ao observamos essa felicidade que estamos buscando, essa felicidade condicionada, percebemos que lá pelas tantas ela nos trará algum tipo de sofrimento: quanto mais alto o salto, maior a queda.

Já ficamos como que avisados, e, quando o sofrimento de fato chega, não “nos pega” tão de surpresa, porque já sabíamos que viria! Diz-se que essa felicidade é condicionada, porque depende sempre de condições flutuantes.

Colocamos sempre um “se”, isto é, um condicionante antes de nossas aspirações: se eu comprar aquela casa…, se ele ficar comigo…, se eu emagrecer…, se fulano parar de me encher a paciência…, se não estivesse frio…, se eu morasse em tal lugar…

Esse “se” nos faz seres constantemente insatisfeitos, que pensam que mudando a configuração externa das coisas vão dar um jeito de eliminar o sofrimento.

Ao final do doce gostinho de dukkha, vem, inevitavelmente, o amargo gosto de dukkha. Aí fazemos cara feia e ficamos deprimidos, porque ignoramos o fato inevitável de que toda a experiência de felicidade condicionada trará algum tipo de sofrimento. TODA, sem exceção!

Aí o Budismo vem e diz: se você realmente reconheceu que a felicidade condicionada traz o respectivo sofrimento condicionado, você pode optar por uma OUTRA felicidade, que não traga o sofrimento embutido. É simples assim.

Foto: Jungwoo Hong

Aí perguntamos com caras cheias de esperança: e que felicidade seria essa? Como encontrá-la? O que eu tenho que fazer?

Então, os mestres nos explicam minuciosamente, com métodos detalhados, passo a passo, como alcançar essa OUTRA felicidade, que não traga sofrimentos de brinde.

Enquanto vamos seguindo no caminho em busca dessa felicidade plena, podemos sorrir diante das nossas aspirações de felicidade comum.

“É pelo riso que liberamos nossas fixações, que tiramos a solidez das coisas”, nos lembra Lama Samten incansavelmente.

Podemos rir das situações-dukkha que vivenciamos. De tanto rirmos, de tanto percebermos que essa felicidade comum e autocentrada que buscamos não nos levará a lugar nenhum, reforçaremos nossa motivação para seguir um caminho espiritual.

São infinitos os exemplos de dukkha que achamos em nossas vidas, mas quero compartilhar um com vocês, para que possam rir também. Há uns anos atrás eu tinha tempo, mas não tinha dinheiro para fazer retiros. Na época eu pensava: “ah, se eu tivesse dinheiro…” Agora tenho dinheiro, mas não tenho tempo! É engraçado! Boa e velha dukkha!

*Por Stela Santin