Uma dose de esperança

Nesta palestra, Jetsunma Tenzin Palmo nos fala honestamente sobre como devemos lidar com a doença, o câncer e a morte

Foto: O Lugar.

A venerável Jetsunma Tenzin Palmo já está na América do Sul, em Lima, no Peru, oferecendo ensinamentos preciosos. Nesta palestra “Uma dose de esperança”, concedida no Instituto Nacional de Enfermedades Neoplásicas, esta grande mestra do budismo tibetano, que passou cerca de 12 anos em retiro solitário numa caverna em Lahul, nos Himalaias indianos, não doura a pílula para nos falar honestamente sobre como devemos lidar com as doenças, o câncer e nos prepararmos para a morte.

Jetsunma Tenzin Palmo estará no Brasil, de 29 de março a 1 de abril, em São Paulo. Estamos na contagem regressiva! Que possamos contemplar suas palavras e refletir com atenção. Que muitas pessoas sejam beneficiadas.

“Uma dose de esperança” foi traduzida e transcrita gentilmente pelas irmãs Jeanne e Audrey Pilli, e publicamos aqui no Medium.

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Não sei bem o quanto vocês conhecem sobre o budismo, mas o Buda era um príncipe que, cerca de 2.600 atrás, deixou sua família para buscar o significado da vida e para atingir a iluminação. Depois de passar muitos anos buscando e experimentando diferentes métodos, ele, por fim, quando tinha 36 anos, sentou-se sob uma árvore em Bihar, na Índia, e durante uma noite ele atingiu a iluminação e se tornou o Buda.

Na perspectiva budista, ele se esforçou por incontáveis vidas e, por fim, atingiu a iluminação — e essa foi uma grande realização. Em dado momento, ele decidiu que deveria compartilhar o que havia compreendido com os outros e foi em busca de seus antigos companheiros, com quem havia praticado durante muitos anos.

E sobre o que o Buda falou? O primeiro ensinamento que ele deu não foi sobre a bem- aventurança, sobre a liberdade, sobre a realização magnífica da iluminação. Não! Ele falou sobre o sofrimento, sobre a natureza insatisfatória da nossa existência não iluminada. Ele começou explicando o que é o sofrimento.

Nascimento é sofrimento, doença é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, morte é sofrimento. Em resumo, obter o que não desejamos é sofrimento e não obter o que desejamos é sofrimento.

Basicamente, ele estava dizendo que a nossa vida comum, se não soubermos como utilizá-la de maneira habilidosa, é um grande problema. A solução não é meramente tentar modificar as circunstâncias externas; mudar as coisas externas só funciona por um período muito curto e então, algo acontece. Para ser franca, tentar modificar o mundo inteiro para nos agradar nunca irá funcionar.

O que é muito mais útil do que meramente mudar as outras pessoas ou as circunstâncias externas, o ponto essencial, é transformar a nossa própria mente. Se modificarmos nossa atitude, tudo se transformará.

Eu busquei as instruções de um grande praticante do século XII, chamado Gyalwa Gö Tsangpa, no Tibet. Ele escreveu versos sobre como lidar com a doença. Talvez vocês não apreciem muito algumas dessas instruções. No budismo, acreditamos que tudo que nos acontece, coisas boas ou coisas ruins, não dependem de alguma deidade externa ou de algum deus, mas são resultado das nossas próprias ações, hábeis e inábeis, nesta vida e em vidas passadas.

Considerando que na perspectiva budista tivemos incontáveis vidas, nós já tivemos tempo para fazer de tudo; coisas boas, coisas ruins, coisas elevadas, coisas inferiores… nós fizemos de tudo. Portanto, os resultados também são muito misturados. Por essa razão também, coisas ruins acontecem para pessoas boas e coisas boas acontecem para pessoas ruins. Mas, além de explicar que nós mesmos criamos as causas e condições em incontáveis vidas para o que quer que esteja acontecendo conosco, ele também nos dá outros conselhos.

O primeiro ponto é reconhecermos que nós podemos aprender muito com as experiências difíceis. Normalmente, pensamos que se a nossa vida fosse bela e agradável, sem nenhum problema, essa seria uma boa vida. Mas, de uma forma geral, a verdade é que quando as coisas vão bem achamos muito bom, mas frequentemente não aprendemos muito com essas experiências.

Ficamos mais ou menos como um gato deitado na frente da lareira, comendo bem e descansando, mas acabamos nos aborrecendo. Além disso, ninguém deseja mesmo acabar como um gato.

Por isso, Gö Tsangpa diz que qualquer doença, do corpo ou da mente, não deve ser considerada um problema. O que conta aqui é a nossa atitude. Se nós resistirmos e considerarmos que as doenças são terríveis e que nós precisamos dar um jeito porque alguma coisa está errada, nós não apenas sentiremos o sofrimento físico, mas também o sofrimento mental.

Basicamente, há dois tipos de sofrimento: o físico e o mental. Com relação ao sofrimento físico, fazemos muitas coisas: tomamos remédios, fazemos tratamentos — algumas vezes melhoramos, outras não. Mas é natural que o corpo físico, às vezes, adoeça. Nós precisamos aceitar isso. No entanto, nós podemos nos responsabilizar pela nossa reação mental ao sofrimento físico. Pode ser que nos sintamos ressentidos, amedrontados, ou de alguma forma negarmos o que está acontecendo conosco. Nesse caso, nós estaremos sofrendo duplamente; não sentiremos apenas o sofrimento físico, mas também o mental.

Se mentalmente aceitarmos que o corpo está doente, faremos o que for possível para que o melhor aconteça — se nós nos recuperarmos, está bem; e se não nos recuperamos, é assim que as coisas são. Se internamente nós aceitarmos, então, mentalmente nós não estaremos em sofrimento.

Durante algum tempo, vivi em uma pequena caverna no Himalaia e, durante quatro ou cinco meses do ano, a caverna ficava coberta pela neve e eu não conseguia sair. Portanto, se eu ficasse doente, ficaria doente — não haveria nada a fazer. No Tibete, há um ditado que diz que “se você está doente, está doente e se morrer, morreu”.

Surpreendentemente, isso é muito reconfortante. Quando ficar doente, você diz “Vou esperar e ver se melhoro ou não.” Não há nada com o que se preocupar. Claro que eles não estão dizendo que se você ficar doente, não deveria se tratar, encontrar o melhor tipo de tratamento; não é o que estão dizendo. O que eles querem dizer é que seja lá como as coisas forem, você deveria permanecer aberto e aceitar. E assim, não haveria nenhuma dor na mente, ainda que haja dor no corpo.

Gö Tsangpa diz, primeiramente, não veja isso como um problema. Pense no que isso está te ensinando, em quanto você pode aprender com essa experiência. Em seguida ele diz, “Isso purifica os obscurecimentos. “Isso significa que muitas das causas e condições que criaram essa doença podem ser purificadas se nós simplesmente reconhecermos abertamente o que está acontecendo e não criarmos resistência. Essa experiência pode incrementar as nossas boas qualidades, se tivermos habilidade para isso.

Primeiramente, desenvolvemos mais paciência e, o mais importante, pode nos ajudar a desenvolver a compaixão. Quando estamos sofrendo, não apenas com uma doença, mas com qualquer outro problema, qualquer tragédia, qualquer dificuldade, nós basicamente temos duas opções: permitimos que os problemas se internalizem em nós completamente, pensando: “Ai, coitado de mim! Pobre de mim! Por que isso foi acontecer comigo? Estou sofrendo tanto e ninguém se preocupa comigo!” Podemos ficar totalmente aprisionados no nosso próprio sofrimento, ou, como ele diz, podemos pensar: “Que triste! Todos os seres sencientes são atormentados pela doença, assim como eu”.

Podemos pensar em todos os seres sencientes neste mundo que neste momento estão sofrendo tanto quanto nós. Ou pelo menos pensar, “não sou só eu, mas muitos outros seres estão sofrendo, e muitos deles não recebem tratamento, não tem oportunidade de encontrar bons médicos, boas enfermeiras, amigos gentis. Sofrem sem nenhuma ajuda”.

E, se formos suficientemente corajosos, poderemos pensar que por meio do sofrimento com a minha doença, a paciência e a compaixão que eu desenvolver poderão purificar a doença de todos os incontáveis seres, por todo o espaço. Que a doença deles possa recair sobre mim e que eu possa suportá-la para purificar todo o sofrimento de todos os seres.

A compaixão é uma qualidade do coração extraordinária, reconhecida por todas as tradições espirituais genuínas como a essência da prática. A compaixão não é uma fraqueza. A compaixão é uma abertura do coração incrivelmente poderosa que nos permite acolher o sofrimento dos outros seres. Deixamos de focar apenas no “eu, eu, eu”; por meio da compaixão, abrimos o coração para acolher todos os seres.

Por isso que, quando passamos por tempos difíceis, é muito importante reconhecer que esse é o momento para amadurecermos internamente, para crescermos e para pararmos de pensar apenas sobre nós mesmos, sobre o nosso bem-estar. Esses momentos são a chance de trazermos o sofrimento para o nosso caminho espiritual e de usá-lo para abrir genuinamente nosso coração para todos os outros seres.

Muitas pessoas se perguntam, quando estão diante do sofrimento de outra pessoa, “o que eu poderia fazer?”. Eu sei que muitos de vocês estão sofrendo por conta do câncer, pessoalmente ou por alguém da família ou alguém próximo que está doente. Frequentemente, as pessoas perdem a esperança. Quando nós mesmos estamos sofrendo ou quando estamos diante de alguma pessoa que está sofrendo, sentimos que não sabemos o que fazer. Os médicos e enfermeiras sabem o que tem que fazer, mas nós, pessoas comuns, não sabemos como ajudar.

Logicamente que cada um de nós tem a sua própria maneira de se expressar e de fazer o que precisa ser feito, mas, seja como for, é muito importante estarmos presentes com a pessoa doente e ouvi-la. Nem sempre encontramos soluções, mas podemos, ao menos, ouvir seus problemas. Eu acho que é muito importante sermos honestos e francos nessas situações.

Eu espero que todos vocês se recuperem completamente e que tudo corra bem, mas mesmo que não seja assim, espero que possam aceitar o fato de que depois de nascermos, nós naturalmente envelheceremos, adoeceremos e, por fim, morreremos. Todos os corpos vão passar por isso. Isso é algo que todos nós compartilhamos.

Por isso, vou falar sobre uma prática que é também muito popular entre os padres e freiras católicas. Quando aprendem essa prática, eles a consideram muito útil. Não é uma prática exclusivamente budista. É universal. Esta prática se chama “dar e tomar”. Você pode imaginar alguém, ou até mesmo de fato sentar-se em frente a alguém que está na sua presença. Com cada inspiração, visualizamos que estamos removendo toda a doença e as causas da doença, não apenas físicas, mas também espirituais, como um aspirador de pó. Removemos toda a doença daquela pessoa — sugamos toda a negatividade, a doença e as causas da doença, sob a forma de uma luz negra. Inspiramos essa luz pelas narinas até o coração.

Não é preciso que você se sente formalmente para fazer esta prática. Você pode imaginar alguém, ou ficar apenas sentado perto da pessoa, mas na sua mente, você está tomando para si mesmo toda a escuridão, toda a doença, na forma de uma luz preta que vai até o seu coração, não o coração físico, mas o chakra do coração, no centro do peito.

A nossa noção de “eu” e “meu” está no centro do peito. Quando nos referimos a nós mesmos, apontamos para o centro do peito dizendo “eu estou aqui”. Visualizamos então uma pequena pérola negra que representa essa noção de “eu”, especialmente o “eu” que diz: “Sim, é claro que eu adoraria tomar todo o seu sofrimento para mim”. Mas isso não funciona. Você logo pensa: “Espera! Se eu tomar mesmo toda essa doença para mim, o que irá acontecer comigo?”

É esse “eu” que está representado pela pérola negra. Então, essa luz negra penetra nessa pequena pérola negra e a dissolve completamente. Essa sensação de “eu” que está encobrindo a nossa verdadeira natureza, nossa natureza divina. Todos nós temos internamente uma natureza divina que está recoberta por essa noção de eu.

Essa luz penetra nessa pérola, dissolve-a imediatamente e é substituída pela luz brilhante, semelhante à de um diamante, da nossa verdadeira natureza, que é completamente pura, sábia e compassiva. Ela nunca foi contaminada pela escuridão do ego. E então, dessa qualidade semelhante ao diamante da nossa verdadeira natureza, surge uma luz branca que acompanha a nossa expiração.

A escuridão acompanha a inspiração e a luz branca acompanha a expiração. Imaginamos que essa luz branca cobre e satura completamente a pessoa à nossa frente e que cada célula é preenchida por essa luz branca de cura.

Com cada inspiração nós tomamos a escuridão para nós e com a expiração nós enviamos luz. Essa é uma prática verdadeiramente poderosa, que algumas vezes transforma até mesmo a atmosfera do local em que é praticada. Estar próximo da pessoa que está sofrendo ou distante realmente não importa, porque para a mente não há distância. Isso elimina a nossa sensação de incapacidade de ajudar. E realmente traz benefício! Pode ser que não cure a doença física, mas certamente irá cura a dor do coração.

Essa prática pode ser feita para qualquer um de nós que esteja sofrendo. Ela não beneficia apenas a outra pessoa, mas beneficia a nós mesmos. Como eu disse no início, temos essa aspiração de que com respeito a todos os seres no universo que estejam sofrendo, assim como eu, por meio dessa prática, que eu possa tomar toda a doença sobre mim mesmo, e que os seres possam se libertar.

Essa é uma prática crucial quando estamos sofrendo. Que nós possamos usar nosso sofrimento em vez de termos pena de nós mesmos. Quando grandes lamas ou praticantes estão muito doentes, as pessoas perguntam que práticas estão fazendo. Geralmente eles respondem que estão fazendo esta prática, que em tibetano é chamada de Tong Len. Mesmo que estejam apenas deitados, eles visualizam que estão tomando para si todo o sofrimento de todos os seres que, assim como eles, estão sofrendo.

Arte de Maria Carluccio.
Não seria de fato maravilhoso se por meio do meu sofrimento os outros pudessem se livrar do sofrimento? Não seria maravilhoso? Porque quando nós ficamos doentes, grande parte dos problemas não são físicos; o medo e a preocupação que vêm junto com a doença é que são a causa verdadeira do sofrimento.

Essa é uma prática muito eficiente para abrir o coração e para utilizar o que seria considerado uma tragédia como uma força real para abrir o coração, para reconhecer a situação de todos os seres sencientes, não apenas de nós mesmos. É uma maneira maravilhosa de incluir as dificuldades no nosso caminho, de transformar a nossa mente, não apenas agora, mas também no futuro.

Quando nos encontramos aflitos por algo como o câncer ou qualquer outra doença que ameaça a vida, podemos, primeiramente, apreciar o fato de que “Bem… pode ser que eu morra.” Todos nós sabemos, intelectualmente, que vamos morrer. Você não conhece ninguém que viverá para sempre, ainda assim, nós sempre pensamos que isso vai acontecer com alguma outra pessoa, mas não comigo.

Então, quando de repente, nos vemos frente a frente com a possibilidade de morrermos, essa é uma oportunidade maravilhosa para acordarmos e nos perguntarmos: “Qual é o sentido da minha vida?” Todos nós deveríamos levar a nossa vida de maneira tal que, no momento da morte, seja como for, nós possamos morrer sem arrependimentos, porque sabemos que fizemos algo significativo com a nossa vida, algo que beneficiou a nós mesmos e aos outros.

Assim, quando estivermos muito doentes, podemos nos perguntar “O que eu fiz com a minha vida? E se eu tiver uma nova oportunidade de continuar vivendo, o que eu vou fazer? Vou fazer o mesmo que eu fiz antes ou eu aprendi alguma coisa que irá realmente produzir uma transformação significativa?”

Nós temos essa vida humana preciosa e é realmente uma oportunidade de aprendermos, de nos desenvolvermos e de nos transformarmos. Se prosseguirmos mais ou menos da mesma maneira de quando éramos crianças — felizes quando as coisas vão bem, deprimidos e bravos quando as coisas vão mal — o que nós teremos de fato aprendido nessa vida humana preciosa?

Todos nós sempre temos a oportunidade de reavaliar a nossa vida, sobre o que é significativo para nós e sobre aquilo que não é tão significativo. Mas, especialmente quando somos mais uma vez lembrados do fato de sermos mortais — e mortal significa que em algum momento iremos morrer — isso é muito útil!

Porque ainda que nós não morramos, nos é dada a oportunidade de reconhecermos que enquanto tivermos uma vida humana, devemos tirar o máximo proveito dela; realmente utilizá-la de forma hábil para beneficiar nós mesmos e os outros, sem desperdiçá-la.

A tragédia não é termos nascido, envelhecermos, adoecermos e morrermos. A tragédia é que temos uma vida humana, que é tão preciosa, e normalmente nós a desperdiçamos em coisas que não têm a menor importância. Nós nos importamos com coisas que não são importantes e negligenciamos aquilo que é realmente significativo.

Portanto, todos nós temos a oportunidade de despertar, de olhar para a nossa vida, de refletir sobre o que temos feito, sobre o que é útil e nos alegrarmos com isso. E de refletirmos sobre o que não é tão útil. Algumas vezes colocamos muita energia na direção errada. Mas podemos olhar para isso e dizer: “Não, eu aprendi a lição. Não vou tomar esse caminho novamente. Vou mudar as coisas. Agora me foi dada a chance de enxergar a minha própria vida; de olhar para trás e refletir sobre o que me ajudou e sobre o que me atrapalhou, sobre as minhas habilidades e as minhas inabilidades e essa é uma oportunidade para recomeçar. E agora eu vou mudar as coisas.”

Por fim, a solução para os nossos problemas não está no nosso corpo — está na nossa mente, no nosso coração e é isso que precisa ser mudado. Por isso, todos nós aqui compartilhamos as mesmas questões; na verdade, temos os mesmos problemas — nós precisamos domar e transformar os nossos próprios corações e nossas próprias mentes. E algumas vezes, quando surgem as dificuldades, as doenças e os problemas externos, eles servem como um toque de despertar. Dizem: “Ei, olhe, você está indo na direção errada. Volte para o caminho certo!” E por isso podemos nos sentir gratos pelos problemas que enfrentamos, porque eles nos despertam. Nos fazem parar de ser como os gatos, de dormir na frente da lareira, certo?

Eles nos lembram dos nossos potenciais humanos para a bondade e para a compaixão, para compreensão e para a sabedoria. Em vez de nos ressentirmos com as doenças, dificuldades e problemas, deveríamos dar boas-vindas a eles, se pudermos, ou ao menos aceitá-los e dizer: “O que isso está me ensinando? O que eu posso aprender com isso?”


Perguntas e respostas

P: Qual o sentido da minha vida, se eu tenho câncer?

JTP: Bem, eu acho que o sentido da vida de qualquer pessoa, tendo ou não tendo câncer, é desenvolver o coração, desenvolver empatia por outros seres, compaixão e realmente compreender que não estamos aqui nesse mundo meramente para fortalecer o nosso ego, mas para transformá-lo em clareza e sabedoria, que são a nossa verdadeira natureza. Todas as tradições espirituais genuínas sabem que nós não somos quem pensamos ser — esse ego pequeno que se põe no caminho. E uma forma de diminuir essa noção de um “eu” é abrir o coração. E que momento seria melhor para fazer isso do que quando estamos sofrendo com doenças difíceis como o câncer? Como eu disse, em vez de inflar o ego pensando: “Coitado de mim, coitada de mim”, essa é uma oportunidade maravilhosa de abrir o coração e de ver quantos seres também estão sofrendo da mesma maneira que eu e desejar ajudá-los a superar esse sofrimento.

P: Que mensagem podemos dar aos médicos e enfermeiras que cuidam dos pacientes com câncer?

JTP: Hoje em dia, mais e mais se reconhece que o conhecimento brilhante acadêmico e técnico que os médicos recebem em sua formação precisa ser complementado pelo treinamento em compaixão. Eles precisam lembrar de que as pessoas com quem estão lidando estão doentes e vulneráveis — são pessoas, não são apenas casos! Cada vez mais se enfatiza o treinamento para abrir o coração ou a empatia na formação dos médicos, para que eles reconheçam que estão lidando com seres humanos, por meio da compaixão.

P: Como podemos superar o medo do desconhecido que surge quando pensamos sobre a morte?

JTP: Como disse o Buda, se há alguma coisa que é certa na vida é a morte. É algo que todos nós compartilhamos. Nunca sabemos se iremos respirar no momento seguinte ou não. Mas todos nós certamente morreremos — isso nós sabemos. Todas as tradições espirituais concordam com o fato de que no momento da morte, a consciência ou a alma prossegue, ela não morre. O corpo morre, mas algo muito mais fundamental, que é a consciência, continua.

Se os cientistas que afirmam que a morte é realmente o fim estiverem certos, nós não temos nada com o que nos preocuparmos, porque a morte é o fim. Mas todas as tradições espirituais, todos que realmente compreendem a mente dizem: “Não! No momento da morte, como um hóspede de um hotel, nós deixamos o hotel e seguimos viagem”. Todas as tradições espirituais concordam com o fato de que o próximo destino depende da nossa conduta nessa vida. O budismo dá várias opções de destino.

Mas de qualquer forma, o ponto é que devemos usar a nossa vida como uma preparação para a morte, e assim, quando morrermos, poderemos dizer: “Ok, cometi alguns erros. Sim, fiz algumas coisas que não deveria ter feito, mas de forma geral, fiz o meu melhor.”

O meu conselho para as pessoas que estão na situação em que a morte é praticamente certa e imediata é que, primeiro solte, abra mão, deixe ir. Solte o apego à família, aos amigos, às posses, status, etc. Solte tudo isso. Você está partindo! Abra mão também de todo ressentimento, raiva, de qualquer coisa que esteja segurando com respeito ao que outras pessoas fizeram no passado. Solte tudo isso. Perdoe todas as pessoas neste momento.

Que importância esses problemas podem ter? E, por outro lado, a todos aqueles que são próximos de você e a quem você ama, diga: “Muito obrigado. Eu amo você, mas agora é hora de partir.” E traga à sua mente qualquer fé, qualquer devoção que você tenha. Se você for católico pense em Jesus, na Virgem Maria, no seu santo favorito, em algo que esteja além do mundano. Pense no absoluto.

Se você não tiver nenhuma fé em especial, pense apenas em uma luz, pense que está indo em direção à luz. E para aqueles que estão na presença de familiares ou amigos, na presença de qualquer pessoa que estiver morrendo, por favor não diga: “Por favor, não me abandone! Não vá!” Isso não é bondade. A pessoa está partindo. Diga apenas: “Nós te amamos. Foi um prazer ter você em nossas vidas. Agora, você pode partir!” Então, siga adiante. Todos nós iremos morrer. Para mim isso é tão interessante! Todos temos diversas ideias sobre o que vai acontecer depois da morte, mas agora, nós vamos descobrir, “Uhul!”

P: Sou um paciente que tem câncer. O que eu posso fazer frente à indiferença dos membros da minha família e dos meus amigos?

JTP: Eu acho que o ponto é que todos deveriam ser honestos uns com os outros. O que quer que você esteja sentindo, seja o que for que esteja experienciando, você deveria conversar sobre isso com ao menos uma ou duas pessoas que você sente que o compreenderiam. Por outro lado, aqueles que se dispõem a escutar você deveriam apenas estar ali presentes, ouvindo o que você tem a dizer. Não há grandes soluções, mas simplesmente ser capaz de discutir coisas que são muito importantes no futuro imediato daquela pessoa, segurar a mão dela e ouvi-la — isso é um grande alívio.

Há um tempo, na Austrália, encontrei-me com uma mulher que ainda não conhecia, mas que era casada com um homem budista que estava morrendo de câncer, mas eles nunca falavam a respeito de sua morte. Então, ela me disse: “Por favor, você poderia conversar com ele e perguntar se há algum tipo especial de funeral, ou alguma prece ou cerimônia que ele gostaria que fosse feita? E eu disse: “Mas ele é seu marido! Por que você mesma não pergunta?” E ela disse: “Não, não, não. Nós não conseguimos falar sobre isso.” Então, eu fui vê-lo. Ele estava na cama do hospital, realmente muito doente. Segurei sua mão, comecei a conversar e disse: “Quando você estiver pronto para ir, você tem alguma ideia de algum tipo de funeral ou de alguma cerimônia que você gostaria que fosse feito? ” E ele disse: “Ah, ainda bem que você perguntou. Muito obrigado! Sim, sim. Eu quero isso, aquilo outro, gostaria que fosse feito isso, aquilo, aquilo outro.” Ele tinha tudo planejado! Mas como todos estavam em negação, não falavam sobre a única coisa que realmente importava para ele naquele momento — a sua própria morte! Ninguém admitia! E ele se sentia completamente sozinho. Por favor, não façam isso.

Se alguém estiver morrendo, faça com que essa pessoa saiba que você está com ela. Compreenda. Não negue aquilo que no momento está na frente dela. É a coisa menos bondosa a ser feita. Nesse momento, ela precisa de alguém que esteja com ela, que a apoie, que a ajude, e que não fique negando sua morte apenas porque você se sente desconfortável com isso.

Uma vez, na Índia, conheci um monge que vivia na região de Lahoul, que estava doente. Ele foi ao médico, recebeu uns medicamentos e o médico disse: “Ok, pode ir. Você vai ficar bem.” E ele disse: “Veja, eu sou um monge e preciso saber da minha verdadeira situação.” O médico disse: “Certo. Você tem no máximo dois meses”. Ele disse: “Muito obrigado!” Ele era um monge, entrou em retiro e morreu em retiro. A questão é que se o médico não dissesse a verdade a ele, em quem ele poderia acreditar? Como seres humanos, como animais, como todos os seres, nós nascemos, se não morrermos antes, nós envelheceremos, adoeceremos e, por fim, todos morreremos. Isso é o que nos une. Nenhum de nós vai ficar livre disso.

Nós nascemos, crescemos, envelhecemos, adoecemos e morremos. Essa é a coisa mais natural do mundo. Não há nada a temer. É apenas como as coisas são. E se aceitarmos isso, uma carga muito grande — “onde foi que eu errei” — simplesmente desaparece, e então nós apenas reconhecemos como a natureza, de fato, é!

Talvez não possamos mudar nada fisicamente, mas, certamente, podemos nos transformar internamente. Podemos mudar a nossa atitude com relação à vida e a nossa atitude com relação à morte.

Muito obrigada a todos! Do fundo do meu coração, desejo que todos sejam muito felizes.


Vídeo original:


Autora : Jetsunma Tenzin Palmo
Tradução: Jeanne Pilli
Transcrição: Audrey Pilli
Revisão: Eloise Porto


Para mais informações sobre a vinda de Jetsunma Tenzin Palmo ao Brasil, acesse: http://drukpabrasil.org/