— Cala a boca, Rita!

Thaís Campolina
Revista Mormaço
Published in
3 min readAug 1, 2023

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Mas a Dona Marta precisa sair mais de casa, Clarice. Nem telefone ela atende mais. Não faz bem pra ninguém ficar o dia todo no sofá, se isolar assim. Ainda mais ela, tão ativa. Sua mãe já fez de tudo um pouco nessa vida, não é? Lembro quando ela inventou de cursar faculdade de Letras depois de velha. Não sei como o Carlos deixou. Agora ela precisa viver um pouco. Tirar a cabeça dos livros, aproveitar a aposentadoria, visitar a família…

E quando você vai arrumar uns netinhos para ela cuidar, Clarice? Sua mãe vai gostar demais de correr atrás da netaiada, levar a turma para brincar na praça, inventar moda todo Natal, preparar almoço para a família toda aos domingos, você vai ver. Você e o seu… o seu… o seu namorido precisam providenciar um bebê logo, hein?

É, mas toda mulher precisa ser mãe, Clarice. Tudo faz mais sentido depois que você é mãe. E uma mulher na idade da sua mãe precisa de uma criança pra mimar, só assim ela vai ficar com a cabeça no lugar. Casa cheia é importante demais pra gente mais velha. Você tem que entender que essa é a missão que Deus deixou pra nós. Sua mãe vai virar outra com uns meninos para cuidar. Você vai ver como ela vai ficar ótima assim que sua barriga começar a apontar. Tudo tem sua hora, logo você vai querer. Eu sei que você vai mudar de ideia. Você precisa incentivar sua mãe a vir me visitar de vez em quando. Eu posso emprestar meus netinhos para ela ensaiar. Os meninos da Paula iam adorar comer a broa de fubá que ela faz. Leva a Martinha lá em casa domingo que vem, querida. Depois da Missa. A gente pode fazer um almoço daqueles e chamar a família toda, com a parmegiana de frango dela como prato principal. O que você acha?

Mas ela não pode nessa data? Desde quando ela é de sair assim? E você agora me diz que ela sai muito? E que está ótima? Que não sabe de onde eu tirei que ela só fica em casa sofrendo? Ela nunca nem me visitou na minha casa nova! Nunca mais vi sua mãe no supermercado, na padaria, na igreja, nem na lotérica ela apareceu no último ano. Desde que ela se aposentou, ela sumiu de vista, Clarice! Nem no Whatsapp ela dá mais as caras! Parece que tudo que eu mando pra ela se perde em um limbo! Ah, não me diga que ela gosta dessas coisas de viajar. Era só o que me faltava. Essa semana mesmo ela está no Rio e no mês que vem vai para Salvador? Sozinha? Sem o Carlos? Como assim ele não vai junto nessas viagens? Ele não gosta muito? Que?

Ah, Clarice, a Dona Marta precisa entender que tem idade para tudo nessa vida…

esse conto foi escrito no desafio de maio do coletivo Escreviventes.

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Thaís Campolina
Revista Mormaço

leitora, escritora e curiosa. autora de “eu investigo qualquer coisa sem registro” e “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” https://thaisescreve.com