África vive na favela

Thaianne Oliveira
Sep 23 · 3 min read
(Imagem retirada do Favela Vive, Rap, Drawings, Graffiti)

A vivência de morar em favela é com certeza o maior treinamento de sobrevivência pro mundão. A comunidade consegue te dar um castigo como lição, nada é desperdiçado, e quando você pensa que não está aprendendo nada, a prática no dia a dia te mostra que você aprendeu sim.

Para quem já é nascido e criado na favela, a responsabilidade de não faltar com os seus é uma cobrança dobrada. Tudo que sai da comunidade, para ela volta, como se fosse um ciclo, ou pelo menos deveria ser assim.

“Tudo gira em prol da manutenção da comunidade.”

É meus caros, o consumo extrativista daquele jeitinho branco que nós pretos já conhecemos agora assombra as favelas também.

Já repararam na quantidade de irmãos pretos que saem das comunidades, mas não retornam às origens para ajudar com nada, nem um levante pelas crianças na favela quer dar? Porém depende né, afinal "um bom filho à casa torna". Se está passando aperto no mundão, aí volta e busca o apoio e proteção de sua comunidade.

Como já citado antes, a comunidade requer retorno, também precisa do movimento em conjunto para "evoluir", mas parece que só tirar, sem devolver, se tornou um hábito comum e menos trabalhoso, sabe.
Os tempos já não são mais os mesmos.

Ser cria de favela é treinamento prático e diário, é estar atento a tudo, correria pra ajudar a família, convivência com os irmãos que buscam a criminalidade - que aliás, também é uma forma de crescimento em prol da comunidade -, não dar mole pra polícia na rua e sobreviver ao racismo de cada dia.

Isso não vem em manual, é a vivência que te faz aprender na prática.

Ouvi uma vez um colega negro e acadêmico dizer que o maior desejo dele é voltar e viver na África, e o questionei: o que ele levaria de bom à África? No que ele acrescentaria na comunidade? E ele respondeu que seria os ensinamentos acadêmicos dele… confesso que fiquei espantada e percebei que ele seria mais um mensageiro preto entregando conhecimento branco, ou seja, destilando mais venenos em nossas terras a mando de branco.
Assim não dá, não dá pra voltar em África e operar de modo branco, agir de forma branca e fazer as coisas de forma branca, já sendo colonizado e tentando colonizar o resto dos irmãos.

“Olhe pra sua nega véia e entenda
Que num é em blog de hippie boy
Que se aprende sobre ancestralidade”

(Trecho da música Bença — Djonga)

Esse exemplo é bom para nos fazer refletir: aquilo que é aprendido na academia, como a teoria da Afrocentricidade, é preto mesmo? Ou será que só estamos em espaços brancos, fazendo discursos com o corpo preto, mas falando de forma branca?

Hoje as estatísticas apontam que cada vez mais jovens negros entre 13 e 21 anos entram para o tráfico de drogas em suas comunidades, pela necessidade de ajudar a família.

Outras atividades que fazem com que mais jovens negros passem mais tempo nas ruas do que nas escolas são trabalhos como: vendedor ambulante, flanelinha, engraxate…

Sendo eles em grande maioria homens negros, sem estudos completos, sem oportunidades e criados somente pela parte maternal, e com o peso da responsabilidade de ser o homem provedor da família para dar um levante na renda.

Esses são os jovens que vivem em prol de sua comunidade, até mesmo sem perceber, sem dar nome chique pra isso, sem nem mesmo ter completado o ensino mais básico, que é o médio.

Mas o mais importante eles sabem e têm: senso de comunidade.

E viver em senso de comunidade faz alguém se levantar e levantar nossos irmãos e irmãs pretos(as) que vivem na margem periférica que hoje você olha de cima.

E aí eu te pergunto: se sua comunidade te olhar hoje o que ela vai sentir, orgulho ou vergonha?

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Thaianne Oliveira

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