A esquerda é como a direita, a diferença é que ela engana dando uns agrados e ganha fazendo alarde do fato

Maicol William
Jun 7 · 6 min read

Voltemos mais uma vez para o papo dos 428%. Você sabe o que é? É o crescimento no número de jovens negros mortos por arma de fogo, num período de 20 anos. Só por arma de fogo! Se formos computar a morte por outras armas, etc e tal… pense! E pense também que esse crescimento se deu justamente num período cuja maior parte do tempo o país esteve sob a direção de governos de esquerda. Tipo, um período de 20 anos, em que mais de dois terços, estivemos sob governos do PT.

Em 25 anos, também grande parte sob esse governo, o encarceramento subiu 8 vezes!! Então, vamo lá! Encarceramento subindo 8x, em 25 anos, e morte de jovens negros por arma de fogo subindo 5 vezes em 20 anos. E, em 17 anos, o número de negros ingressando na faculdade — que também é mais sobre alienação que sobre emancipação— subiu 4 vezes, em 17 anos. E muito se fala desse governo pelo que subiu 4x, fazendo sombra, ou desviando a atenção pro que subiu 8x e pro que subiu 5x. Foi a estratégia do espelhinho, fazendo referência àquela dita história dos portugueses quando chegaram por essas bandas. O espelhinho aqui é uma analogia com essa política de representatividade. Galera ficou nessa de “To me vendo, to me vendo”, “mamãe, eu to na Globo”… pra eles irem descendo o sarrafo onde não se está vendo.

Onde está o homem negro? O que falta de homens negros na faculdade e em espaços de debate sobra nos números do genocídio.

Agora, entremos com o recorte de gênero. Quem é maioria no grupo de “tô me vendo, tô me vendo”?! Quem é a maioria que tá sendo trucidada onde ninguém tá vendo? Quem compõe a maioria nas estatísticas que o governo divulga e sobre as quais está se promovendo (políticas afirmativas) e quem compõe quase que a totalidade (93%) das estáticas que o governo tá escondendo — estatísticas de assassinatos e encarceramento?

É pela estratégia do espelhinho que eles passam por baixo do radar, quase imperceptíveis com sua máquina de genocídio a todo vapor. Pra passar batido, usam a técnica do espelhinho. Favorecem um gênero, contam com esse gênero, pra descer a madeira bruta no outro. E esse texto se complementa nos diversos outros em que venho falando do feminismo negro, da demonização do homem preto. Esse homem que não é conhecido, só é conhecido pelo seu outro (seja de raça, seja de gênero), nunca de modo positivo. Só é conhecido por apontamento, em princípio, de raça, e agora de gênero, com conclusões que se completam: ele não presta. Pedir a uma irmã feminista que fale algo de positivo do homem negro, ou sobre quando foi a última vez que fez isso, ou onde vê isso, é quase igual pedir a um branco. Não sai nada! Nada! Nada de positivo. (Ah hipersexualização não é algo positivo, taokey?). Mas alguém que resiste, como primeiro alvo do genocídio, há mais de 500 anos não ter nada de positivo? Só ser visto como quem não presta?! Precisamos refletir sobre isso.

Essa parada é algo que contribui pro genocídio. Muito! Pois, o que não presta não faz falta, se não tem nada de positivo, quem vai dar atenção e sentir falta disso? Quem, na nossa raça, em termos de gênero, dentre nóis, herdou tudo de positivo? Quem herdou toda a sensibilidade e valorização? A mulher! Elas são as poderosas. Os homens, uns trastes, afroembustes, etc. Aí, a atenção se volta pra como se move e onde está indo ela. O outro lado, quem quer saber? Ele é desvalorizado. Não é digno de atenção. Assim, nesse governo, atentamos pra umas estatísticas e pra outras, não.

Matéria do jornal O Globo — A quem se direcionam as políticas afirmativas, paliativas e tokenistas?

Tem uma outra questão! Quem é que tem o direito de contar a história? Quem conta a história é quem tá chegando. E tá contando como? Igual branco, afinal, é educado por branc’o, num sistema branc’a, onde a história se conta a partir do próprio umbigo e dos próprios interesses, pela própria exaltação. E essa reflexão se completa em diversas outras que já fiz aqui criticando a academia e o feminismo negro, apontando que quem tá chegando tá chegando embalado por um discurso de nóis mas tá fazendo é por si. Quem tá chegando quer é saber do próprio umbigo. Diz que tá contando a história quando o que conta é a Sua história. Aí, sim, se faz uma pirâmide com a mulher negra na base. A história é sua né, tu conta como quiser, né? E ai de quem ousar, mesmo com dados, contestar. “Sai, macho!”.

Lembrando aqui, de cara, duas reflexões nas quais já falei isso, 1) Sobre a tal solidão do homem negro e 2) “o homem negro não chega porque tá pouco se fodendo. Leiam.

É a antiga política de dar de um lado, pra tirar do outro. Afinal, eles querem é ganhar, e nunca vão tirar do próprio bolso

Podemos alcançar o que tá rolando aqui, que é puramente política, pela atuação dos EUA pós Segunda Guerra frente aos insatisfeitos com o capitalismo. Pra Europa, diante da ameaça do comunismo, promoverem o Estado de Bem Estar Social. Pra América Latina, pau! Desceram o pau! Intervenção e a apoio a ditaduras a torto e à direito. Como também foi na África. Ao grupo mais aproximado se estende a mão. No outro, se desce a mão. Desce a Madeira!!

É a antiga política de dar de um lado, pra tirar do outro. Afinal, eles querem é ganhar, e nunca vão tirar do próprio bolso. É a política de cooptar um lado, pra tê-lo na mão, ou no bolso, pra descer a lenha no outro. É uma política de fazer uma obra de um lado pra chamar a atenção pra esse enquanto faz um buraco, um rombo, do outro.

As políticas afirmativas são pra esquerda o que o plano Marshall foi para os EUA. Só que com um se visou segurar a insatisfação com o capitalismo, se comprar pessoas pela preservação do capitalismo. A esquerda faz isso é pelo racismo, pela preservação do sistema de supremacia branc’a, da qual se beneficia. Pare e analise direitinho que tu vai entender isso. O Estado de Bem Estar Social é pro capitalismo o que as políticas afirmativas são pro racismo. São planos de contingência. Quando o bicho pega, eles dão uns agrados pra amansar os ânimos exaltados e pra ter “carta branc’a” pra “amansar” os exaltados, eliminar os indesejáveis enquanto o primeiro grupo olha pro espelhinho, olha pra outro lado . E é até uma espécie de suborno. Porque a galera que se beneficia, muito difícil vermos ela mordendo a mão que a alimenta. Se coloca o bem ao indivíduo (a si) acima do que se faz ao coletivo. Se faz bem a ti, você relativiza o que faz ao coletivo. É “mas pelo menos” pra tudo que é lado. “Pelo menos pra isso”… “pelo menos pr’aquilo”… e na prática temos pessoas que em tese não gostam de racismo comendo na mão do racismo.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Maicol William

Written by

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade