A Família Africana como Base do Pan-Africanismo*

Rodrigo Souza
Jun 30, 2019 · 5 min read

O que faz o mundo africano se manter vivo é a permanência da unidade base da existência do Povo Africano: a família. Aqui não falo do modelo de família ocidental, cristã, comercial de margarina ou pai, mãe e filho que seja. O que está em jogo é a instituição familiar, que não se limita a laços consanguíneos, nível socioeconômico ou a orientação sexual das pessoas. Aqui o papo de família são os valores que ela carrega e aplica enquanto coletividade, principalmente união e proteção de um para com o outro. Neste sentido, o indivíduo só pode existir coletivamente e numa lógica espiritualizada, o que lhe garante a identidade pessoal, noções de responsabilidade em relação a si e aos outros. Diz mais sobre o que ele faz e como faz, do que o que ele é em si.

Houve uma época, antes da era comum, em que nós africanos tínhamos total controle sobre nós mesmos, sobre nosso funcionamento familiar. As invasões dos europeus ao longo dos séculos trouxeram como consequência o rompimento da estrutura da família africana por várias gerações, afastando a ideia de conexão das pessoas em famílias comunitárias em direção à reconfiguração em famílias nucleares. Tudo isso rolando em meio a várias lutas, muitas mortes e resistências do nosso lado. Como consequência das invasões, e em meio às disputas, foram se criando entre nós gerações de confusos em relação a nossos valores, nossa cultura, com sentimentos enfraquecidos de lealdade às nossas origens.

Quando há estranhos vivendo contigo, sua sobrevivência está condicionada à verificação contínua da lealdade deles. A lealdade à origem é uma maneira de tu se manter em conexão com suas raízes. Pegando essa visão e pensando nos tempos atuais: quando tu tem uma casa mas não tem compromisso com ela, o que acontece? Tu é leal à proteção de sua casa? Se não, o que faz por lá?

Se fala muito por aí a partir de Diop que uma das grandes fortalezas do Povo Africano se dá em sua xenolifia, na afeição ao que é diferente, ao que é estrangeiro. Uma das formas do povo em manifestá-la é no consentimento em receber outras pessoas em sua casa. Por outro lado, se fala também que isso foi uma grande abertura para nossa colonização. A xenofilia só nos faz sentido quando ligada a valores de mundo que só podem ser concebidos dentro de uma espiritualidade africana, cuja base é a conexão. Conexão que se mostra com as forças da natureza, na interação uns com os outros em matéria e espírito, na união entre emoção e razão. Daí encontramos força, energia para realizar e fazerem as coisas acontecer.

Fora disso, na mesma lógica dos efeitos das invasões dos europeus e árabes ao longo dos séculos, a xenofilia enfraquece nosso sentimento de lealdade às nossas origens e favorece o rompimento da estrutura da família africana. Quando está ligada a valores africanos ela se aplica à coletividade e é usada para união e proteção. 10/10. É como um aplicativo preto rodando em sistema operacional preto. Usar a grande capacidade em receber o diferente e estrangeiro sem critérios muito bem definidos é nocivo, não é estratégico. É como colocar um parafuso no meio da engrenagem em movimento. Só serve pra gente o acolhimento do estrangeiro que funciona segundo a regência da nossa maquinaria, se não, é produção de ruptura, é auto rasteira.

A espiritualidade é a fundação da casa, o que inaugura a instituição familiar. Uma espiritualidade enfraquecida produz desconexão de quem sou, com quem me relaciono e como me relaciono. Se uma família africana não segue seu funcionamento respeitando a coletividade, e sim valorizando mais o indivíduo, há ruptura em sua estrutura. O fracasso em manter os valores da família africana ao longo das gerações coloca ao Pan-Africanismo a seguinte necessidade: ter como visão resgatar a unidade na diversidade dos povos africanos do continente e da diáspora para obtermos nossa autonomia.

Os povos africanos possuem diferentes configurações familiares. Muitos de nós não possuem pais e mães e são criados por avós, tios, madrinhas/padrinhos, tios de consideração. E continuamos nos reconhecendo enquanto família, porque funcionamos e nos identificamos como tal. O que faz ser família africana é seu modo de funcionar com os valores que carrega. Isso diz de estrutura. O Pan-Africanismo, tendo a marca da construção da valorização do ser africano em prol de sua libertação do colonialismo e neocolonialismo, se faz efetivo quando reconstrói a estrutura familiar, marco de nosso povo. Papo de resgate da família africana em e entre nós.

O termo Pan-Africanismo surgiu oficialmente em 1900, mas já nasceu dando ruim, sem a proteção devida: estabelecemos concessões com outros povos, convocamos conferências para discutirmos nossa libertação no solo dos outros e falando a língua deles. Tropeçamos na largada por calçar o tênis do outro pra correr com o nosso pé. Há momentos em que a caminhada pela nossa libertação será descalça mesmo. A liberdade de um povo é conquistada com as próprias mãos e pés a cada geração. Ela nunca será concedida, o que exige da gente certa aspereza nesta tarefa. Cada geração é responsável por garantir sua liberdade novamente. O processo de descolonização continua em aberto.

Por vezes, a falta de dendê na materialização de negritude em conteúdo e forma no Pan-Africanismo tem a ver com a ausência do movimento de restauração do homem e mulher africanos. Esse movimento só se dará no sistema de base a ele acoplado, de cultura e tradição africanas, dinâmico, ligado à vivência popular: a família. Caso contrário, trará ótimas contribuições pra comunidade mas não deixará de padecer do mal da desconexão.

O Pan-Africanismo envolve muitos ensaios, experimentos políticos, vertentes e referências. O desafio é ver o que dá pra aproveitar do muito que foi feito e o que não serve pro que a gente tem pra fazer hoje em dia. Houve momentos na história em que ele teve um destino mais intelectual que prático. Outros em que se privilegiou a prática independente de alguma teoria relacionada. Momentos de preocupação de intelectuais negros em serem compreendidos e respeitados pelos ocidentais, de intensa incorporação do negro à cultura artística tida como universal e de incorporação da negritude como complementação da civilização do ocidente. É aquilo que a história já mostrou: o conteúdo preto sendo tratado a partir de uma cultura branca vai ficar contaminado em alguma ocasião.

Bandeira Pan-Africanista. Fonte: Internet

*Texto base — Pan-Africanismo e o Futuro da Família Africana. União dos Coletivos Pan-Africanistas. Coleção Pensamento Preto: Epistemologias do Renascimento Africano – Volume I. UCPA. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2018.

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