A mitologia de Exu e a arte de aprender com a adversidade

Cair não é problema, o problema é não aprender nada com a queda.

Imagem da Internet. Foto de Pierre Verger de um jogo de capoeira.

A capoeira é um pilar fundamental da minha visão de mundo, e nela existe uma máxima segundo a qual “errado é quem leva”. Pensa só: se você é assaltado todo dia, no mesmo horário, pelo mesmo bandido, na mesma esquina… não é roubo, é parceria.

Vendo por outro lado, se o cara tá se dando bem todo dia, no mesmo horário, em cima da mesma pessoa, na mesma esquina… por que ele pararia? Por que ele faltaria àquele “encontro” (rss), com aquele pessoa, naquele horário, naquela esquina? Conhece o dito popular que diz que “em time que está ganhando, não se mexe”? Pois é…

Ele está se dando bem. Ele quer mais é que siga o fluxo, e vai continuar seguindo. Pra ele, é tipo um dating, um encontro. Vocês são tipo alma gêmea mesmo, porque existe sempre um sapato velho para um pé descalço, diz o velho ditado. O criador é sábio, não fez nada sobrando. Só existe malandro porque existe o otário. O casamento perfeito se dá quando um encontra o outro. De outro jeito, não vai dar certo. Afinal, dois bicudos não se beijam, né?

Talvez, a função do malandro seja justamente acordar os otários. É possível que seja um mero teste do criador, visando a evolução, o aprimoramento, de suas criaturas. É o vestibular da vida pra ver se a galera muda de grau. Só que a rapaziada está reprovando pacas, tropeçando nas próprias pernas. E vai continuar assim — vai ser daí pra pior — enquanto não largar mão dessa forma alienada de ver o mundo e se relacionar com as coisas, dentro da qual os problemas são vistos como obstáculos e não como desafios.

A gente precisa a passar a ver o mundo a partir de uma perspectiva própria, africana. Eu recorro à mitologia iorubá e, mais especificamente, aos itans de Exu e às lições que eles contêm, em forma de parábolas, de metáforas.

Imagem da Internet de Exu, na qualidade de Legba, da Santería. Em suas mãos, as chaves e, atrás dele, a encruzilhada, os caminhos que guarda.

Na dita mitologia, Exu é quem guarda o princípio do mundo. Também é ele o Orixá da confusão, aquele que tá sempre te pondo em situações e explorando sua capacidade de fazer o ebó e encontrar soluções, encontrar novos caminhos; numa dinâmica que tende a te ajudar a expandir seu leque de respostas às adversidades. Quem responde bem, cresce como ninguém. Quem não responde bem, não evolui, não sai do lugar.

Aí, essa pessoa vai ficar culpando a “má sorte”, logo ela que viveu te dando oportunidades de aprender e você não aproveitou. Não vê que pelos insucessos e pelos descaminhos, Exu também ensina os caminhos.

Ora, saber por onde não se deve ir também é aprender por onde se deve andar, pois conhecer os descaminhos é, sim, uma das formas de conhecer o caminho.

Agora, pra quem cai e não aprende a lição, cair é cair à toa. Sendo que o problema nunca foi cair. Cair muitas vezes é até a solução. Quantas vezes a gente não tomou um tombo na vida e acabou percebendo que caiu pra cima e que aquele copo que lhe caiu da mão lhe permitiu ter a mão vazia para pegar outro com um conteúdo bem melhor? Há perdas que são mesmo um tapa nas fuças, que, mais que tudo, tem a grande utilidade de nos virar a cara e nos ajudar a olhar para outro lado, para enxergarmos outros caminhos.

Então, cair não é, de forma alguma, o problema. O problema é não aprender com a queda e, por isso, viver tomando a mesma rasteira seguidas vezes. Pois, de outra forma, se você aprende com cada rasteira que toma a não cair nela de novo, é cada vez menos uma maneira que outros dispõem para te derrubar na vida, cada vez mais você terá melhores condições de se manter de pé diante do que venha te tombar. Você vai se tornando imune a um número cada vez maior de “venenos”. E, com um tempo, já ta fazendo do veneno, suco — ainda mais ousado que fazer do limão uma limonada (rss).

Mas é preciso aprender… É preciso aproveitar o que a vida dá. Exu é a boca que tudo come. De tudo pode se tirar uma lição e de algo muito ruim pode, sim, sair algo de muito bom. Porque Exu é o epicentro das possibilidades e da superação das impossibilidades. Não é a toa que ele também é o Orixá da vida. A vida é linda. A vida ensina. Ensina de diversas maneiras. Possui maneiras muito peculiares de ensinar, não é? Assim é Exu.

Gente, o pior do veneno é passar veneno à toa. Pior do que as derrotas, é não aprender com elas. Isso, sim, é terrível. É tipo se matar de trabalhar e, no fim, não receber. Terrível!

Agora, retomando o foco da prosa, se você que está perdendo, que está se dando mal, que tá tomando na cara, não vê nisso motivo suficiente para mudar… ou, colocando de outra forma, se no prejuízo você não se mexe, tu acha que você se mexeria caso estivesse no lucro? Com certeza, ficaria mais parado ainda. Não é, não? Se perdendo tu não se mexe, ganhando é que não sairia do lugar mesmo.

Pois bem, é exatamente esse aí o seu outro: um alguém criado na mesma cultura de inércia que você, que, provavelmente, se estivesse perdendo, pouco se coçaria, assim como você está fazendo; e que há de se coçar menos ainda pelo simples fato de estar ganhando. Aí, se você espera que seus gritos por mudança de postura vão surtir mais efeitos nele do que em você, realmente, tu tem sérios problemas.

Por que você acha que alguém estaria disposto a fazer um sacrifício por ti que nem mesmo você faz por si? E até onde você acha que vai a legitimidade do seu pedido?

Mitologia iorubá é na base do “quer colher tem que plantar e o que tu plantar há de colher”. É troca. É ter na medida do que bota. É fazer por merecer. Quem pede, tem que mostrar que merece.

E é isso! Exu ajuda, mas antes você tem que ajudá-lo a te ajudar. Tem que fazer o ebó, tem que fazer o sacrifício, tem que aprender a sangrar. A mitologia iorubá também ensina que quem não sangra não gera vida. Quem pode contestar essa verdade? Ela é simples e poderosa. Então! Quer viver? Quer dar vida às suas aspirações? Pois bem, já sabe o que fazer, né? E saiba que não basta saber, tem que fazer, de fato!

Axé!!