Paulo Balogum
Aug 19 · 7 min read

Vi meus pais fazendo muito trabalho braçal quando eu era moleque. Os vi levantando parede, pintando, mexendo com eletricidade, carregando cimento, areia, tijolo. Eu, por outro lado, aos 12 anos passei por um processo seletivo de uma ONG que me deu uma bolsa pra estudar no São Bento, colégio com uma das mensalidades mais caras do país. E aí, dos 13 aos 18 anos estudei em horário integral e, durante meu ensino médio, de 2011 a 2013 eu tinha prova todos os sábados. Era o orgulho da família.

Uma frase que sempre ouvia, sobretudo do meu pai, era: “É, meu filho. Você tem que estudar pra não precisar fazer isso aqui”. E foi isso que fiz: estudei. Não me preocupei com o trabalho braçal, com os problemas da casa e tive que parar com a capoeira que eu fazia na época porque não tinha tempo. Moleque magro e fraco, não sabia me defender dos playboy racista e, mesmo se soubesse, não poderia dar soco na cara de ninguém senão poderia custar minha bolsa de estudos. Mas eu aprendi equações do segundo grau, química orgânica e inorgânica, leis da termodinâmica e leis de Newton. Aprendi a diferença do Barroco pro Rococó, a interpretar pinturas renascentistas, maneiristas, impressionistas, expressionistas. Conheci Schopenhauer, Nietzsche, Platão e Sócrates...

O fato é que eu esqueci muita coisa e a maioria das paradas foi inútil. Não que tudo que seja ensinado na escola seja completamente inútil pra comunidade, mas a forma com os brancos lidam com o conhecimento é muito escrota: conhecimento é status e serve pra você obter ganhos pessoais e mais nada. E naquela época eu tava longe de ter o conhecimento que tenho hoje sobre racismo. Eu mal entendia quais eram as implicações de ser um homem negro. Eu só achava que era muito foda estudar no São Bento porque eu ia passar pra faculdade e ia aprender muita coisa útil, ia ser um grande engenheiro civil que ia impactar minha comunidade e zaz.

Tão jovem, tão ingênuo…

E não é preciso dizer que na Universidade a lógica é a mesma. Não é esperado que um engenheiro civil levante parede ou bata laje. Ele é o cara dos cálculos, é o cara que manda alguém fazer. Ele é o cara que estudou pra não precisar fazer aquilo. Certa vez eu tava conversando com uma colega que na época cursava o sétimo período de engenharia elétrica. Mina CDF pra caralho. Perguntei pra ela em tom de provocação: “Tu sabe instalar um chuveiro elétrico?” e ela respondeu sem nenhum pudor que não sabia. Claro que não sabia. Talvez nunca precise saber. Ela sabe o que é resistência, capacitância, indutância, lei de Gauss. Integra, deriva, faz as conta toda, mas instalar um chuveiro? Pra que???

Vivemos numa sociedade que valoriza o saber em detrimento do fazer. Óbvio, pô. Nosso corpo é necessário pro combate ao racismo. Com o corpo a gente se defende e com o corpo a gente constrói. O branco permite que meia dúzia de pretos tenham acesso ao saber, mas no processo tira deles a capacidade de fazer.

O racismo é uma parada muito bem estruturada mermo, putaquipariu. Dos pretos que têm corpo pra combater o racismo é negado o acesso ao conhecimento e dos pretos que têm acesso ao conhecimento é tirado o corpo.

E o erro dos pretos estudados é achar que de fato o saber vale mais que o fazer.

Primeiro porque o fazer te ensina muito sobre o saber, mas a recíproca não é verdadeira. Um pedreiro, por exemplo, consegue concluir muita coisa teórica sem saber fazer conta nenhuma. Certa vez, conversando com o marido de uma prima minha, que é um puta pedreiro e eletricista, ele me contou sobre as inúmeras vezes em que ele se estressou com arquitetos e engenheiros que pediam que ele fizesse algo que ele sabia que estava errado.

Segundo porque o saber transmitido pelo sistema educacional não é um saber despretensioso. Não é algo passado pra você de maneira neutra pra que você faça o que bem entender com ele. Tudo o que branco faz tem propósito. E no caso da escola e da Universidade é formar empregados obedientes, não donos de negócio, nem pretos revolucionários.

Racializando mais isso aí, sendo o propósito do sistema educacional formar gente obediente, ele é muito bem sucedido em não deixar passar nenhum preto insolente. Os moleques briguentos, respondões, agitados, brincalhões, revoltados são acostumados a ouvir desde cedo que não vão ser ninguém na vida. São desencorajados, desestimulados, desumanizados desde cedo. E acabam por muitas vezes nem terminando o ensino fundamental e logo tratam de arrumar um trabalho pra ajudar em casa e se sustentarem.

Então, quando tu passa pelo sistema educacional, os brancos já garantiram que tu não seja uma ameaça e ainda por cima só te ensinaram a trabalhar pra eles.

O que é uma merda, levando em conta que nossa comunidade necessita de gente que coloque a mão na massa. A gente não precisa de técnico, nem de comentarista. Precisa de jogador, de gente em campo.

Recentemente conheci a história de dois homens pretos fodas: William Kamkwamba e Richard Turere.

Kamkwamba é o homem de Malawi cuja história deu origem ao filme O menino que descobriu o vento. Movido pela vontade de buscar soluções para acabar com a fome provocada pela seca em sua vila, ele, que ainda era um menino de 14 anos na época, estudou física por conta própria e construiu um moinho de vento com a intenção de irrigar água e gerar energia elétrica.

William Kamkwamba e seu moinho

“Eu consegui informações para construir um moinho de vento. Eu tentei e fiz um”, conta William. Um quadro de bicicleta, uma roldana e canos de pvc foram as ferramentas que ele utilizou.

William Kamkwamba elvando energia elétrica para sua comunidade

Richard Turere vivia numa comunidade Masai no Quênia, onde o cuidado com o gado é algo extremamente importante. Sendo assim, aos 11 anos de idade, ele sentiu a necessidade de resolver um problema: como impedir os crescentes ataques de leões ao rebanho? A comunidade contava com guerreiros chamados Morans, que acabavam matando os animais, porém Turere quis buscar uma solução menos perigosa e menos sangrenta. Ele conta que, num certo dia, saiu a noite com uma tocha e percebeu que os leões não apareceram, indicando que eles tinham medo de luzes em movimento. Então o moleque estudou, arrumou uma bateria velha e criou um sistema de lâmpadas que piscavam, enganando os leões e evitando a matança.

Richard Turere. Do lado esquerdo do menino é possível ver uma das lâmpadas presa à cerca

O que eu acho muito foda é que nas duas histórias a vontade de fazer precede a busca pelo saber. Aprender o que a comunidade demanda de nós devia ser nosso modus operandi. Os dois queriam resolver um problema da comunidade deles, queriam fazer algo e buscaram o saber necessário para partirem pra ação. Nem as condições desfavoráveis, nem a falta de recursos adequados os impediu. Nos dois casos o saber está a serviço do fazer. As duas coisas se complementam. Assim é com Orunmilá e Exú. Orunmilá só se faz sábio porque Exú, aquele que está em todos os lugares e que faz o que precisa ser feito, passa a visão pra ele.

E o que essa sociedade racista de merda coloca na nossa cabeça é justamente o contrário. A gente busca o saber pra não precisar ter que fazer. A gente aprende que uma coisa vale mais que a outra, quando na verdade as duas se completam. E mesmo que a gente tenha a intenção de fazer algo, a maioria de nós não saber exatamente o que quer fazer, qual problema quer resolver. E é aquele papo: pra quem não sabe o que quer, qualquer caminho serve. E se a gente não trabalha diariamente a nossa mente, o nosso corpo e no nosso espírito pra criar formas de resolver problemas nossos, a gente vai passar a vida resolvendo problema de branco.

Pega essa visão aqui…

“O que os negros estão sendo ensinados agora não guia suas mentes para uma harmonia com a vida que eles devem enfrentar. Quando um estudante negro trabalha na faculdade polindo sapatos, ele não pensa em fazer um estudo especial sobre a ciência subjacente à produção e distribuição de couro e seus produtos… O menino negro enviado a faculdade por um mecânico raramente sonha em aprender engenharia mecânica para construir sobre a fundação que seu pai estabeleceu de modo que nos próximos anos ele possa atuar como um empregador ou um engenheiro consultor… A jovem negra que vai para a faculdade dificilmente quer voltar até sua mãe se ela é uma lavadeira, mas essa garota deve voltar com conhecimento suficiente de física, química e administração de empresas para usar o trabalho de sua mãe como um núcleo para uma moderna lavanderia a vapor. Um professor branco de uma universidade renunciou recentemente à sua posição para enriquecer lavando roupa para negros em uma cidade do sul. Um professor negro de faculdade teria considerado tal sugestão um insulto. A chamada educação dos graduados da faculdade negra leva-os a ignorar as oportunidades que têm e a procurar as que não encontram.”

Trecho do livro A Deseducação do Negro (capítulo V - A falha em aprender a ganhar a vida) escrito há mais de 85 anos.

Vai vendo…

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