Olokun e Agemo: uma lição de responsabilidade

Ao fim da criação do Aiye, Olodumare determinou funções, posições e obrigações para todos Orixás, que seriam como seus representantes na terra, assumindo certos deveres também em relação aos humanos. Com o tempo, a comunicação entre os povos e as divindades foi se tornando cada vez mais afinada. Ocorreu, porém, que Olokun, dona dos mares, começou a se envaidecer pela posição e pelo prestígio que possuía. Sua habilidade em tecelagem lhe permitia se apresentar com roupas muito belas, com os tecidos mais finos, com colares e diademas dos mais lindos. Passou, então, a alimentar pra si a ideia de que, no domínio da tecelagem, estaria não apenas acima de todos os seus iguais, os demais Orixás, como também do próprio Olodumare, o Ser Supremo.
Nesse pique, Olokun fez chegar uma mensagem ao dono do Orun, propondo um desafio para saber quem entre os dois detinha maior poder na confecção de roupas. Cientes dos motivos que moviam Olokun, Olodumare enviou Agemo, o camaleão, à terra como seu mensageiro para encontrar-se com Olokun. Posicionado em cima das rochas, à beira-mar, Agemo disse à Olokun que o dono do mundo espiritual havia concordado com o desafio e anunciado que se as roupas dela fossem mesmo tão maravilhosas, ela tomaria posição no Orun, ao lado de Olodumare; ele pede, então, que Olokun lhe mostre suas melhores roupas para que ele possa levar ao conhecimento e à avaliação de Olodumare.
Muito vaidosa, Olokun se prontificou a exibir, uma a uma, suas melhores peças e combinações. Primeiro, pôs uma bela saia sobreposta a um tecido verde brilhante e se exibiu perante Agemo. Agemo observou e instantaneamente sua pele tomou a mesma cor e tom do tecido. Desconsertada, Olokun buscou um lindo tecido vermelho, vestiu-o e correu para mostrar a Agemo. Ele observou bem e em pouco tempo sua pele espelhava a mesma cor vermelho do tecido de Olokun. Espantada, Olokun buscava outras dentre as suas mais belas combinações, para ver Agemo espelhar, sem esforço, as mesmas cores, tons e padrões. O incômodo foi se tornando desespero. Olokun, já cansada, foi caindo em si. “Se um simples mensageiro tem o poder de tomar em instantes a cor da roupa que eu lhe apresento, do que não seria capaz o grande Olorun?”, pensou a dona dos mares. E, percebendo o absurdo da situação em que ela própria havia se metido, disse ao mensageiro de Olodumare: “leve meus cumprimentos ao Ser Supremo e meu reconhecimento de sua superioridade.” Olokun, então, retirou o desafio e se retratou com Olodumare.
Esse itan fala muito sobre condutas que observamos em muitos espaços pretos. Aquilo que para muitos é a primeira vez senão único lugar onde experimentaram um posição de se fazer ouvir e serem vistos acaba dando lugar a uma dinâmica que compromete a coletividade e põe todo um trabalho maior em cheque. “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”, costumava ouvir em casa. E, em muitos casos, é por aí mesmo. Quem não se preparou, não se organizou internamente para assumir uma posição de responsabilidade, acaba atropelando a si mesmo e, se a organização não estiver sólida, firme, ainda leva a todos a volta junto pro chão. No quadro mais amplo da nossa desorganização espiritual-intelectual-corporal, onde o racismo confere destaque, palanque e financiamento às pessoas pretas que, sendo maus exemplos, não podem ser nossa referência, já é também esperado que muitos vão mergulhar de cabeça em poça d’água, e assumir condutas, retóricas, modos de atuação que são alheios aos interesses de organização do nosso povo.
É possível perceber também como essa lógica da representatividade, mesmo entre as pessoas que se dizem cientes dos seus limites duros e da dinâmica racista que a sustenta, alimentou em pretos e pretas de ego fragilizado e subjetividade embranquecida um desejo de protagonismo, de vanguardismo, que não tem chão, não tem fundamento comunitário que dê sustentação. É nesse pique que vemos muitos cuspirem no prato que comeram até se lambuzar; vemos quem chegou depois se valer do que recebeu dos que vieram antes, sem bater cabeça, e ainda querer virar a mesa sobre os mais velhos. Como Olokun, deslumbrada com a posição e o poder que Olodumare lhe confiou, estão muitas pretas e muitos pretos por aí querendo comprar disputa com quem lhe abriu caminho e lhe possibilitou uma posição de responsabilidade e obrigação frente aos seus. Nos casos mais autodestrutivos, vemos gente sem histórico compatível, ou simplesmente sem histórico nenhum de prestação de serviço à comunidade, pretender jogar lama no trabalho de quem já vem de longa estrada alimentando a comunidade. A desconexão é tal que Agemo está lá diante da pessoa, espelhando para ela suas cores, o que lhe move, as forças internas e externas que a movimentam ou paralisam, e a ficha não cai.
Parte da nossa tragédia reside aí mesmo: no quanto muitos de nós não levam o racismo a sério. Se a responsabilidade entendida como habilidade de responder impõe a questão da organização coletiva, esta precisa ser tanto precedida quanto acompanhada pela auto-organização individual no plano espiritual, intelectual e corporal. Como disse Nara, no Dissecando sobre Violência, Colorismo e Darwinismo, em resposta a uma pergunta, se você não busca estar organizado internamente, individualmente, você não tem como trabalhar pela organização da coletividade. O que para pessoas pretas deveria ser óbvio: “só tem como sair, o que entrou”, escutamos muito no Òkòtó. Sem nos refazermos como homens e mulheres cuja posição e obrigação a prestar à comunidade precisam ser reconstruídas de dentro pra fora, como também de fora para dentro, nesse processo individual e coletivo, seguimos patinando na nossa responsabilidade, buscando, como Olokun no itan, os tecidos e as cores mais impressionantes para comprar disputa com quem lhe abriu caminho. É preciso desenvolver esse olhar pra dentro que Agemo fornece a Olokun, para não perder tempo com tanta distração, desvio e barulho que se vendem como luta antirracista.

