Ao povo preto: O resgate ancestral que precisamos fazer.

Brilhante Trabalho do Artista Negro Jessi Jumanji sobre resgate ancestral em diáspora. Este importante trabalho irá compor toda a parte imagética deste texto.

Encorajando-nos e ensinando a nos valorizarmos frente aos grupos racistas, Malcolm X profere tal discurso à sua comunidade em maio de 1962:

“Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele? A tal ponto que você branquear, para chegar como o homem branco. Quem te ensinou a odiar a forma do seu nariz e a forma de seus lábios? Quem te ensinou a odiar a si mesmo a partir do topo de sua cabeça até as solas dos seus pés? Quem te ensinou a odiar sua própria espécie? Quem te ensinou a odiar a raça a que pertence tanto que você não quer ser em torno de si?”

Não há como não ver. Não há como não reparar. Esse texto foi pensado em um dia comum e rotineiro de um corpo negro no mundo. A observação se faz necessária mesmo que as ações racistas nos cerquem a cada minuto das nossas vidas. Olhar a estética do negro assim como a forma como ele se apresenta em qualquer espaço ainda é uma forma de nos depararmos com a violência imposta pelos grupos racistas há mais de 500 anos. Há uma explicação, assim como há uma solução também. Nos tornar despidos de nossas identidades foi e é um artifício utilizado pelos brancos para a dominação do corpo preto. Dominar algo vácuo, sem valor, sem história, sem memória, permite o completo poder, autoridade e predomínio sobre os corpos pretos. Como já bem colocado pelo antropólogo Kabengele Munanga, o racismo é um crime perfeito embora saibamos que não existam crimes perfeitos. Nesse processo de colonização, de escravidão nos foi retirada nossa humanidade e precisamos resgatá-la para nos recuperarmos. Precisamos assumir nosso corpo como o corpo negro que somos.

Trabalho do artista Jessi Jumanji. Mulher negra baiana 1884 vs Maya Angelou 2000.

Quais são as nossas referências? De onde vêm os nossos traços? De onde vêm os nossos passos? Quem somos nós? Recentemente o artista negro Jessi Jumanji potencializou em seu trabalho “The Distant Relatives: Familiar Faces” ou “Os parentes distantes: rostos familiares”, em que ele traz nossos ancestrais africanos, e nos apresenta enquanto negros da diáspora africana diante o que o artista chama de “nossas contrapartes visuais”. O artista percebe que, “devido aos efeitos negativos da colonização e da escravidão, o conhecimento de si mesmo é um elo perdido para muitos negros na América.” O trabalho do artista é a reapresentação daquilo que toda nossa espiritualidade, nossos mais velhos, nossos terreiros, nossa cultura fazem: o resgate da nossa ancestralidade. Nos reconhecer dentro de nossa própria história é a arma para destruirmos os efeitos psicológicos e físicos nocivos causados pelos brancos.

Nativo da Somália 1889 vs Asap Rocky 2016.

Olhar os passos que nossos ancestrais traçaram para que nós estivéssemos aqui possibilita o entendimento do lugar do nosso corpo neste mundo. Não é como nos ensinaram. Não é da forma como colocaram pra nós. Não é uma história de submissão e inferioridade. Precisamos rasgar os conceitos brancos que nos encapuzaram para enxergarmos nosso corpo tal como ele realmente é. Rasgando essa máscara, chegaremos ao autoconhecimento.

E qual a importância do autoconhecimento na vida de uma pessoa negra dentro ou fora do ambiente racista onde fomos colocados? Autopreservação, autodefesa, autocuidado em um mundo branco em que nem as leis, nem as proteções materiais foram feitas em defesa do nosso corpo. O conhecimento sobre si possibilita sua própria proteção. Cada preto protegido por meio da nossa respectiva sabedoria é um preto/preta vivo dentro da nossa comunidade. Vivos, fortalecendo comunidades, resgatando e retornando aos nossos mais velhos, ensinando às nossas crianças, nos encorajando enquanto povo. Enquanto descendentes de povos que compreendem nossa existência a partir do conceito de conexão — não somos seres únicos, somos a soma de todos aqueles que vieram antes de nós — a consciência do que se é, te torna livre de qualquer prisão.

Nativo do Congo 1911 vs Metta World 2011.

Diante dessas reflexões, pense sobre qual imagem seguiremos retratando: a imagem e a força dos nossos ou a violência daqueles que nos maltrataram/maltratam? A qual corpo responderemos? Em qual corpo nos encontraremos? Em quais das vivências nós nos encaixamos? Temos nossas sábias e belas referências. A resposta sempre está em nós mesmos. Que saibamos nos enxergar.

Mulher negra brasileira 1869 vs Tracy Morgan 2018.
Nativo africano 1900 vs Wiz Khalifa 2000.
Nativo de Madagascar 1936 vs Lily Achty 2016.