Maicol William
Jul 14 · 7 min read

vejo geral — os militoso tudo — criticando Pelé… Vejo criticando o Neymar… “ah esses caras têm zero consciência racial, não assumiram compromisso com sua comunidade, não botam a cara pela comunidade, só quer saber de si, só querem saber de dinheiro, etc, etc…”

Bem, 99% dos que vejo falando isso não possuem zero consciência racial, têm alguma consciências racial, sim, mas performam todos os outros predicados. Não assumem compromisso com sua comunidade, não botam a cara pela comunidade, só querem saber de si, e qualquer mísero sodexo compra. E aí, pra quem fica mais feio? Como disse outro dia sobre alienação: um estudado de esquerda é mais feio que pra um não estudado de direita. É bem mais feio.

Além do mais, só um tá por aí vendendo o que não é. Só um está por aí, nas ações, em contradição com as reflexões. Fica mais feio pra quem sabe e garganteia que sabe do que pra quem não sabe, não é, não? Porque se o saber te leva ao mesmo lugar de quem não sabe, se é pra ser tão inútil quanto quem não sabe… qual é a parada? Saber pelo saber? Pra dizer que sabe?

Kaepernick que foi boicotado pela liga por se posicionar contra o racismo dos EUA

Pergunte o que a pessoa que tá criticando, do alto da sua consciência racial, tá fazendo pela comunidade, qual compromisso tá assumindo… não tem resposta. Não tem. Pergunte se, assim como cobra do outro, tá se posicionando, isto é, enfrentando seus brancos, batendo de frente com o racismo. Não tá. Porque tem que preservar seu psicológico. Ou porque precisa do dinheiro — no caso do trabalho. Aí nunca se posicionam. Assim, se justificam.

Reparem novamente aí a Síndrome do Chaves, a galera que só sabe somar com laranjas, se for com maçã, aí é complicado, já não manja mais das lógicas. Porque falam de não entrar em dividida pra não comprometer seu psicológico, nem seu dinheiro, mas o outro… não vale a mesma lógica pro outro, né? Ou vocês acham que se essas pessoas se posicionarem vão receber flores? Acham que não vai haver represálias? Vocês lembram de Kaepernick, né? Lembram de Nina Simone, né? Lembram de Muhhamad Ali, né? Vocês lembram de Tommie Smith e John Carlos, daquela foto das Olímpiadas de 1968 na Cidade do México, com punhos cerrados, né? Sabiam que, por ter prestado apoio, até o Australiano, o branco daquela foto, se fodeu, né? Virou persona non grata na Austrália. Assim como os americanos, perdeu vaga na sua delegação, e muitas portas se fecharam para ele.

Notícia de Muhammad Ali quando foi multado e foi pra cadeia por se recusar a servir na Guerra do Vietnã, que seria propaganda pra atrair jovens negros a lutar pela “pátria”

Quando a gente for falar em se posicionar, a gente precisa lembrar sempre do custo a se pagar. Quer dizer, lembrar pros outros, porque pra gente a gente lembra. Os caras, ao se posicionarem, põe muito mais na mesa, muito mais a perder. O impacto é beeeem maior para eles. Vocês… bem, vocês não têm tanto quanto eles a perder. E no lugar deles, certamente, vocês fariam o mesmo. Quem cala por migalha, fácil cala por milhão.

Vendido é só Neymar. Vendido é só Nego do Borel. Vendido é só o Pelé. Esperto — melhor — é você que se vende por tão pouco, né?

Todo mundo banca de Muhammad Ali e Kaepernick na teoria. Mas na prática, não passam de Neymar e Pelé, vivem tirando o pé da dividida. E como disse, em condição beeem pior, porque já possuem um mínimo de consciência racial pra saber da necessidade de se posicionar, o que vos deixa numa posição beeem pior, de hipócrita. Vocês tiram o pé de divididas até onde a única coisa que vocês têm a perder é prestígio de pessoas que não são ninguém e nem acrescentam nada. Vocês não querem perder nada. Mas querem que outros se posicionem e botem a perder tudo, como Karpernick, já citado, e Nina Simone. Guerrear com o cu dos outros é mole, né?

A galera sabe que tem que se posicionar, mas também sabe que isso tem custo, aí só quer ver ação por meio de outro, quer ser militante pela ação do outro, porque aí é o outro que arca com custo. Aí temos uma militância de muito apontamento — ou quase exclusivamente apontamento. É uma militância de denúncia. Agora, essa só funciona quando tem alguém pra fazer algo mediante a denúncia, pra tomar a atitude. Mas esse, ninguém quer ser. Fica-se gerando denúncia pra gerar denúncia. Pra outros funciona, porque eles têm um “corpo”, uma instituição, que se importa com eles, uma justiça feita por eles e pra eles. Eles têm o seu executivo. Pra gente, não adianta apenas denunciar, é preciso fazer. É nós por nós. Geral quer dar a sentença, mas ninguém quer balançar a espada?

Essa militância por denúncia é “emprestada”, cópia, que não nos cabe. É mera emulação. Vem com aquele cartesianismo que separa o saber do fazer, que quem sabe manda fazer, não faz. As pessoas estudam para mandar, não serem mandadas. É, inclusive, muito explícita essa mentalidade. “Vai estudar pra não ser isso ou aquilo (um trabalho de “mandado”)”. Daí, interessante é perceber que o povo com comportamento mais alienado é justamente o academizado, uma militância de gogó, de comando, de pouca ou nenhuma ação e várias reflexões. Se educaram com ioiô, agem como ioiô. Quem se educou com os mandão, se educou pra ser “mandador”.

Pessoal fala pra Pelé e Neymar se posicionarem, mas cadê esse posicionamento nos seus espaços? Nem na mesa de jantar. Nem com a família.

A gente fala de apropriação cultural, mas com um monte de gente preta aí que tem noção das pautas e convive com uma pá de brancos em seus espaços de “cultura preta”, sem falar nada. Por quê? Por que não falam nada? A gente vê até pessoa que se diz militante mas tem medo de profundar na pauta, porque vai ver coisas inconvenientes, aí prefere passar reto, não se posicionar, por medo da represália de amigos, etc e tal.

A galera sabe que uma determinada postura faz a gente começar a ser visto como person non grata, aí se preserva pra não ficar de fora dos rolé, pra não perder um sodexo. E aí, não sei. Eu acho que as celebridades, quem está em destaque, acaba pagando o pato das frustrações que os militantes carregam por não serem o que gostariam de ser, por covardia. Aí projetam em outros aquela rebeldia. E punem o outro pela própria covardia.

Outra questão interessante nesse assunto é que a lógica da crítica ao “tudo pelo Pink Money”, que serviu pra geral cair de pau pra cima do nego do Borel, não é levada em consideração pra galera que faz muito mais por muito menos em busca do “uaite money”, né? “O que importa é meu sodexo carregado”. Complexo de Chaves. Vendido é só Neymar. Vendido é só Nego do Borel. Vendido é só o Pelé. Esperto — melhor — é você que se vende por tão pouco, né? Tu também tá calando por “uaite money”, só que é por pouco e ainda de forma descaradamente hipócrita, desonesta, que sabe o erro de estar se vendendo mas só consegue apontá-lo nos outros.

Essa hipocrisia de não dar exemplo das posturas que vivem cobrando dos outros pode ser vista ainda de outro ângulo. Por exemplo, 99% dessa galera que cobra consciência de Pelé e Neymar, que mete o pau, tem um amigo ou amiga próxima que é pior ou igual, mas não fala. Novamente, pra quê? Pra não ficar mal, pra não se indispor. Pra não incorrer nos custos de se posicionar. Pessoal tem dessas figuras dentro de casa, mas prefere falar pras da rua. É aquele lance: bom é falar de longe. Bom é falar pra quem tá longe. Bom é bancar o brabo onde vai ser monólogo, malhação de judas. Bom é ir a favor da maré, não enfrentar resistência. Que vejam só, é exatamente o mesmo que aqueles que vocês criticam estão fazendo. Olha, vocês estão criticando o que vivem fazendo. Que tal mudar isso e serem os primeiros exemplos do que pregam?

Na teoria, só tem Muhammad Ali, Nina Simone, Kaepernick… mas na prática, no dia a dia, são exatamente aquilo que criticam, Pelé e Neymar

Nina Simone, que pagou um preço alto da sua carreira por se posicionar cada vez mais firme contra o racismo.

Será que vão? Vão nada! E o baile segue como sempre: povo sempre sente maior liberdade e se faz mais à vontade pra falar de quem tem menos acesso e de quem não tá perto. Diante de quem tem que fazer mesmo… diante de uma “boa briga”, evita. Povo covarde que só quer chutar cachorro morto, só quer enfrentar inimigo sem rosto. Não enfrenta a si e seus medos e projeta tudo no outro. Pessoal sem postura querendo cobrar postura. Isso é vergonhoso. Mais pra vocês do que pr’aqueles de quem fala.

Aqui, não passa nada. Tamo de olho!! Todo mundo fala de botar a cara, mas ninguém quer botar a própria cara. Criticar é fácil. Fazer melhor é que é difícil. Na teoria, só tem Muhammad Ali, Nina Simone, Kaepernick… mas na prática, no dia a dia, são exatamente aquilo que criticam, Pelé e Neymar, vivem tirando o pé da dividida.

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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