Até tu, mulherista?

Apesar de não tomar o homem negro como seu inimigo como faz o feminismo negro, o Mulherismo Afrikana escorrega na tentação de demandar um homem preto que atenda a sua agenda de povo matriarcal e o aliena da sua autonomia em construir sua própria masculinidade.

Dêge Malungo
Jun 13 · 10 min read

É interessante notar como o Mulherismo Afrikana escapa de uma intersecção com o racismopara cair em outro. O Mulherismo não cai no erro de ser uma teoria que reforça a monstrificação do homem negro, como fazem as feministas negras. Elas buscam se fortalecer, em tese, junto com o homem negro para a elevação do povo negro em diáspora e continente.

Bonito, né?

Mas só até a segunda página.

Pois, quando você vai lendo e assistindo o que as mulherista afrikana têm a dizer sobre o homem negro, elas caem no mesmo racismo que brancos, brancas e feministas negras caem: alienam o homem negro da sua própria masculinidade e demandam um homem negro para a mulher negra.

O raciocínio delas é assim: temos um povo a reconstruir e isso só se dará se vindo do seio da família tradicional africana. Para alguns iluminados da diáspora, isso significa uma poligamia onde um homem se associa a mais de uma mulher, pois é politicamente mais eficaz quando nos deparamos com a realidade do genocídio do povo preto tendo como o mais afetado o homem negro. O desequilíbrio populacional entre homens e mulheres negras em idade reprodutiva é grande, a poligamia poligênica responderia a esse quadro enquanto o desequilíbrio se mantivesse. Então, pra formar essa Black Family de Margarina, o homem tem o papel de protetor e provedor, enquanto a mulher tem o papel de reprodutora e cuidadora da família. Politicamente, essa composição familiar é muito eficaz. E foi justamente ela que sustentou por milênios as sociedades complexas e tribais em toda a África e nos outros continentes.

“Ué, Dêge, mas se vc concorda que essa formação familiar é razoável, afrocentrada e contribui eficazmente pra reconstrução coesa do povo preto já tão massacrado, kedê a interssequissaum com o racismo?”

O diabo mora nos detalhes. E quando ele é afrocentrado (rs!), ele ainda brinca de advogado dele mesmo.

Acontece que, quando a gente vai observando, em primeiro lugar, o útero que está gestando essas ideias, depois o berço onde essa teoria é ninado e, por fim, quem embala o mateus e o embala, aí que a coisa fica divertida.

Em primeiro lugar, o mulherismo afrikana surge como uma resposta ao racismo intrínseco aos feminismos. Tem como precursoras Nah Dove, Assata Shakur e Cleonora Hudson. Elas partem da ideia de que, se é pra pensar em gênero, que seja segundo as respostas que nossos ancestrais africanos tem a nos dar, ao invés das que os europeus nos dão para remediar as doenças da sua colonização sobre nós. O mulherismo afrikana é, portanto, uma teoria acadêmica afrocentrada que se pauta pela pluralidade da mulheridade africana. Assim, as vozes que contam a história da formação familiar comunitária tradicionalmente africana são respeitáveis mulheres negras acadêmicas que estão num embate ideológico e ético com mulheres brancas no interior do templo branco do conhecimento: a academia. Ao contrário das feministas negras que excluem a masculinidade preta como vetor de melhora da feminilidade, as mulheristas africanas compreendem a mulher e o homem complementarmente cuja união tem por fim a formação familiar. O resultado disso é que se supõe que haja um homem supostamente africano para essa mulher africana.

E é justamente nesse ponto de pressupor que “há um homem africano para essa mulher africana” que o diabo ri da nossa cara. Pois é por pressupor que há uma masculinidade africana que atenda as expectativas de construção familiar tida como tradicionalmente africana e matriarcal que faz o mulherismo afrikana incorrer no mesmo equívoco que o Feminismo Negro: o homem e sua masculinidade é compreendida como algo intoxicado, no caso do feminismo, ou em função da mulher africana, como no caso do mulherismo, sem que o próprio homem negro e africano tenha autonomia para não aceitar essas atribuições e afirmar-se por outras condições de gênero e outras masculinidades que queira inventar ou negar para si.

A gente vai lendo os textos mulheristas e não são comuns encontrar uma série de trechos onde a mulheridade africana é tida como o sagrado por gerarem a vida assim como a divindade do mundo. Ao homem preto restaria honrar esse sagrado provendo-o e protegendo-o. Quando esses textos vão falar do homem preto, é sempre no tom de o homem preto deve ser assim, deve ser assado, deve fazer isso, deve fazer aquilo para a mulher preta e a sua família. No próprio texto da Nah Dove, há um momento em que ela traz os estudos de patriarcado europeu e matriarcado africano do Diop para sustentar que o matriarcado africano é defendido e desejado pelo próprio homem africano.

Além disso, a definição de Diop (de 1959/1990) de cultura matriarcal e de sociedade como baseada em relações de reciprocidade, complementares e, portanto, não hierárquicas não sugere que as mulheres estavam em um tempo de superioridade ao aos homens, como Stone (em 1976) implica. Em vez disso, Diop (1959/1990) afirma que um “regime matriarcal, longe de ser imposto ao homem por circunstâncias independentes da sua vontade, é aceito e defendido por ele” (p. 120). Assim, pode-se inferir a partir desses estudos que o patriarcado produz e perpetua um desequilíbrio nas relações feminino-masculino, que teve longo alcance e consequências negativas em todos os aspectos da vida no mundo contemporâneo. (Mulherismo Africana, uma teoria afrocêntrica. Nah Dove, pag. 09)

Mas as implicações que a própria Dove tira para essa condição volta a colocar as mulheridades africanas como únicas prejudicadas pela dominação do patriacado europeu sobre o matriarcado africana. Implícito está a noção de que o patriarcado e o machismo decorrente dele, apesar de ser uma manifestação do racismo, beneficia o homem negro ou africano. O que sabemos ser uma grande mentira.

A dominação das mulheres, homens e crianças Africanos por mulheres, homens e crianças europeus leva à subjugação potencial das mulheres Africanas por homens e mulheres brancos, bem como pelos homens Africanos. A esta luz, é possível entender como a imposição de valores ocidentais em relações feminino-masculino mais igualitárias dos povos Africanos é tão insidiosa, especialmente quando à humanidade é requerido visualizar esta condição como progressiva, universal e natural. (Mulherismo Africana, uma teoria afrocêntrica. Nah Dove, pag. 09–10. Grifo meu)

Mas ela nos diz de onde tira essas conclusões? De onde ela tira que o homem africano é beneficiado pelo patriarcado europeu/branco, nem quais as vantagens ou, sequer a “subjugação potencial das mulheres africanas (…) pelos homens negros”?

Além de desconsiderarem a contradição em crer que o homem africano se beneficia do patriarcado europeu ao mesmo tempo que deseja o matriarcado africana, o mulherismo afrikana tem dificuldades em dizer o que significa esse matriarcado. Pois o levantado por Diop é o “oposto complementar”, enquanto o que elas sugerem quando vão desdobrar o tom positivo do seu matriarcado para as africanas em diáspora e continente é um protagonismo do feminino.

Katiúscia Ribeiro chega a afirmar a flagrante contradição entre povoXgênero quando, ao tentar apresentar o mulherismo, escreve:

O Mulherismo Africana trata-se de uma perspectiva emancipatória da população preta pensada por mulheres pretas e suas dores frente ao racismo e não uma ação política de liberdade de um determinado segmento. Pensar apenas pela via do gênero não dá conta da desintegração ontológica das mulheres pretas e de seu povo. A proposta do Mulherismo passa por pensar o lugar das mulheres pretas a partir de nós e não nos nutrir de ideologias embrionarimente não direcionadas às mulheres pretas.(Mulher Preta: Mulherismo Africana e outras perspectivas de diálogo. Grifo nosso)

Claramente, se vale a pena dar valor a essa afirmação com a mesma credibilidade que costuma se dar à autora, o mulherismo não passa de uma teoria que se pretende pensar o povo a partir de um seguimento dele, uma parte restrita dele. Não está pensando enquanto povo. Para se pensar os efeitos coloniais do racismo sobre o povo preto partindo de um lado que não é o que mais se fode é a mesma falácia que as feministas negras recaem quando falam em mulheres pretas na base da pirâmide de opressão. O que sabemos ser outra falácia. Além disso, apesar dos erros flagrantes que o feminismo negro de Chimamanda Ngozi Adichie contém, há uma fala dela sobre a “história única” que muito tem a ensinar às teorias que visam resolver os problemas de raça apenas por um dos lados que compõe esse povo. (Uma pena ela não ter tomado essa mesma compreensão pra entender seus flagrantes erros teórico-comportamentais):

É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro”. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do “nkali”. Como é contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com “em segundo lugar”. Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente. (O Perigo de uma história única. Grifo Nosso)

Ao compreender o mulherismo afrikana como uma teoria afrocêntrica de emancipação negra pautada pelas experiências coloniais e racistas sofridas pelas mulheres negras e africanas, como Katiúscia Ribeiro faz, novamente o mulherismo incorre no equívoco de alienar o homem negro e africano da sua própria história, da sua própria autocompreensão e autocrítica. Mulheristas como Anin Urasse até compreenderam esse ponto, embora escorreguem ao demandar um homem que seja o protetor e provedor familiar, sobretudo em situações trágicas. Com isso, ela não o monstrifica, mas o instrumentaliza a ela e uma família heterocentrada de organização fechada, sem margem para outras configurações possíveis.

Gullah Geechee, comunidade africana da diáspora norte-americana. Assim como de costume no academicismo branco e eurocêntrico, as mulheristas afrikanas repetem o hábito de renomear a tradição e história do nosso próprio povo sob as categorias criadas em gabinetes universitários. As mulheres Gullah Geechee são frequentemente usadas como exemplares do matriarcado africana em diáspora, assim como as yalorixás de terreiros de candomblé, ignorando o que faz com que as mulheres negras acabassem sendo as que menos eram traficadas mas as que mais capitanearam a perpetuação possível em sequestro das nossas tradições africanas. Se é para discutir gênero, reduzir a liderança feminina nas tradições africanas em diáspora sem compreender como a escravidão e genocídio do povo preto se abatendo sobretudo sobre o homem negro ainda é operar segundo a lógica do feminismo negro de por gênero antes de raça.

Por outro lado, nós homens negros — que desde a barriga da mãe é tido como sementinha do mal, quando menino é o trombadinha, quando cresce é o pirocudo violento e palmiteiro, quando pai é ausente, quando velho é cachaceiro e, quando morto é jogado na vala rasa dos indigentes — nós aceitamos acriticamente que somos violentos, mal educados, desrespeitosos, brutos, cavalos, burros e seres de segunda ou terceira categoria, mesmo entre os nossos. Aí as respostas a esta subjetivação colonizada serão várias, mas sempre se orientando a dois polos opostos-complementares: ou a gente atende a essa colonização reforçando esses estigmas ou a gente procura negar esses estigmas agindo no exato oposto deles. Tanto num caso quanto no outro, levamos às últimas consequências e nos destruímos no que temos de potencialidades e fragilidades. Tanto num caso como no outro, perdemos ou não ganhamos e eles e elas sempre vencem. No caso dos que reafirmam isso, viram os malfeitores das feministas. Nos que buscam o exato oposto, passam a ser os dogginhos das bonytas afrocentradas e, de brinde, subservientes aos brancos e às brancas no âmbito das instituições e estruturas brancas. Vamos pautar nossa masculinidade por quem nos domina, menó? Não! Nem por quem só ressalta o que há de negativo como efeito da colonização, mano. E o resultado disso é que a gente aceita o jogo da alienação de si e passa a se orientar pelo que ditam Feministas Negras e Mulheristas Africanas. É o mesmo modo de comportamento que negros e negras já desde muito criança tem quando estão em espaços brancos: se compreendem como erradas e passam a se esforçar o máximo possível para estar certa aos olhos dos outros. O resultado disso a gente chama de que? De embranquecimento. Na alienação da masculinidade dos homens pretos em relação às mulheres negras, o mesmo se dá. Como a gente ia chamar, então? Feministamento ou Mulherecimento do homem negro?

Pegou a visão?

Como bem sugeriu o Higor no Dissecando o Mulherismo Afrikano realizado pelo Kilûmbu Òkòtó, se é pra pensar enquanto povo, então porque voltamos a nos pautar pelas mulheres (e o mesmo valeria se nos pautássemos por homens?). Pois afrocentrar o feminismo e batizá-lo de mulherismo africana é continuar pautando gênero antes, acima e mais importante que raça, mesmo que “afrocentradamente”. E, pasmem, isso já é não-afrocentrar pois as ideias de mulher e homem não são comuns às comunidades tradicionais africanas.Entender que gênero coincide com sexo é coisa dos brancos e sua cultura pervertida na desmelanina. O continente africano vai conhecer isso somente com a colonização. Até então, a função social era fixada mediante a configuração física, a linhagem familiar e as necessidades da comunidade. Não por menos vamos encontrar pessoas do sexo feminino guerreiras e do sexo masculino exercendo trabalhos domésticos sem que isso signifique que “ela é homem” e “ele é mulher”.

Enfim, o mulherismo é muito feliz quando propõe a reconstrução do povo preto sobre o sustentáculo da família — mesmo que uma família heterocentrada sem margem pra outras formas de construção comunitária que não seja pautada pela relação sexual e matrimonial — mas reproduz o mesmo racismo dos brancos e das feministas quando alienam o homem das suas masculinidades demandando um modelo de homenidade orientado pelas mulheridades afrikana gestada na… academia. Não por acaso, fiz questão de referenciar este texto com diversos hiperlinks mostrando de onde tava tirando o que estava dizendo. Não por eu gostar desse academicismo de referenciar cada vírgula como se não tivéssemos autonomia para falar sobre as coisas. É meu deboshe para falar de uma teoria academicista afrocentrada mostrando que, mesmo de fora, posso dar conta do pagode tão bem quanto elas. Até melhor. Essa origem universitária frente às feministas vai trazer para o mulherismo africana todos os ranços acadêmicos, como a teorização pela teorização nos muros das instituições brancas ou ‘afrocentradas’, assim como a história do povo sendo contada pela narrativa única de um dos lados.

Aí é osso. Aí é brabo.

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“BRanco Sai. PReto fica.”

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