Bom Tempo é Qualquer Tempo e Mau Tempo é Nenhum

Carta aberta à minha rapaziada da militância, a quem me vê por aí causando.

Eu cursei a faculdade de economia (UERJ), e, quando digo isso, o pessoal faz “uau!!”, ou, ao menos, deixa transparecer algo do tipo em sua expressão facial. Porque parte do meu Brasil acha surpreendente que eu possa ter feito um curso de Ciências Econômicas — vocês sabem quem e o porquê. Outra parte porque tem medo do curso mesmo. Povo tende a achar economia um bicho de sete cabeças. Mas difícil, impossível, terrível… é comigo mesmo! Por isso, ao mesmo tempo que cursei economia, cursei também a faculdade de Relações Internacionais (Estácio) — porque eu queria ser diplomata, até cair a ficha que eu não queria ser a porra de um representante/defensor dos interesses de um Estado racista, genocida.

Além de cursar as duas faculdades, eu ainda trabalhava, pra ter dinheiro pras coisas — passagem, xérox, alimentação, livros, etc. No meio disso tudo, não abri mão da capoeira. Não! Religiosamente, todo sábado, tava lá, pra treinar. E ainda inventei de, aos domingos, dar aula e ensinar os paranauê pra molecada na instituição onde morava, na minha casa, minha família. E mesmo com tudo isso na agenda, eu não faltava. Não vacilava, em nenhum dos compromissos. Não tinha isso de “gente, hoje não vou poder porque eu tenho isso e aquilo”. E olha que me sobrava “isso e aquilo” que justificasse qualquer falta da minha parte. Pra completar, ainda fazia tudo isso morando em Vargem Grande? Pra quem não tem noção, Vargem Grande é longe até de Vargem Grande (rs) — papo de 2h, no mínimo, pra ir e voltar até a região central da cidade do Rio de Janeiro.

Tuuudo isso, pra hoje ouvir as pessoas jogarem na minha cara suas dificuldades e ousarem falar que não sei o que é dificuldade… que tive vida mansa… (rs)

Então, até os 12 anos, eu nunca tinha estudado, pois não tinha certidão. Nunca me deixaram, apesar de eu já até ter ido à escola e pedido pra estudar. E por que eu demorei tanto pra ter uma certidão, pá estudar? Porque morei na rua quando criança. Minha mãe sumiu quando eu tinha 8 anos e meu pai nunca nem vi. Eu mal tinha a rua, irmãos de lá… mais nada. E, na rua, se um dia eu parar para lhes contar as tentativas de assassinato, arma na cara… 20 vezes é pouco. Se eu te contar o que passei e o que essa molecada da rua passa, vocês iam ter vergonha de ficar por aí garganteando que são muito sofridos por causa do racismo, vendo a coisa pelo próprio umbigo, não olhando pra margem. Pois pegue a visão: dos que sobraram da chacina da candelária, já não sobra quase mais ninguém (e, por alguns “detalhes”, eu não tava lá nesse fatídico dia). Na pista, todo dia é dia de chacina. Ali, o racismo é bruto. Aquilo faz do que vocês aqui sofrem uma espécie de white problem. Pense o branc’o vindo chorar os problemas deles pra gente. Pois é… é como vejo muita vezes vocês. Daquele lado — de onde venho e que vocês mal olham — tudo é mais pesado. Muito mais!

O trecho abaixo foi extraído de um post de Miguel Maribondo no facebook:

Não há sobreviventes:
das 65 crianças e jovens que dormiam na Candelária em 1993, em 2006 43 já tinham sido executados, outros 5 mortos em decorrência da Aids e 10 cumpriam pena no sistema prisional carioca. 
O resto é o resto.
39 dias após a chacina da Candelária, 21 pessoas são mortas como baratas por policiais na chacina de Vigário Geral.

Tô falando isso para quê? Para que vocês entendam que eu não sou daqui. Eu não sou “dessa bolha”. Por isso, em tudo comigo, o buraco é mais embaixo. Eu não sou daqui, eu vim de lá! Venho carregado. E vim pra cobrar geral que não olha pra lá. Eu vim pra cobrança pra cima dos primeiros féla da puta que fizeram isso com a gente. Que fazem isso com nós. Mas também vim pra cobrar quem diz que é a gente sem nunca olhar pra gente. Tô aqui pra somar, mas, antes disso, pra cobrar essa negada que tá dormindo no ponto e frequentemente se passa. Que fica bancando de o mais sofrido, só olha pro próprio umbigo e não assume compromisso com nada. Eu não consigo viver aqui sem lhes cobrar compromisso com os nossos que mais estão vulneráveis diante do racismo. Tô aqui pra somar, mas, em troca, exijo isso!

Quem pede tem preferência, quem se desloca recebe!

Pessoal nunca tem tempo, nunca pode, nunca nada… Mas não é questão de ter ou não tempo. Tempo, por exemplo, não se tem, se arruma. É tudo questão de prioridades. Mas quando a prioridade é sempre o próprio umbigo… “aahhhh mas se fosse perto”. A galera quer ver acontecer, mas ninguém quer fazer acontecer. A galera quer ter mas não quer se mexer pra ter. Tem uma máxima do mundo da bola certeira pra isso: quem pede tem preferência, quem se desloca recebe. (Quem pegou, segura!)

Foto de Pâmela Peregrino

Vocês querem mesmo falar de dificuldade comigo? Que são muito sofridos? Vergonha nessa cara, cadê?! Eu seria um baita “modelo pra se vender essa tal meritocracia”. Quantas portas não se abririam para mim se usasse dessa história para ser embaixador desse papo de meritocracia? Mas me recuso a esse papelão. Meu texto não trata disso. Só que me recuso também ao papelão de me sentir impotente perante as dificuldades, ficar usando-as como bengala, inerte frente o perrengue dos nossos. O bagulho é cair pra dentro! Se o bagulho é doido, sejamos mais doidos que o bagulho. Se não pela gente, pelos nossos.

É por tudo isso que cobro mesmo! Não dou colher de chá. Qualquer vacilo, displicência, já estou mordendo no calcanhar. A galera é muito acomodada. Tem que ter alguém pra empurrar.

“Aff mas o Maicol é muito chato! Maluco enjoado”. É… sou mesmo, e agradeço! É graças a isso que sou o Maicol. Mas isso que vocês enxergam é fichinha. Se querem mesmo saber o quanto eu sou enjoado, pergunte à morte, que muito esteve em meu encalço. Pergunte às estatísticas, que não conseguem me enquadrar. Se vocês vivem contrariados comigo, elas estão muito mais. Perguntem aos obstáculos e às probabilidades o quanto, por mim, já foram contrariados. Perguntem o quanto eu não sou chato.

Para ter o que tenho, para ser o que sou, ser enjoado foi o ingrediente mágico. “ainnn mas se tu não fosse assim, teria muito mais gente ao seu redor e, por exemplo, teria muito mais gente na sua capoeira”. Meu bem, se eu não fosse assim não haveria Maicol e tampouco minha capoeira. O que lhes falta é entender isso. Se eu fosse como você quer, talvez, eu não fosse eu. Talvez eu fosse você. E aí, quem é você? O que você faz pela sua comunidade? Já se encontrou? Quem é você?! Quem é você no Ubuntu? Valeria mais à pena, pra nossa comunidade, eu ser eu ou ser você? Diz aí! E, se você ainda nem se achou, como pode me orientar?! Me fala!

Eu sou mesmo enjoado, tinhoso! O catiço! Cavalo do cão! Eu gosto. Nasci pra isso. E agradeço!! Não fosse isso, não seria nada, não teria nada. Eu vim mesmo pra bagunçar a ordem, pra mover o que está estático. Eu tô no mundo é pra causar tumulto! E se quer saber até onde vou, é só sacar quem me mandou. Eu tive a bênção de Exu! Eu sou a graça de Xangô!! Agradeço a Exu! Agradeço a Xangô!

Foto de Pâmela Peregrino

Tamo aqui pra esquentar!! Tamo aqui pra isso! Porque fogo é elemento de transformação! Não é mudança que vocês querem?! Então, deixa eu incomodar, porque nada muda acomodado!

Beijas!!!