Rafaela Nascimento
Jul 17 · 6 min read

A capoeira é preta, tão preta quanto masculina, tão masculina quanto africana, tão africana quanto espiritual, tão espiritual quanto corporal, tão corporal quanto masculina, africana, preta e espiritual.

A capoeira nasce de um corpo masculino preto-africano, esse corpo tem uma relação muito afiada entre as energias femininas e masculinas, essas energias que conversam por dentro vão comunicar-se com a de outro corpo. Algumas vezes um dos capoeiras não permite que aconteça essa conversa entre as energias femininas e o masculinas dentro dele~ fica estranho, é floreio demais, é pancadaria ou show solo, rápido demais, sem gracejo, sem malemolência, sem sedução, sem o fingimento ou com excesso de fingimento, as vezes falta jeito e noutras força …de qualquer forma o jogo acontece.

O jogo de pergunta e resposta não tem hora pra começar, antes do corpo entrar na roda ele já está conversando com outros corpos, repelindo, atraindo e ignorando outras energias/corpos. Um capoeira está sempre capoeira, um capoeirista freelancer só é capoeirista na roda e olhe lá.

"Conversa de marucu" cê deve tá pensando, mas vem comigo...

Veja bem, tem dia que eu acordo sabendo que alguma coisa vai dar errado, aquele sinal do "vai dar merd#" fica apitando. Têm momentos em que você está numa rua e decide mudar de caminho sem motivo aparente, descer do ônibus antes do ponto. Outras vezes sou apresentada pra alguma peÇonha e o meu Eu fala assim: Confia não, irmã, confia não. E é tiro e queda, nem lembro de ter errado alguma vez quanto a isso rs

Tem hora que o sinal é externo ~ algo sutilmente ou explicitamente diferente acontece ~ou interno ~ sinto um calafrio, um arrepio, uma rejeição… São sinais, na maioria das vezes são instantes, é muito rápido, quem pegou segura, quem não pegou vai ter que correr atrás do prejuízo.

O capoeira tá sempre ligado nesses sinais, o corpo dele é tão conectado com os seus sentidos e com externo que ele percebe tudo, pois ele é tudo e o todo. Um jeito de piscar, o caminhar de quem vem na frente ou atrás, um olhar malicioso, um arrepio, um aperto de mão ou uma sensação de ser observado… nada passa batido. A capoeira é um preto-africano. A pessoa preta africana tem por natureza uma conexão espiritual que não é desligável, aqui na masmorra brasil, os nossos homens pretos usaram dessa conexão como forma de se proteger, se defender, responder e prever as perguntas.

Para um preto:

- O jogo de capoeira começa quando?
- O jogo de capoeira termina quando?
- Qual é o limite de rivais?

Respostas: Não começa, só continua, tem algumas pausas, mas tão pouco termina, os rivais são inúmeros.

Já a roda é o lugar do jogo explicito, ali é seu corpo versus outro corpo versus a bateria versus os expectadores. Quando estou na roda ~ estou jogando contra e a favor do outro ~ preciso do outro pra jogar, se só eu jogo ou se ele não conversa comigo fica impossível, a capoeira é um jogo em que no mínimo dois falam. Se só um fala… pode até ser capoeira, mas deve estar sem graça, bem parecido com falar com a parede.

Na capoeira todo mundo joga, pois as pessoas emanam energias, sentimentos e desejos. A bateria conversa comigo a partir da vibração dos instrumentos e das vozes, a madeira batendo no metal, chacoalhando a natureza das sementes, a mão batendo no couro e fazendo vibrar o metal na madeira, as vozes do coro, o atabaque falando comigo e batendo alinhado com meu coração, o som do agogô que é quase hipnótico… o chamado do Gunga.

Dendê, ô Dendê
Dendê, ô Dendê
Dendê… Do óleo amarelo
Dendê do óleo amarelo
Vou dizer pra Dendê
Sou homem não sou mulher

Toda essa conversa de pessoas, sons, instrumentos e sentimentos é uma simulação do corre do homem negro e faz completo sentido no corpo desse homem. Sabe aquela clássica pergunta: Mas capoeira é dança, é música, é luta ou écapoeira é o homem preto no mundo.

- Qual corpo está sempre alerta?
- Qual corpo está sempre em perigo?
- Qual corpo está sendo morto e encarcerado?
- Para qual corpo custa caro não observar os sinais?
- Qual corpo todos temem?
- Qual corpo todos querem destruir?

Resposta: O corpo do homem preto.

Menino Ògún — Rafaela Nascimento — 2019 — técnica mista.

A capoeira nasce no corpo do homem preto-africano e se torna uma ferramenta de sobrevivência e um modo de viver aqui no Brasil. Pelo menos era ~ até que foi progressivamente embranquecida, apropriada, deteriorada, perdendo o sentido e o significado, pois só faz sentido no corpo preto, no corpo do homem preto. Tornou-se apenas uma brincadeira muito frequentada por brancos, homens brancos, mulheres brancas, velhos brancos, crianças brancas. Cada vez mais distante de corpos pretos, cada vez menos útil para corpos pretos. Cada vez mais distante da espiritualidade preta. Até de gospel tiveram coragem de pintar! Cada vez mais pacífica, não pode bater, não pode derrubar, é falta de educação atrapalhar o aú do coleguinha, deixa ele florear, dê a outra face, é patrimônio cultural, não responda a pergunta, a pergunta é retórica rs.

Eu perguntei ali em cima qual era o corpo que todos querem destruir e respondi que era o do homem preto. Eu disse também que a capoeira era o corpo de um homem preto. Não por acaso estão eliminando todos os elementos da capoeira que lembram o homem preto, não por acaso vão tirando a cor, a espiritualidade, a energia, a forma de reagir e agir ~ vão acrescentando elementos, títulos, músicas, cordas de outras culturas, cores e corpos. Vai se tornando neutra, sem cor, mestiça de nada com qualquer coisa, sem cheiro, sem alma, sem espiritualidade e sem porquê.

- E como volta a ter um porquê?
- Exige a roupa branca?
- É a camisa pra dentro da calça?
- É a cantiga certa?
- Apela citando o mestre preto?
- Vai se atualizar na universidade? rs

Para ter sentido é só trazer o corpo que deu origem e que é o mais compatível com a capoeira de volta ao centro. O corpo preto do homem preto, vivo, transformando a conversa entre a energia feminina e masculina em vida, em vigor. Só o homem preto é capaz de chamar os fundamentos da capoeira de volta para a capoeira, só ele tem a experiência espiritual e corporal para isso. Mas não é qualquer homem preto, um preto que não vê problemas nas coisas como estão ~ não é o mais indicado para fazer a capoeira voltar para os eixos. Um homem preto compatível com o que está posto não é capaz de identificar quais elementos deve tirar e por na capoeira.

Tira daqui, bota ali
ô Dalila
Tira de cá, bota lá
ô Dalila
Tira dali, bota cá
ô Dalila
Cuidado pra não quebrar
ô Dalila

No Kilûmbu Òkòtó nós temos homens que são capazes de encontrar o que está destoando e reorganizar, aos poucos, em movimento espiral, nós vamos alinhando o preto, o capoeira e a capoeira, para que não seja possível separar um do outro ou dizer onde começa e termina cada um. A reorganização vai durar uma vida, quando nos tornamos ancestrais ainda estaremos aqui para guiar os que vierem depois, assim como os que vieram antes nos guiaram até aqui, em seguida voltamos, seremos guiados e vamos embora de novo, e guiamos…. sucessivamente até que a missão esteja concluída e só nos reste manter o que é nosso ~ nosso e igual a gente.

Quando eu morrer

Não quero grito, nem mistério

Quando eu morrer

Não quero grito, nem mistério

Quero um berimbau tocando

Na porta do cemitério

E uma fita amarela, oi iaiá

Gravada com nome dela

E ainda depois de morto, oi iaiá

Besouro Cordão de Ouro

Como é que eu chamo?

É Besouro

Besouro, como é que eu chamo?

É Besouro

Besouro, como é meu nome?

É Besouro

“Quando eu morrer” — Mestre Moraes
Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP)
Mestre Moraes é um notório mestre da Capoeira Angola pós- Mestre Pastinha, foi responsável pela preservação, transmissão, retomada dos conhecimentos e prestígio da Capoeira Angola.


revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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