Anna Carolina Santos
Aug 19 · 4 min read

Das lembranças que tenho quando era criança e rolava faxina aqui em casa, a dinâmica era a seguinte: eu sempre corria para limpar o fogão, antes que minha mãe mandasse limpar o espelho da sala. Meu pai tinha me orientado como fazer para deixar o espelho com a imagem nítida e sem marcas de dedo, era só usar água e jornal, mas água e jornal?!? Ah, eu achava simples demais para ter um bom resultado, por esse motivo, limpar o fogão, pra mim, era beeeem mais prático, só precisava de um multi-uso e uma lã de aço, pronto, tava feito.

Nessas minhas fugas de limpar o espelho, acabava deixando a tarefa para meu irmão, André. Até um belíssimo dia que André tinha ido pra casa de uma das nossas tias e era dia de faxina aqui, portanto, eu tive que limpar o espelho. Caraca, lembro de ter gasto, praticamente, todos os produtos de limpeza que a gente tinha, t-o-d-o-s, mas o espelho ficava cada vez mais embaçado e, por consequência, resolvi dar uma chance pro jornal e pra água. Umedeci o jornal, passei no espelho e depois finalizei com um jornal seco, puft: espelho limpo.

Esse papo didático (rs) todo para exemplificar uma parada óbvia que negligenciamos cotidianamente: o necessário processo de limpar nosso abebé e o entendimento que temos sobre. Uma das hipóteses que faço é sobre a dificuldade de aceitar fazer aquilo que precisa ser feito, ao invés de ficar criando “estratégias” para fazer o que queremos. É aí que começamos a reproduzir aquela famosa ilusão de que “estamos seguindo os passos de nossos ancestrais”. Na boa, apenas pare com esse jargão que se vulgarizou entre nós, povo preto. Gente, é importante saber para qual direção precisamos ir e os custos que essa caminhada exige de nós, sacou? Faço a aposta de que um dos primeiros passos seja o de analisar como está nossa autoimagem, pelo reflexo emitido por nossos abebés e, é sobre esse recorte que quero me debruçar aqui. Pô, se eu tivesse seguido as orientações de meu pai não acharia tão difícil limpar o espelho, e mais, não perderia tanto tempo experimentando outros produtos de limpeza, podendo, simplesmente, usar água e jornal. ÁGUA E JORNAL

Abebé de Oxum — Imagem da internet.

Reconheço que o processo de negação em limpar nosso abebé, está ligado a dificuldade de reconstruir uma autoimagem historicamente distorcida pelos brankus. Vivemos em um país escravocrata, que nos odeia e faz com que nos odiemos, portanto, cuidar de nossa autoimagem é uma microrrevolução em direção às nossas potências enquanto povo preto e, com isso, se conectar com as possibilidades de trazer novos referenciais de modos de ser e estar no mundo, alterando aquelas narrativas violentas de que somos descendentes de “escravos”, por exemplo. Construindo em nós, desde a infância, um padrão mental de submissão e de poucas alternativas, afinal, “somos descendentes de escravizados e nossa história se deu a partir da escravização”, ponto.

É meio complexo de se pensar: mas quem não quer conectar-se com suas potências? E a resposta é simples: aqueles que ainda estão apegados, afetivamente, a imagem submissa que foi criada pelos brankus.

Um dos posts que considero mais interessante do IFA: Orisa Scientific Spirituality, fala sobre o fenômeno da imaginação e o poder das imagens. O post sugere que cuidemos de nossa autoimagem, assim como cuidamos -ou pelo menos deveríamos cuidar- daquilo que entra em nosso estômago, finalizando com a seguinte frase: “Imagens estão entre as forças mais potentes da Terra”.

Oxum — Imagem da internet.

A escravização dos nossos ancestrais terminou um tempinho e apesar de termos nascido no período “pós-abolição”, é visível marcas que trazemos em nossa memória corporal, tendo nocivos efeitos na construção de nossas subjetividades pretas, portanto, de nossa autoimagem. Experimentamos cotidianamente processos de desintegração, pela falta de conexão com uma autoimagem potente, efeito do racismo. Não estou dizendo que essa reconstrução é fácil, pois, para limpar o espelho usando jornal e água, parada simples, eu tive o trabalho de umedecer o jornal, passar no espelho e tirar o excesso de água com um jornal seco, além de carregar balde pesado com água, pegar o jornal e blablablabla. Aliás, também é sobre fazer o simples, mas se responsabilizar ao fazê-lo. É sobre trabalho, etapas e dedicação de tempo, mas também é sobre (re)integração e uma possibilidade de (re)conexão com o divino que nos constitui, sendo um movimento catalisador para o desaparecimento dessa fragmentação entre nós.

O abebé reflete uma imagem deificada daquele que o segura, estabelecendo um não-cartesianismo entre eu e o outro, fruto de uma mutualidade de relação sobre espiritualidade, intelectualidade e corporeidade. Então, bora limpar nossos abebés começando pelo simples? talvez água e jornal. A parada é que o simples, geralmente, exige de nós um esforço maior na execução, é quando nos vemos nessa encruzilhada para tomada de decisão, fazemos a escolha por produtos químicos que garantem um resultado muito mais rápido, mas são tóxicos a nossa existência e só deixam a autoimagem nebulosa.

Repense aí e vambora fazendo.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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