Ei irmão!

Douglas Malûngu
Nov 5 · 5 min read
Dá play e leia no flow do beat.

Ei Irmão,

Olha à tua volta. Olha o quanto ainda tem pra fazer pelo nosso povo lindo. Olha mais ali naquele canto o irmão que tomba, a irmã que engravida, o coroa bêbado e a tia toda fodida de tanto trabalhar pra limpar a bunda das brancas. Quantos que foram criados e estudaram com vc e chegaram vivos até aqui? Quantos que tiveram filhos fazem outra coisa além de trabalhar na semana e ir pra algum lazer no domingo? Quantos que cresceram com vc, irmão, chegaram onde você vai chegar daqui a alguns anos? Quantos já casaram, engravidaram uma mina e hoje resumem seus dias a cuidar da família e sonhar com outros caminhos?

Ei, irmão, na boa, tá difícil. Sempre foi.
Mas num é possível que todas as suas energias sejam feitas só pra encher o cu de uns poucos com o dinheiro que o seu trabalho faz e, no fim do mês, ver só uma merreca dele e chamar de salário. Olha isso direito aí. Quando foi a última vez que você pensou em outra vida que não fosse essa?
Quando foi que vc olhou adiante e se animou com outras promessas de vida melhor pelas suas próprias pernas? Quando foi, mano, que vc se deixou imaginar por dois minutos que daqui uns anos sua vida estaria diferente dessa merda? Quando?

Ei irmão, é foda ficar levantando cedo pra tomar esculacho de fardado, pegar uma lotação que nem um gado, ter que trabalhar que nem um condenado, voltar pra casa rezando pra não ter ninguém baleado e ainda ouvir que a gente vive isso porque é assim que é. Mas você sabe que não é. Não precisa que alguém te conte isso. Mas vamos entregar os pontos, assim, antes dos trinta ou dos quarenta, irmão? E depois que as crias crescerem? E depois que o patrão demitir? E depois que o amor se for? O que você vai fazer? Vai aproveitar pra arriscar algo novo ou vai repetir o mesmo proceder de mendigar dignidade pra quem sempre tratou a gente pior do que cachorro? Orgulho não enche barriga, não. É verdade. Mas você não tem valor pra obrigar a te tratarem como você merece ser tratado, não? Que porra de troca burra é essa aí, cara? Tu, pelo menos, sabe por quê botaram essas porcarias de ideia na tua mente? Tu lembra o que te diziam na catequese ou lá no culto do nosso amigo crente?

Ei, irmão, essa vida é curta pra caralho. Ontem, eu tava dançando funk no réveillon com minha família e hj já é São João aqui na quebrada. A colheita que a gente não faz hoje vira duas pra fazer amanhã. Aí que a gente vai ficar nessa merda de trabalhar, comer, dormir, foder e zapzap, irmão? Que porra é essa? Que porra de vida é essa que a gente aceitou antes, mesmo, de ter cabelos brancos? Que porra de cigarro é esse na boca? Que bafo de álcool é esse logo de manhã? Que lista pornô é essa aí na internet? Que vídeo de preto morto com cinco tiros na cara e tripas pra fora é essa no story? Que porra é essa que tu tá comendo? Que pano é esse que tá te vestindo? Que porra é essa que tu anda ouvindo e sem nem se dar conta da merda que tá falando? Tá maluco?! O tanto de amigo morto, de irmã espancada, de choro de mãe na tv não te ensina porra nenhuma? Não te faz parar pra pensar que tamo indo que nem boi manso pro abate? Que porra, mano! Que porra!

Ei mano, foi mal aí se te ofendi. É que eu penso nessas porras e bate um ódio do caralho, saca? Dá vontade de pegar uma arma e sair matando o primeiro branco que me olhar atravessado. Dá vontade de jogar umas bombas numas viaturas. Incendiar umas casas no asfalto. Quebrar tudo e deixar um cado de sangue branco derramado. Dá um ódio do caralho! Mas a gente não pode enlouquecer, não, mano. Não, sozinho. Pois nossa gente não precisa de herói morto. Ela precisa de homens e mulheres vivos. Mas vivo e com disposição pra dar a vida se for necessário pra deixar os filhos livres. Tocar fogo na porra toda ia ser foda. Ia ser bonito. Mas e depois? Vai adiantar de que fazer isso, se quem vai ficar não vai pegar isso como estímulo pra piorar a vida dos brancos até eles pararem de tratar a gente que nem lixo e deixar a gente tocar nossos corres em paz? Eles nunca vão deixar a gente em paz. Nem os mais bem intencionados deles, saca?! Eles só querem mesmo é que a gente fique dócil. Quietinhos e tome na bunda calado. Eles só querem a gente pra limpar a merda deles, servir os seus jantares, animar suas festas cantando e dançando e entretendo a sede de violência deles com nossos corpos lutando ou jogando uma bola numa rede.

Esses brancos são doentes, irmão!

Ei mano! Que bíblia é essa aí na sua mão? Acha que vai fazer o quê com ela? Acha, mesmo, que ela vai deixar sua vida melhor? Por acaso dorflex cura ou faz a gente esquecer o machucado? Pois é, mano, esse livro aí no teu sovaco é mais falso que nota de três conto. Esse deus aí que te contaram tem lado, e não é o nosso. Se fosse assim, a gente não tava indo toda noite pras igrejas de bonde. A gente tava indo fazer nossas plantações, nossas fábricas, nossos colégios, nossos comércios, nossos hospitais, nosso futebol, nossa própria igreja. E não indo na deles. Esse deus aí é maneiro, mas só pra eles. Os nossos deuses não são, assim, não. Num tem nenhum que é santo. É tudo zika. Tu ainda não se ligou que tá perdendo tempo e dinheiro com esse tanto de ideia fixa, mano? Já tentou passar um tempo pensando diferente e viu como esse deus que venderam é um filho da puta? Já viu como ele tá pouco se fodendo pra gente preta e sempre dando casa, carro e prêmio extra pra quem é branco?!

É foda, mano. É foda.

Eu vou parando por aqui, mano. Era só um desabafo. Às vezes é foda ver tudo acontecer e não ficar cansado. Mas eu sei o que eu tô fazendo e o caminho que eu escolhi. Queria só dar essa ideia contigo e mostrar que tá foda mas a gente tem saída. A gente chegou até aqui não foi à toa. A gente chegou tão longe não foi por causa de Deus. Deus tava torcendo era pra gente se foder de vez. Mas a gente é teimoso e não se fodeu ainda porque a gente ainda vai se vingar de Deus e desses brancos filhos da puta que cultuam ele na missa e escravizam a gente depois. Perde o ânimo, não, irmão. Pois tua luta aí me dá força aqui e eu sei que a minha luta aqui te fortalece aí, também.

Fica bem e morre não, beleza?
Te amo, irmão. E me amo, também.
Bjo nas criança e na família.

Arlison de Souza, do Complexo de Favelas da Maré, Rio de Janeiro.

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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“Branco Sai. Preto fica.”

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