Essa é daquelas frases, como “o ser humano é uma merda”, que precisam demais de uma bela duma racialização

Maicol William
May 15 · 7 min read

repararam que 99,tudo% que adjetivamos como coisa de gente mente aberta e pensamento avançado era super normal para aqueles povos que a sociedade branca destruiu, chamando-os de povos atrasados?

o seu futuro se desenha correndo atrás do nosso passado

O futuro brilhante que buscam é o nosso passado que eles mesmos avacalharam. Não podemos deixar isso passar batido! Temos que nos lembrar e lembrá-los sempre disso. Sobretudo porque tudo começou com eles nos considerando atrasados, e agora o seu futuro se desenha correndo atrás do nosso passado. Quem é mesmo primitivo? Quem é mesmo atrasado?

O que eles buscam e tratam como coisa de gente mente aberta, com pensamento avançado:

  • Um estilo de vida em que se respeita o meio ambiente, e a harmonia com a natureza está na ordem do dia, se cuidando da flora e da fauna com que cuidando de si;
  • Um estilo de vida em que mulheres e homens vivem em harmonia entre si, sem machismo/sexismo, onde as duas partes muito se valorizam;
  • Um estilo de vida que a nudez, a pouca rouba, não é estranhada, em que a pessoa se sente invadida pelos olhares de outras emocionadas;
  • Um estilo de vida em que a relação de uma mulher com mais de um homem ou ao contrário não era algo estranhado;
  • Um estilo de vida em que relação de homem com homem ou de mulher com mulher não seja algo condenado, em que a pessoa não tenha sua identidade definida, limitada ou marcada, pelo uso da genitália;
  • Um estilo de vida em que se preze a vida comunitária, uma sociedade igualitária, com gestão comunitária dos recursos;
  • Um mode de lidar com o mundo e com todos, em que as diferenças sejam respeitadas e valorizadas;
  • Uma sociedade espiritualidade com pessoas espiritualizadas, que prezam pela harmonia nas relações com o outro e com todo o entorno.

Enfim, pegue outras coisas aí que você vê sendo tida como coisa de gente mente aberta, gente avançada. Tudo que eles almejam vislumbrando um futuro melhor é sobre um futuro que ainda lhes é muito distante e sobre um passado que nunca viveram, que quem viveu foi a gente, nosso povo. Como dito, futuro deles almejado é o nosso passado que eles estragaram. Não é verdade?

você pense: dito isso, podemos concluir que antes de mais nada, vive-se homofobia, machismo, relação destruidora com a natureza, as profundas mazelas do classismo, e um bando de “doença social” por conta do racismo. Antes de mais nada, é racismo. É pelo simples fato de nos relacionarmos com o outro e com o entorno como brancos, de forma não saudável. É sobre sobreposição de modos culturais de uma raça sobre outra.

“Vocês se relacionavam com o mundo assim, mas a partir de agora vão se relacionar com o mundo como a gente”. Foi isso! Racismo. O “se relacionar com o mundo como a gente” é se relacionar com o mundo em conflito com o diferente, em conflito com o que não é a gente. Nóis não éramos assim. Somos uma sociedade aberta ao diferente, o que inclusive foi a brecha que demos para eles arrebentarem com a gente. Enfim, as doenças sociais de hoje, os conflitos entre diferentes refletem modos de se relacionar que não têm nada a ver com a gente. Se vivemos isso, é por racismo, por sobreposição de modos culturais.

Precisamos entender isso. Precisamos pensar nas implicações disso.

Uma vez racializada essa parada, precisamos repensar frases como “a humanidade é uma merda, o ser humano não presta”. Mentira! Racializa! Ninguém precisa se lamentar por ser humano. O que temos que lamentar é por seguir o modelo civilizatório branco. O que temos que lamentar não é sermos humanos, é nos deixarmos guiar pelos modos de se relacionar com o outro e com o entorno propagados pelo branco. Temos que lamentar o deixar-se ser branco, o almejar ser branco.

Tu tem que ter vergonha não por ser homem, tem que ter vergonha é por seguir o modelo branco de ser homem

Temos que racializar igual o papo “eu tenho vergonha de ser homem”. Eu vejo homens negros falando isso e fico bolado! Que vergonha de ser homem o que?! Páracuisso! Vamo olhar pra essa parada direito. Tu não entendeu nada! Não é gênero, pacêro! É raça! Tu tem que ter vergonha não por ser homem, tem que ter vergonha é por seguir o modelo branco de ser homem, por não voltar-se para o nosso modelo. Por não voltar-se pra si mesmo. A vergonha não é por ser homem. É por ser alienado como homem. Entendeu?!

Eu diria que você tem que sentir vergonha é por não tratar de cada dia se aproximar mais da África, do ser africano, de si, de um homem nos moldes ancestrais africanos, um ser humano nos moldes ancestrais africanos. Eles, os mais espertalhões, na surdina, fazem isso. Como disse lá em cima, eles querem construir o futuro almejado deles em cima do nosso passado que estragaram. Eles querem se aproximar enquanto te afastam.

Quer um belo exemplo? Parto natural! Ou “parto humanizado”. Recriminaram. Estragaram. Agora vai lá fazer! Sai caro. Eles nos afastam pra se apropriar do nosso passado e dominar os caminhos que nos levariam de volta pra lá. Aí monopolizam tudo e colocam que a única maneira de chegar é pelos seus caminhos, caminhos brancos. É como se apropriaram de tudo, tirando geral de determinada área e depois botando um cercadinho. Daí em diante, pra acessar tem que pagar. E pagar caro.

O que falei do parto natural pode ser dito sobre a própria capoeira. Recriminaram e destruíram a original e seus caminhos. Aí, pra acessar depois disso eles impõem seus caminhos e, assim, pra quem não é eles é sempre bem mais difícil. Taí a explicação simples para termos os grupos de capoeira, e outras manifestações de matriz africana, tão embranquecidos.

Feminismo… comunismo… é a tentativa branca de chegar a uma realidade preta. É tentar chegar de forma branca a uma realidade preta

Dito tudo isso, chegou a hora de entender essa parada de forma muito mais abrangente: a esquerda e o feminismo. São exatamente isso! Onde eles querem chegar com um e outro era onde a gente já estava e eles estragaram. Era onde a gente estava e eles nos tiraram, botaram um cercado pra vender seus caminhos para voltarmos. Eles se apropriaram. É assim que, se pensamos a igualdade entre homens e mulheres, uma sociedade sem machismo/sexismo, se pensa em feminismo. Se você pensa em sociedade igualitária, gestão comunitária, você pensa logo em marxismo. E o pior: até duvida que se pense sobre fora disso. Coisas de branco! Você tá maluco! Eles nunca viveram isso! Eles sempre foram a antítese disso. Acreditar em brancos pra nos levar a uma sociedade igualitária, seja em questão de gênero ou social, é entregar a tarefa pra quem tem o pior currículo. Porque se trata de algo que nunca viveram e que ainda destruíram.

É o que falo sempre: deveria ser a gente, só pode ser a gente, a dianteira dessa empreitada. Não faz o menor sentido ser o original e aceitar ser recorte da cópia. É aceitar ser coadjuvante na própria história. São eles que devem ser recortes nos nossos movimentos. Se quiserem. Se fizerem por merecer. Não é a gente que deve ser recorte no movimento deles rumo à nossa realidade. Até porque eles vão tentar chegar a uma realidade almejada originalmente preta mas de uma forma branca. Aí já viu, né. Já vimos esse filme. Não vão chegar. Não vamos chegar. Não vamos chegar a uma realidade preta caminhando de forma branca, em caminhos brancos. Foi pelos caminhos brancos que se perdeu a história da humanidade. Nunca se esqueçam.

Feminismo… comunismo… é a tentativa branca de chegar a uma realidade preta. É tentar chegar de forma branca a uma realidade preta. Saiam disso! Precisamos criar/trilhar nossos próprios caminhos. Só chegaremos pelos próprios caminhos, caminhando com as próprias pernas. Voltar pra nossa realidade pelas mãos de quem sempre nos foi a antítese disso? Não faz sentido! Pra início de conversa, não faz sentido acreditar em quem se apropriou da sua realidade/verdade. Eles sequer admitem que a realidade que almejam é nossa, e não deles.

Enfim, sempre que penso me soa engraçado, que o futuro que almejam seja o passado que estragaram; que o avanço deles tem como referencial o nosso passado e não estão abertos a discutir quem é mesmo atrasado. O avançado deles é o nosso passado que os mesmos depredaram. E agora, como capoeira e parto natural, se apropriaram e saem por aí, pra pagar de mente aberta, de avançados, fazendo cosplay do que fomos no passado. É brabo… eles se apropriaram tanto, achando que inventaram, que têm a pachorra de dizer que Zumbi era comunista e Yansã feminista. Eles não só puxam as realidades, mas também seus personagens, pra dentro do seu cercadinho. Se deixar, eles engolem e estragam tudo. E tá na nossa mão sair desse cercadinho e trazer junto, tomar nas mãos, nossa própria história.

Pra fechar essa reflexão…

Abebés de Oxum

“Mas, Maicol, você está me dizendo pra mim (rs) que as sociedade africanas eram perfeitas?” Não! Estou dizendo que eram modelos! E que até hoje são, inclusive, pra eles mesmos. Estou dizendo, sobretudo, que é burrice ser o original e querer ser cópia da cópia, recorte da cópia. É isso! É só isso! Estou dizendo que se deve parar de olhar para os outros tentando se encontrar, e que, pra isso, se volte a si mesmo. Como mamãe Oxum ensinou, a beleza e a riqueza é domínio de quem se olha no espelho.

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Maicol William

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