Falar é prata, fazer é ouro

Wallace da Hora
Aug 31 · 4 min read

Acredito que quando alguém compõe algo, uma musica, um poema ou algo que o valha, seja uma satisfação grandiosa ouvir alguém dizer que se identifica. Eu gosto de compor. Não faço só por mim, faço pelo outro. Pra que ele realmente se identifique. Costumo compor sobre coisas reais, minhas ou algum relato que me chegou aos ouvidos. A sensação de missão cumprida é enorme quando alguém fala “essa porra é pra mim, essa musica é minha!”

Acredito que seja assim com quem produz qualquer tipo de arte.

A gente acaba fazendo pra colocar pra fora mesmo, não abafar ou pra quem já é um desabafo ajuda a aliviar, mas no fim, espera-se que alguém tome para si aquela arte e caminhe através dela, que ela seja uma trilha pra alguém. Bom, eu acho. Pra mim é assim.

Como sou mais ligado à música, posso dizer que tenho trilhas sonoras que me ajudaram a caminhar. Músicas que me ajudaram a escolher uma das vias da encruzilhada, certamente me guiaram. Sempre fui de escutar, de ouvir com atenção e analisar o que chegava aos ouvidos mediante o que eu queria pra mim ou acreditava que era o certo.

Tenho algumas referências, poucas, mas tenho. Uma música alicerce (é como chamo essas trilhas que fazem parte da minha estrutura) acabei de escutar há pouco, inclusive. Fórmula mágica da paz, do Racionais Mc’s.

Porra, me lembro de meditar nesse rap. Era 98, neguin, 1998! Eu, 13 anos de idade, numa favela do Rio de Janeiro, vários sonhos morrendo, vários conhecidos iniciando no tráfico, vários amigos morrendo, inclusive primos e tios. Esse rap me ajudou pacas, irmão! Sempre fui de escutar, já falei isso. Quando eu escutei isso aqui na musica:

"2 de novembro era finados. Eu parei em frente ao São Luiz do outro lado. E durante uma meia hora olhei um por um. Vi o que todas as senhoras tinham em comum. A roupa humilde, a pele escura. O rosto abatido pela vida dura. Colocando flores sobre a sepultura. Podia ser a minha mãe…”.

Foda demais, cumpadi! Me emociona. Até porque logo depois foi a minha mãe que perdeu um filho. Mas podia ser eu na sepultura sendo homenageado ou lembrado no dia de finados. Por que não? Outra parte da música fala e me alerta da minha situação, se liga:

"Eu não tava nem aí, nem levava nada a sério. Admirava os ladrão e os malandro mais velho. Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga: o que melhorou? Da função quem sobrou? Sei lá, muito velório rolou de lá pra cá. Qual a próxima mãe que vai chorar?"

Mano, era minha vida naquela letra. Vários questionamentos, indagações que eu já me fazia naquela idade. Até porque a gente cresce mais rápido na favela, tem que ficar esperto logo. Ainda mais eu, que tive que cuidar sozinho (sem a mãe, sem porra nenhuma) de dois irmãos mais novos, tendo a mais nova uns 3 anos porque minha mãe quis dar um tempo de ser mãe e me deixou no comando. Beleza, outro papo isso aí.

Poderia dizer aqui minha identificação com cada estrofe dessa letra, separar até por tempo, no cronológico mesmo, mas já tá valendo. Acredito que já deu pra pegar o fio da meada. A parada aqui é pensar na referência, na importância que a letra teve e tem pra mim. Hoje eu sinto que represento bem esse rap. Mano Brown e Edi Rock nem sabem que eu existo, mas se eles soubessem da minha história com a música e o que eu fiz através disso, será que seria vergonha pra eles ou orgulho? Essa é a questão a se pensar e levar pro cotidiano. Teu cotidiano. Será que suas referências, as pessoas que você admira te admirariam se soubesse o que você fez através da referência deles? O movimento que você fez deixa suas referências orgulhosas? Sinistro, né?!

“Falar é prata, fazer é ouro. Não faz agora e depois cai no choro”

Essa eu aprendi na capoeira. Uma ladainha que fala de hipocrisia né, contradição. Quando há um abismo entre o falar e o fazer, o nome desse abismo é hipocrisia e quem fala mais do que faz, uma hora cai em contradição uma hora, parceiro. Hoje, vemos muito isso. Tá ficando cada vez mais fácil falar, citar as referências, ficar embasado no que o outro diz. Só repetição. Mas nada de ação, nada do fazer. Fazer dá trabalho, né, pae!? Mais fácil é falar, só que quanto mais teoria, mais distante fica da prática. A teoria não tem nada de tão novo assim. Tudo já foi dito, precisa ser feito. É isso que as nossas referências esperavam. Por isso tá dando errado! Estamos colocando a teoria como um fim e o saber como o auge.

Pensa numa referência aí. Agora se pergunta se ela estaria interessada na sua teoria. Acho difícil hein!

Imagina eu fazendo um rap sobre o rap que tenho como referência. Pra mim, é difícil traduzir isso como prática, como por em prática. Se ficou só na emoção, não gerou atitude, movimento. É teoria. Eu acredito que é contar com a sorte. Ou ainda pior, jogar a responsa pro próximo. Pra quem vai conhecer minha teoria. Você se emociona com algo, se sente representado por aquilo e aprisiona o que supostamente aprendeu em dados. Você fez a parte teórica, que já estava feita, e espera que alcance alguém pra colocar em prática. Olha só que absurdo! Pegar a ação de alguém e copiar tirando a parte mais importante, a parte que faz a coisa caminhar. A ação! É assim com a capoeira e tudo que é preto. Foi criado e executado puramente na prática, com ações. Mas infelizmente é assim, né. A galera bola o lance teórico pro outro colocar em prática.

Como entender os entendedores do assunto? Difícil…

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