Girando girando girando prum lado…

Girando girando girando pro outro!

Marli França
Nov 5 · 5 min read

O processo de entendimento de raça com suas reais implicações e impacto estrutural dentro da sociedade para mim é algo novo, nunca fui do bonde que desde há muito tempo estuda, lê, se dedica ou empenha energia em busca de mudança e principalmente transformação desse cenário. Cresci na diretriz que até então ainda impera entre muitos dos nossos: para ser alguém você precisa ter diploma, conquistar sua casa, seu carro, sua independência financeira e aí eis que num passe de mágica a felicidade estará à sua porta. Ou seja, aquele banho de estilo e padrão de vida branco como a única fórmula de sucesso e existência.

Entretanto, para os mais astutos e atenciosos dessa dinâmica a única coisa eficiente que a busca por essa idealização está causando é o aumento dos índices de suicídios entre os nossos e a crescente sensação de estar só, em desconexão e fora de qualquer padrão imposto.

Em volta a esses novos processos, com o entendimento da necessidade urgente de escurecimento de atitude, fala, ideias e principalmente ação efetiva do fazer, de forma natural vejo-me numa aproximação e conhecimento de pessoas que estão inseridas nessas questões seja denominando-se militante negro, pan-africanista e/ou aqueles que estão surfando no Movimento Negro. E adentrando nesse cenário um fato me chama atenção, algumas pessoas afirmam que estão nessa luta por mudanças e representatividade há anos, quando não há décadas, citam e por vezes com conhecimento de vivência pessoal nomes de referências negras, dizendo usar tais pessoas como diretriz. E diante de tudo isso vem a grande incoerência da situação. Como dito acima, sou iniciante na desconstrução pessoais das dinâmicas racistas, mas não é preciso muito aprofundamento para perceber o grande erro dessa galera que está aí há tanto tempo: é muito discurso para pouca e/ou por vezes nenhuma ação efetiva de impacto relevante.

Dias atrás conversando com um colega que é contramestre de Capoeira e inserido em diversas pautas Negras há anos, ouvi seu desabafo referente escrever um texto sobre apropriação cultural contra pessoas brancas que iriam realizar um curso de Jongo e haveria a cobrança simbólica de R$ 120,00 pilas por isso. O mesmo estava indignado com tamanha audácia e legitimação de alguns pretos da situação. Gente, como assim? Desde quando apropriação cultural branca é novidade? Desde quando branco desvalorizar, para posteriormente tomar posse e assim agregar valor ao que antes era demonizado é surpresa? Desde quando preto defendendo branco nunca antes foi visto? Mas principalmente desde quando textão de pessoas pretas intimidou hipocrisia branca de realizar o que bem entendesse???

Me ajuda a te ajudar né, parcêro?! Falar o bê a bá a quem tá na estrada há uma cota pega mal pra caramba. Errar por desconhecer o jogo é uma coisa, se colocar na situação de bobo da corte em pleno 2019 é pura shakota. A galera já pinta, borda, pega e pisa de qualquer forma em tudo que é relacionado a nossa história e cultura, daí chega uma turma que o básico de conhecimento que deveriam ter é que na conversa ou empatia com essa galera nunca deu ou nunca dará em nada, mas supostamente acreditando no potencial que possuem dessa vez algumas palavras de indignação mudará todo rumo da situação. Aham, senta lá Cláudia!

Dica extra, sadismo é uma prática muito querida por essa galera, e eles fazem sorrindo. Uma das muitas lições que Mainha me ensinou foi: se você quer muito algo, mas todas as tentativas para obter isso dão erradas ou você perde um tempo e analisa onde você está errando para acertar, ou será eternamente como aquele cachorro que vive correndo atrás do rabo e acha que em algum momento irá conseguir seu objetivo. O pessoal fala tanto em ancestralidade, em retomar nossas origens e a lição base de continuar os passos de quem aqui já esteve parece ser a mais difícil de ser desenvolvida. Tanto já foi dito, os erros estão escancarados, o que falta a ser feito para dar certo gritando tipo em um letreiro e mesmo assim as repetições das quedas nos buracos acontecem em uma frequência maior do que o tempo que não temos nos permite. A sensação de andar em círculos para se chegar a lugar nenhum impera.

imagem da internet

Ouço muito falar que descendemos de reis e rainhas e não há dúvidas quanto a isso, mas nem só de coroa se vive um reinado não é mesmo? Então, antes de pensarmos no trono devemos ter a maturidade e discernimento que há o merecimento por ele, entendermos a real função de um Rei que é servir viu, Ninho, não é ser servido não. Tome tento e procure saber! Se ainda pensa o contrário tenho uma péssima notícia para te dizer quem é que pensa assim. rs E fazendo um contraponto a essa alusão percebo outro ato falho da galera, de nada adianta olhar para cima quando não se tem base para se apoiar. O que quero dizer é, muito vejo a idealização da chegada, todos tem pitacos para dar de como deve ser a comunidade preta perfeita, mas não há nenhuma preocupação sólida com a construção e a manutenção desse projeto. De nada adianta um bom reinado se não há guerreiros à altura para ele, e aí está o xis da questão tem muita gente se achando rei e rainha sem nem saber colocar uma cadeira de pé, quanto mais utilizar uma espada corretamente pelos seus quando necessário.

De nada adiante discursar sobre alienação quando no primeiro grito ou atitude dos brancos simplesmente toda atenção de que nossas pautas é que são importantes são dispersadas, torna-se totalmente contraditório se indignar por ações brancas que desde que o mundo é mundo eles mostram como fazem e do quê são capazes. O ponto em comum que temos como parâmetro da origem da nossa história e os grandes referências que possuímos é o destaque para a busca da autonomia, fazermos por nós e para nós. Se determinado espaço nosso foi invadido por eles é perda de tempo essa busca por reivindicação, gastar energia para mostrar para eles o que está errado, uma vez que pelo prisma da cultura deles usurpar faz parte do processo e não há mal nenhum nisso. Passamos tanto tempo omitindo e fingindo não existir as opressões estampas em nossa cara, então quantas décadas mais precisaremos perder para aprender o ensinamento básico de que se não envolve nosso crescimento, orgulho para os que já foram e prosperidade para os que virão não devemos sequer pensar em nos demorar, quiçar reclamar fazendo textão?

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Marli França

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