Graduei. Quase não Mestrei. Driblei!

Lisimba Dafari
13 min readMay 8, 2019

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Há um ano atrás defendi minha dissertação de mestrado. Nos 40 minutos do segundo tempo, mas foi. Obtive o mesmo louvor que recebi na defesa da minha monografia na graduação, só que dessa vez encerrei essa etapa com sérias dúvidas sobre a minha continuidade no meio acadêmico. Se da vez anterior os elogios da banca me convenceram a prosseguir no caminho da pesquisa científica — trajetória incomum quando sua graduação é em uma área mais voltada pro mercado como Publicidade –, dessa vez nem mesmo o reconhecimento público do meu orientador de que todos os méritos do trabalho foram meus não me impediram de repensar a minha permanência nesse moinho também chamado de academia.

Como não pretendo desencorajar ninguém nesse processo, recomendo driblar essa leitura caso as dúvidas te sondem ou sua teimosia ande fraquejando. No entanto, sei que adoraria ter tido contato com algum relato do tipo antes de ter insistido por três anos no mesmo processo seletivo. Não acredito que teria me feito mudar de ideia porque Teimosia realmente foi o nome do barco que me fez atravessar esse foço, mas sinto que ao menos teria feito uma escolha de fato e não me apegaria a isso somente por estar insatisfeito com a carreira de designer/diretor de arte. Escrevo para advertir novos entrantes e, principalmente, para dar algum tipo de encerramento para esse episódio.

Coleção W. E. B. Du Bois

“Nem tudo que confrontamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até ser confrontado”

Por ser filho e neto de engenheiros, a universidade sempre me foi martelada como a melhor solução possível. Sem contraindicações. Como sempre me inclinei mais pras artes que pra engenharia acabei cursando artes, alemão e publicidade e só concluí a última das três. E o motivo pra isso foi que acabei percebendo que seguindo artes e alemão, inevitavelmente, acabaria me tornando professor e desde pequeno sempre tive muita aversão a ensinar quem não tá afim de aprender, quem tá só a fim de respostas mastigadas ou cumprindo alguma obrigação. Preferi, então, tentar a sorte no “mercado”. Inocentemente acreditando que a criatividade me pouparia de discriminações por não, necessariamente, ter que passar pelos profissionais do RH — que sempre me lembram o tipo de gente que desvia de mim na rua. Ledos enganos. Mesmo sendo reconhecido pelos meus colegas e conseguido me destacar em sala de aula com vários professores, não foi assim que a banda tocou. Ironicamente, na primeira semana, do primeiro semestre, considerei ser professor universitário por conta das excelentes aulas que de teoria da comunicação — “desculpaê”. Por essa que acabei fazendo um trabalho de conclusão de curso teórico e não prático sobre homofobia na produção publicitária e, quando entendi que trabalhar com criatividade não impedia ninguém de carregar “preconceitos”, resolvi me embrenhar em Saúde Coletiva na esperança de destrinchar e sanar alguns dos males sociais que tanto podaram pessoas com “perfis” iguais ao meu.

Como disse, Teimosia foi o barco que me guiou por essa travessia. Presente desde o primeiro concurso, quando amigos se mostraram “preocupados” com o despreparo que alguém, com a minha bagagem, enfrentaria ao cursar uma pós com “Medicina” (Social) no nome. Como essa escolha já estava feita há alguns anos, quando não passei na primeira vez por não saber que além de responder as questões eu precisava encher o máximo de linguiça possível — para mostrar que poderia absorver e reproduzir fielmente o máximo de conteúdo –, não fraquejei e tentei mais duas vezes até conseguir. Coincidentemente, ou não, foi na terceira tentativa que racializei o meu projeto por ter percebido que, apesar da avalanche de artigos na área tratando das mais variadas questões sociais — como gênero, sexualidade, capacitismo, etarismo e tantas outras ,– foi bastante difícil encontrar publicações que pontuassem os efeitos do racismo na saúde da população brasileira. Então, decidido que a terceira seria a última, botei essa pra jogo já pontuando no meu anteprojeto, na carta de intenção e na entrevista que essa era uma deficiência grave da área e do curso já que, olhando os currículos (Lattes) dos professores da casa, nenhum tinha produzido nada que tratasse disso — ainda que estivesse em vigência uma diretriz da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra que previa o fomento de pesquisas nesse sentido. O mais perto disso que encontrei foram algumas orientações cujas pesquisas trataram do tema, mas até onde vi e ainda vejo, a maioria é enviesada por questões de gênero ou sexualidade, e muito raramente de forma centralizada. Só após a minha conclusão que entenderia exatamente porquê.

Pra responder a esse meu incômodo, nos trabalhos finais de cada disciplina me dispus a racializar a ementa oficial de cada uma delas. Como quem dissesse: ainda que lendo os mesmos textos (“sagrados”) indicados por vocês, consigo fazer uma leitura que não perde de vista o legado histórico do nosso país e não marginaliza o conceito fundador do povo brasileiro. Não por ser negro somente, mas por fazer questão mesmo. No meio tempo penei até conseguir quem me orientasse sem abrir mão da centralidade da minha questão. No entanto, por minha sorte, já no primeiro período fui convidado a apresentar/traduzir o texto de uma historiadora clássica feminista que denunciava a misoginia latente da “História da Sexualidade” escrita por São Fukô. Para a autora (Amy Richlin) era pavoroso se deparar como tantas feministas pagando pau para um autor que deliberadamente ignorou pontos de vista não-masculinos. Ao fim da crítica afirmou ser inaceitável um relato histórico que silenciasse metade da população. Obviamente ela só usou o apagamento racial de Foucault para reforçar os inúmeros silenciamentos cometidos por ele, mas na minha apresentação fiz questão de reconhecer essa limitação dela e ressaltar a ironia que era cursar uma pós com “Coletiva” no nome que negligenciava as demandas específicas de parte nada insignificante da população nacional. Por conta disso tudo, acabei dando alguns passos atrás no meu tema e dissertando sobre o histórico da saúde da população negra no país. No entanto, mesmo não sendo mais nenhuma novidade pra mim assumir o papel do inconveniente-que-vê-racismo-em-tudo, o hábito não tornou a coisa menos desgastante. No caso foi tanto que quase desisti de qualificar o meu projeto no terceiro (e penúltimo) semestre. Adoraria dizer que a Teimosia salvou o dia, mas era exaustivo demais me deparar como toda essa discussão ainda está engatinhando nas universidades brasileiras. Todavia, o principal motivo para ter prosseguido foi ter passado a receber bolsa naquele ano. Traduzindo, me submeti a uma relação na qual eu me sentia mais sugado do que recebia de volta porque precisava de grana. #Escolhas

“As ferramentas do sinhô nunca vão desmantelar a casa grande”

Mais uma vez acabei parando exatamente onde supus ter evitado: querendo ensinar quem não quer aprender. Só que dessa vez pessoas que tiveram recursos, incentivos e competências para tanto. Hoje percebo que isso é inteiramente coerente com a instituição que tinha escolhido ocupar. Errado fui eu por ter esperado não me cortar ao dar murro em ponta de faca. Se já sabia que foi a subjugação de outros povos — e seus saberes — que fundamentou a “superioridade” do homem — e da ciência europeia (moderna) — nunca teve como eu alterar isso apenas com meu suor e força de vontade. Até porque gente muito mais gabaritada que eu já fez esse corre antes. Portanto, se essas sementes não germinaram lá dentro e nutrem tantos agregados — como fui — e desabrigados aqui fora, é porque a terra era hostil ou simplesmente infértil mesmo. Mal ou bem, ter meu tema inicial adiado foi de grande importância pra mim. Talvez um dia a área reconheça valor nela, mas, no fim das contas, sei que a maior validade que a minha aprovação tem pra mim se deu, em muito, pelo apoio que recebi das professoras negras às quais recorri e me acolheram fora de lá. Se não tivesse conseguido que ao menos um membro da banca fosse uma pessoa negra, me sentiria estranho por ter recebido validação sobre o meu tema apenas de pessoas brancas. Sem demérito a nenhum deles pois todos foram escolhidos a dedo — e certamente puderam perceber ao longo do meu texto como contribuíram para minha escritura –, mas seria farsesco demais ter criticado a ausência da pauta racial para ser aprovado com nota máxima por uma banca inteiramente branca. Seria como aceitar que foram doutores brancos que me deram propriedade para falar sobre negritude, saca? Ainda que tudo que utilizei sobre o tema chegou a mim, majoritariamente pela internet — e pelas relações que travei a partir dela com outras pessoas negras inquietas, diplomadas e “leigas”. Ainda assim, independente dessa validação, encerrei esse travessia com inúmeras inquietações.

Do que nos vale acumular tanta informação sobre o nosso povo se o acesso a ela exigirá sacrifícios no templo do saber ocidental(izado)? De que adianta falar academicamente sobre negritude se a cada degrau nesse sentido, corremos o risco de nos tornarmos incompreensíveis até pras nossas mães e vizinhos? A quem serve uma intelectualidade negra amparada em autores e teorias tidos distanciados/científicos/universais — leia-se brancos? Como posso ser levado a sério pelos meus ao discorrer sobre o que se esconde por trás do mito da democracia racial e da nossa miscigenação (cultural e carnal) se, no fim das contas, eu me valido através de carimbos brancos? Que tipo de aprendizado eu realmente tirei quando permaneço ancorado nas mesmas instituições cuja participação na morte dos saberes africanos e ameríndios evidenciei na minha dissertação? Como posso ser muito diferente de um antropólogo que observa tudo por cima quando para falar sobre os negros eu me cerco de fórmulas e interlocutores brancos? Como posso bater de frente contras os tentáculos institucionais do racismo enquanto dependo de um para sobreviver aos boletos? A quem estou querendo enganar ao pautar descolonização padronizando minha escrita segundo a norma “culta”? Questões que acompanham o conceito original de “racismo institucional”, mas que só fui acessar ao cavar a fonte. Depois disso nunca mais consegui achar que é por acaso que o uso mais recorrente atualmente é de que o racismo presente nas instituições se trata de uma falha do sistema e não o seu arquitetado propósito? Se só temos colhido "espaço”, mais de um século depois dos irmãos Rebouças e de Luís Gama, qual é de fato o benefício a médio/longo prazo de ocuparmos esse espaço? Se, nesse tempo todo andando na linha traçada por eles, de forma solitária, distanciada e longe de uma autocrítica (notável em práticas coerentes com o discurso) não construímos nada nem deixamos de pagar caro nesse “aluguel” — que o Bolsonaro pode reapropriar numa canetada? Que dignidade e sucesso alcançamos realmente nessas condições?

Outra pergunta que venho me fazendo desde concluído esse percurso foi: que teoria/teórico deixou alguma estrutura com o peso dos quilombos ou mesmo das rodas/escolas de samba/capoeira/jongo/etc.? O que foi produzido na academia por pessoas pretas que gerou frutos para além de seus muros e carreiras individuais? Com quem eles andavam no recreio e deixaram preparados para tocar o barco após a partida? Saber que quilombos foram constantes em todo o território nacional e em todo o período de escravização, sem cartilha, sem manual, nem tampouco grupo de WhatsApp, me faz questionar o que — além das promessas de integração — nos impede hoje de iniciativas parecidas. Já que nunca tivemos tanto acesso a informação e uns aos outros, como não associar isso ao isolamento imposto ao nos tornar exceções no mundo branco? Discursos bonitos temos aos montes, mas exemplos práticos e acessíveis… Quando bate essa noia me lembro de Diop, se mao me lembro, cantando a pedra de que ninguém se beneficia mais da suposta inferioridade intelectual do negro que os “excepcionais” intelectuais negros. Sabendo disso tudo, não tenho mais como dedicar a minha vida a desconstruir/reformar/sanitarizar o racismo de pessoas e espaços que vivem há séculos viciados nisso. Não só porque não vejo diferença disso pras senzalas de ontem — no sentido de que estaria ocupando espaços delimitados por brancos que, ainda que desconfortáveis exigem de mim gratidão e conferem “benevolência” a casa grande –, mas porque quanto mais fora dos cercadinhos brancos eu galgo menos a minha presença é bem-vinda em certos espaços — sociais e profissionais. Ainda que a única certeza que eu realmente tenha seja a de que não existe uma solução pronta pra isso e que jamais chegarei muito longe (no espaço e no tempo) sozinho, prefiro me aquilombar cada vez mais do que fortalecer uma parada que sempre moeu corpos e mentes negras.

“Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário”

Resumindo o baile; atualmente não faz mais sentido me afirmar qualquer-coisa negro e creditar isso a instituições e currículos brancos. Se o melhor projeto dos brancos para nossa educação sempre foi nos tornar cópias melaninadas deles mesmos não tem como mergulhar na pilha de cal e sair da cor do ébano. A nossa inclusão entre eles sempre requiriu a absorção de seus valores e códigos. Sei que tem muita gente que enche a boca pra dizer que se descobriu negro(a) na universidade, mas no máximo o que dá mesmo pra tirar de lá é uma compreensão do olhar branco sobre nós. Ninguém jamais saiu de uma instituição de ensino oficial mais competente para lidar/enfrentar o racismo. Primeiro que quem tem disposição pra peitar não consegue entrar nem se manter lá por muito tempo. Segundo porque pessoas brancas nunca moveram uma palha para aprender a deixarem de ser racistas, logo não tem como eles nos ensinarem o que, em 519 anos de convívio, nunca souberam fazer. Nesse sentido, tenho total noção de que só durei tanto nesse rolê porque o projeto de vida dos meus pais priorizou a minha formação. No entanto, também foi a minha sábia mãe que me ensinou que eu não deveria fazer questão de ser convidado/aceito por quem não me tratava bem. Lição aprendida ainda na infância quando sofria por raramente ser convidado para o aniversário dos coleguinhas da minha escola. Quanto mais empreteço mais difícil fica forçar coerência onde não tem. Sei que contradições fazem parte da vida em diáspora, mas se quero realmente ser levado a sério no que penso, sinto e falo precisa estar conectado com quem passa/passou pelos mesmos dilemas.

O complicado da gente nem conceber opções além das determinadas pela casa grande é a implícita aceitação de todo o projeto colonial. Escravização, dizimação e tudo mais. Afinal, se não conseguimos sequer conceber outras formas de nos validar no mundo é porque os europeus estavam certos quando decidiram “civilizar” os demais povos. É tomar como verdade a presunção branca de que o modelo social europeu seria o mais adequado para a vida na Terra, de que eles construíram o único modelo civilizatório capaz de satisfazer os seres humanos de forma “universal”. Basta que nos curvemos/adaptemos ao modelo deles. Basta que abramos mão de qualquer apego a tradições ou ancestralidade que possam entrar em colisão com o projeto deles. Basta que tenhamos a régua deles como métrica única para uma vida “bem” sucedida. Com tudo isso na caixola, tem ficado cada vez mais evidente, pra mim ao menos, que o maior elogio que intelectuais brancos conseguem nos conceder é abstrair a nossa negritude. Exemplos disso não faltam. Cada dia mais venho achando que não ter percebido isso antes foi até um desrespeito aos que trilharam esse caminho antes de mim. É fazer de conta que as obras de Du Bois, Virginia Bicudo, Fanon, Lélia e tantos outros não “vingaram” por falta de brilhantismo ou porque a negritude deles não influenciou suas obras o suficiente. Para isso não ser realidade precisamos aceitar que nossos grandes autores/pensadores, cujas obras somente nós costumamos reverenciar, apesar de terem produzido conteúdos excepcionais, foram podados pela forma excludente que europeus nos forçam a transmitir e legitimar nossos saberes. Precisamos encarar o fato de que por mais reconhecimento e repercussão que a academia possa nos conceder o custo disso nos deixa com muito pouco para conseguir retornar algo aos nossos. Quem veio antes pode não ter tido acesso ao acúmulo de experiências das quais dispomos hoje, mas não dá mais pra gente fingir demência nos dias de hoje. Se realmente admiramos o legado de quem veio antes, tá mais que na hora de colocarmos em prática os apontamentos dos nossos mais velhos ao invés de ficarmos tentando reinventar a roda ou enegrecendo a pólvora pra branco ler. Se temos real noção de quão colonizador é esse modo operacional de transmissão de saber — padronizado e impositivo –, o mínimo que podemos fazer é nos mover no sentido contrário ou estaremos contribuindo para que as gerações futuras permaneçam tão encurraladas quanto a gente. Obviamente dentro das possibilidades de cada um, mas tendo sempre em mente que se não estamos somando com nosso próprio suor ou estamos aceitando o que nos impuseram, ou sujeitamos outros corpos (“não-pensantes”) para atender nossas demandas. Tal como fizeram conosco.

Como sei que vai ter muita gente chegando até aqui com problemas (alarmantes) de interpretação, destaco que estou apenas atentando para as limitações dessa “ocupação” para uma vitória da negritude de fato. Todos tivemos/temos/teremos motivos para entrar nesses lugares, mas aquele ditado: passarinho que come… Nem tampouco estou dizendo que jamais farei um doutorado, apenas que não faz sentido nenhum, pra mim, me doutorar pautando raça sem nunca ter tido um professor negro ao longo da minha experiência universitária — logo, se for pra me sujeitar a isso que seja onde professores brancos sejam a exceção. Só acho que, em pleno 2019, não deveria ter mais gente confundindo carta de alforria com liberdade. Não dá mais pra gente fingir que acredita ser possível entrar no berço teórico do racismo “moderno” e sair de lá pre-pa-ra-do para lutar contra o racismo. Como se fosse do interesse das instituições dessa “Europa Tropical” nos munir com as ferramentas para romper com seus grilhões subjetivos. Conhecimento é importante, mas sabedoria e interpretação de texto mais ainda. De nada nos serve um porta-voz cujo discurso fale por nós, mas só tem interesse no feedback dos doutô. Não dá mais pra fingir que os mesmos patamares de prestígio e poder que tão bem serviram aos sinhozinhos dos Oitocentos representam uma vitória para todos nós. Principalmente num momento no qual os nossos superestimados “avanços” — casa grande adentro — podem ser revogados a qualquer momento numa só canetada. Sem que nenhum argumento lógico ou bem fundamentado nos impeça de voltar a estaca zero. Não tem como sermos verdadeiramente livres enquanto dependermos do aval deles até para nos achar dignos para pensar e emitir nossas opiniões. Ao menos não enquanto corremos atrás dos mesmos méritos de um Obama sabendo que figuras como a do Bozo e do Trump ilustram bem que nunca foi sobre ter qualificação, e sim sobre restringir o controle do tabuleiro. Até porque, nos provarmos úteis e lucrativos para os interesses coloniais não tem nada de revolucionário desde que o primeiro tumbeiro desembarcou por aqui.

Por fim, julgo necessário declarar que a intenção aqui não é catequizar ninguém. Até porque espero estar trocar com pessoas adultas e não com minions. O papo é sobre autonomia, o que implica tomarmos responsabilidade sobre nossos atos e escolhas. Se até o Tarantino soube dizer o fim justo para o indivíduo negro(a) que se aninha na casa grande é porque muita gente já respondeu a essa pergunta. O que eu gostaria de deixar bem escuro é que quando a gente compra a ideia de que a academia é a única solução viável acabamos compactuando — querendo e não — com a nossa subjugação. Quando não buscamos brechas mata a dentro condenamos as gerações seguintes aos mesmos sufocos que passamos desde a alfabetização. Não que seja lá muito agradável querer fugir da casa grande, mas iludido estaria se ainda acreditasse que sim. Certamente contar com a estrutura que tenho em casa ajuda, então, antes que algum hater venha com essa, lembro que quilombos foram criados exatamente por aqueles(as) que sabiam que não tinham nada verdadeiramente deles a perder. Assim matute bem antes de se apegar a uma desculpa “sincera” para driblar essa responsa.

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