Iaiá e o Sinhôzinho

Ana Carolina
Sep 30 · 3 min read
“Pequeno senhor que eu amo.” Julien Vallou de Villeneuve (1795–1866)

Seu Nezinho, negro escravo do campo conversava com Iaiá, cozinheira da casa do senhor sobre a revolta que planejavam:

Nezinho: (…) tava aqui pensano com os demais na senzala Iaiá, como vosmicê serve o sinhô… podia ir envenenando-o aos poucos e quiçá ao capataz, pra quando esses caírem em doença ia ficá mais fácil de nóis fugir, formá nosso quilombo… uns dos nossos já até fez o mapa de fuga…

Que isso Nezinho… e acaso precisa ser assim?! Nem o Sinhô Nosso Pai do Céu estaria de acordo… não se pode pagar o mal com mal… eu tenho um plano! O sinhôzinho tem se agradado com a comida que faço e sempre me dá uns tostões de prata… oiá só… eu tenho um bocado… não tem necessidade, vou comprando a alforria de nóis tudo aos pouquinhos… de bucado em bucado… vou me achegando a casa grande, e com jeito nóis há de conquistá, vou alforriando de um a um..

Mas Iaiá, pra o sinhô cair no papo vosmicê agora tá até fazendo tudo pra agradá ele… não usa mais na cabeça as tranças e poe essa piruca lisa aí na cabeça…

Dexa de falar besteira Nezinho!!! eu não faço isso pra agradá branco nenhum… se saiá! É minha escolha própria usar essa peruca, sou livre pra escolher o que eu quiser…

Tá Iaiá… mas trata de envenená aos poucos o sinhô, quando ele tiver fraco o suficiente todo mundo da senzala há de botá a fuga em prática, a gente coloca fogo na casa grande…

Valei-me Nossa Sinhóra!!! Indoidô Nezinho? “Ama o próximo como a ti mesmo” é como o padre mesmo diz… nóis há de conquista nossa liberdade, o Pai do Céu não tardará! Mas vamo acertando com o sinhôzinho. Pagamos a ele o valor devida da nossa alforria… depois nóis há de estudá e aprendê a ler e a escrevê… a casa grande vai tremê quando a senzala aprendê a escreve!!!

Otra cousa Nezinho… sabe que as veiz, vosmicê e o povo da senzala… põe essa ideia de ter quilombo na cabeça… de organizá tudo assim por própria conta… e vosmicê esquece que há muita cousa a mais pra se discutir… veja bem… quase num tem preto nenhum à frente da charrete do sinhores… só os branco pobre… temos q tomar nossa lugá! Na festança do Sinhô Sindi e Juniô… num tinha nenhum de nóis nem tocado violino pra animá a festa ora!!! Estamos ficando só em lugá como senzala e cozinha da casa grande… não óio mais nenhum de nóis nos otros lugá…

Mas Iaiá… pra que tá no meio deles…

Iiiiiii Nezinho!!! Só por conta que trabaio na cuzinha do sinhózinho vosmicê não me ouve assim como os otros homens negros escravo do campo, cêis num ouve as mulhé preta de jeito nenhum...

Mas iaiá!!!! Oiá o que vosmicê tá falano!!!

Deixe disso!!! Já vou acabá esse assunto agora… eu vou lá, comida tá no fogo e não vô deixá queimá, se não sinhôzinho há brigá!!

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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