Jogo de dentro, jogo de fora. O que podemos aprender na retórica da vida chamada capoeira?

Nara Campos
May 21, 2018 · 4 min read
Capoeira Angola. Imagem: Internet.

Primeira lição. Somos muito mal acostumados e temos uma sensibilidade exacerbada quando se trata da vida em si. Nos sensibilizamos ou temos nossos egos feridos facilmente nas questões mais amenas se compararmos todas as situações em que somos acometidos desde antes mesmo de nascermos.

Se dói ou doeu, ao invés de optarmos pela birra ou pela cara fechada como primeira alternativa, exercitemos o ensinamento da escuta. Nem tudo que é ou foi direcionado a você, é de cunho pessoal. Críticas principalmente entre nós negros servem — ou pelo menos deveriam servir — como crescimento pessoal, crescimento do coletivo, da sua comunidade. O conhecimento dos nossos já diz: Quem não senta pra ouvir, não pode levantar pra ensinar. Se algo que lhe foi dito não lhe serviu, desenvolva as questões pontuadas, se aprimore e siga seu caminho. Outra síndrome branca: nem tudo que lhe é dito entra em um campo pessoal. Evidenciam-se posturas e atitudes. Não é contra você, mas contra um sistema branco que nos faz agir de forma branca com os nossos.

Em uma das aulas de Capoeira Angola Contra o Racismo da qual faço parte, uma questão acontecida comigo me fez pensar a partir da pontuação de meu mestre de capoeira. No meio de uma roda extremamente desafiadora, recebi seguidamente uma cabeçada e uma pernada que além de me jogarem longe no chão, me deixaram, digamos que desmoralizada. ( Hoje relato com tranquilidade, mas na hora não foi nada legal). Alguém gosta de ser atingido? Não. É uma situação desconfortável? Bastante. E onde eu potencializo a questão da rasteira? Em quem me atingiu ou no meu fortalecimento para que eu não mais seja atingida? Qual a finalidade de nos emputecermos em vão pelo fato do amigo não jogar o jogo conforme as nossas regras? Quem costuma retirar a bola do jogo ao perceber que o outro de alguma forma feriu seus sentimentos? Brancos! Jogar sobre o outro a responsabilidade de uma falha nossa, seja de comunicação, de falta de conhecimento, de distração, de negligência ou acomodação, não nos isenta de responsabilidades sobre o ocorrido. Afinal, muitas vezes, estamos falando de nós mesmos e das nossas comunidades.

Na capoeira, aprendemos que quando levamos uma rasteira bem dada, jamais devemos sentir raiva de quem nos deu a rasteira e sim raiva por termos levado uma rasteira. Existe uma diferença gigantesca nas duas colocações. Antes de ficarmos brancos de raiva com quem nos deu uma possível rasteira, fortaleça seu Orí para que você não caia. Arme o cerco, esteja atento, observe, não dê brechas para escorregar. “Quem não sabe andar, pisa no massapê e escorrega, pisa no massapê e escorrega, pisa no massapê”. Que saibamos nos aprimorar com esse conhecimento.

“Capoeira é tudo que a boca come.” Mestre Pastinha 1889–1981.

Nossa autonomia anda extremamente perdida, solta e, muitas vezes, desaparecida. Nossa dependência por coisas básicas e que dizem respeito, primeiramente a nós mesmos anda desconexa. Recorremos ao outro todo momento para que resolva nossas próprias questões. Enquanto negros em diáspora passamos por inúmeras situações que propositalmente destruíram e destroem nosso entendimento sobre nossas reais capacidades. Nos travaram, nos colocaram em lugares pré determinados aos quais nunca nos pertenceram. Ao retirarem nossas identidades, incutiram em nós a doença da dependência ocidental que nos faz requerer a todo momento que alguém que faça as coisas por nós. Onde está a nossa capacidade de fazer nossos próprios caminhos?

Onde está o nosso conhecimento sobre Sankofa que nos permite voltar ao passado, ouvir nossos ancestrais e aplicar a sabedoria dos nossos mais velhos, aos problemas que enfrentamos?

Não proponho que descubramos a roda e sim que possamos identificar os caminhos que nossos ancestrais descobriram. Se não somos capazes de fazermos o primordial , sem os vícios brancos (dependências, individualidades e resolução de problemas usando o corpo do outro) como faremos? Conceitos básicos, galera. No nosso dia a dia. Façamos por nós mesmos. Esperar que o outro faça é praticamente uma síndrome do branco bem intencionado.

Um corpo preto recebendo rasteiras e dependente das ações do outro é um corpo preso. E nossa ancestralidade fala exatamente o contrário. Devemos enxergar até mesmo o que os olhos não podem ver, vibrar, intuir, ancestralizar. Acordem, pretos. Paremos de pôr a responsabilidade das nossas vidas nas mãos de outros. Fortaleça-se a si que iremos fortalecer toda a nossa comunidade.

Olha essa cobra me morde, — Senhor São Bento. Olha, ela é venenosa: — Senhor, São Bento. Mas cuidado com a cobra: — Senhor São Bento. Olha, a cobra lhe morde, Senhor São Bento…

Mestre Cobra Mansa. Imagem: Internet.

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