Barbara Lewis
Aug 19 · 5 min read

No texto Parte 1 foi narrado alguns comportamentos bem típicos (Um *Modus Operanti bem evidente) dos “Amigos Não Racistas”, também chamados de desconstruídos, que vem dar aquele pitaco básico nas redes sociais dos amigos pretos. Para esse segundo texto vamos continuar porque são tantos tiques repetitivos que poderiam render um livro.

É fato público e notório que existe toda uma estrutura que protege os indivíduos branckos enquanto estes eliminam os pretos. As estatísticas estão aí para comprovar, os jovens negros estão morrendo ou sendo encarcerados, a saúde e educação sendo negada e a nossa cultura demonizada ou apropriada nos nossos próprios espaços. Apesar de todos os contrapontos que afetam a população preta desse país, nós ainda temos que parar para explicar para os amigos branckos quando eles estão sendo racista. Isso não seria necessário se eles tivessem o mínimo de vontade de estudar sobre o assunto, mas a falta de interesse dentre os branckos é inegável… Exceto quando querem opinar, aí eles virão sabichões e utilizam frases do tipo:

“Eu não sou racista porque minha avó era preta” “Porque meu namorado (a) é preta (o)” “Meu melhor amigo é pret(o)” “Vc não sabia? Eu sou de asé”

Gente… Em pleno século XXI não dá para ficar ouvindo/lendo estas frases não. São frases que praticamente todos os brancxs usam, é um porre! Agora imagina se você for a única pessoa preta em grupo de pessoas e for usado como token do brancko por ser “o amigo preto” ou “namorado (a)”. Aquela cena bem clássica de na rodinha de amigos branckos eles te usarem no meio da conversa para se isentar de estar praticando racismo. Ehhhh…Essa cena é fácil de imaginar, né? Até mesmo porque acontece direto se você freqüenta espaços de maioria branca.

Agora multiplique esse comportamento por 100 e teremos um exemplo de como branckos super legais agem na internet. Aquele local que é terra de ninguém onde a cara de pau fica escancarada e as pessoas esquecem que estão passando vergonha no crédito ao invés de débito.

Às vezes é difícil encontrar amigos, namorados, colegas branckos com quem se relacionar sem perceber uns padrões básicos de comportamento. No dia-dia às vezes passa despercebido, mas na internet, como esse negócio de dar “print” da tela, fica bem didático de observar. Uma dessas ações facebookianas é a clássica SE FAZER DE VÍTIMA da situação. Acontece da seguinte forma: A pessoa vai à sua rede social, fala uma pá de asneiras e quando uma pessoa preta dá um corte nela, ela mete que está sendo atacada, que foi ali de boa, que só queria dar a opinião e pipipipópópó

Frases comuns:

“Ahhh mas porque você tá falando assim comigo?” “Você não tem paciência de explicar” “Eu estou do seu lado” “Você é tão grosso (a)” “Essa revolta não vai te levar a lugar nenhum, só vai te fazer mal”

Sofrência dos brancos discutindo com pretos nas redes sociais- meme/reprodução da internet

Esse drama de “estou sendo atacado nas redes sociais” é uma receita de bolo (aquele bolo feito de massa pronta). Não importa a idade, o comportamento é o mesmo, pois a vergonha é atemporal. Devido ao protecionismo e privilégios uma pessoa branca acredita que não será confrontada quando insiste em falar de assuntos do qual não tem entendimento. Além disso, exigir explicações de forma “polida e educada” também é comum desses que querem ser ensinados ou invés de procurar conhecimento. Mas é aquilo “Aquele que não sabe dançar irá dizer: A batida dos tambores está ruim”. É mais fácil culpar o outro do que culpar a si mesmo.

Saindo do vitimismo para o próximo passo… Se jogar no chão fingindo está ferido não comoveu ninguém, então o jeito deles é tentar se mostrar superior, aquela máxima de deslegitimar o pretinho que fez a postagem através da famosa CARTEIRADA. Isso consiste em dizer que tem curso tal, faculdade tal, viagem tal pra justificar o seu ponto de vista.

Toma carteirada! Imagem de Robert De Niro em cena do filme Fuga a Meia Noite (MidnightRun)/1988 e da Jolie Foster em cena do filme O Silêncio dos Inocentes/1991

Olhaaaa as frases comuns aí:

“Eu fiz uma disciplina na faculdade que falava blá blá blá” “Eu faço Jongo no lugar tal” “Eu tenho num sei quantas cordas na capoeira” “Eu sou da casa de Asé tal”

A carteirada só reforça os privilégios que os branckos têm em relação às pessoas pretas. Quem tem mais acesso as Universidades ou a informação? Quem tem mais tempo para se dedicar a atividades esportivas ou culturais? Quem tem um Judiciário protecionista e que aplica penas mais rigorosas aos pretos?* Quem tem maior poder aquisitivo, bens e diversos outros tipos de benefícios?

* Em 2014, a pesquisa “A aplicação de penas e medidas alternativas no Brasil”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontou que o rigor da Justiça Criminal com os negros é maior que com os brancos. Enquanto o primeiro grupo vai mais para a prisão, o segundo tem mais acesso a penas alternativasCarta Capital, publicado em 08/12/2017

Este privilégio social também facilita em muito para que as pessoas branckas consigam acessar os espaços de origem preta, fato que às vezes os próprios pretos têm dificuldade. Um exemplo disso são os terreiros, os sambas, as danças de origem afrikana (principalmente as atividades que são praticadas nas áreas mais próximas do centro da cidade). Muitos brancos acabam tendo mais acesso a estes lugares, enquanto que os pretos estão sendo segregados dos seus próprios espaços. Um exemplo gritante disso é no caso religioso, onde os pretos são vistos em sua maioria nas igrejas cristãs, e os branckos nas casas de Asé.

Vale lembrar para os branckos que estar em espaços pretos não faz deles pretos, não faz deles “um entendedor de assunto” sobre racismo. Se freqüentar espaços pretos não os torna pretos, então vale lembrar que muito menos serão pretos estudando academicamente as questões raciais. Branckos… Vocês não são pretos e pronto! Essa necessidade de dar carteirada por ter estudado um assunto ou freqüentar tal lugar só prova o tamanho do mau-caratismo. Só escancara o racismo mesmo!

Aos Branckos,

Já deixei umas dicas no texto parte 1 para a galera branca, em resumo seria: Toma vergonha! Para que tá feio!

Aos Pretinhos,

Os conselhos também já foram dados no texto parte 1, mas só para reforçar. Se já sabemos como estes amigos bonzinhos e desconstruídos têm agido, para que dar a corda para eles nos esforçarem?

Tem um provérbio africano que diz: “O caçador que persegue um elefante não se detém para jogar pedras nos pássaros”. E no fundo é isso, estamos em um combate direto contra o racismo, estamos tentando despertar um pensamento anti-racista entre os nossos, então por que deveríamos desperdiçar nosso tempo e energia tentando convencer ou “desconstruir” pessoas que não têm o mínimo interesse em se educar?


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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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