Douglas Malûngu
Jul 1 · 4 min read

Muita gente que se autodeclara ou se simpatiza com o panafricanismo, com o nacionalismo negro ou com o quilombismo ainda lida com essas ideias da mesma maneira que o pessoal de esquerda lida com o marxismo ou o anarquismo. E isso já era de se esperar, já que os que vão ter acesso às ideologias de autonomia são, no geral, a negada que acessou a academia.

Na academia o modo de se lidar com a realidade é meramente contemplativo. Os acadêmicos são excelentes Galvões Buenos do mundo: descrevem, analisam, empolgam, e até dizem como ele deveria ser; mas são incapazes de formar um time, entrar em campo e vencer o campeonato.

Mas isso não é incoerente com os acadêmicos de esquerda. Afinal, o modo cultural europeu é desconectar quem pensa de quem executa, a mente do corpo, a forma da matéria, o espírito da carne. De Sócrates-Platão-Aristóteles a Nietzsche-Wittgenstein-Marx, invariavelmente a cosmovisão europeia se funda numa noção fragmentária, verticalmente hierárquica e dissociadora da realidade. Quanto mais próximo do pensamento, da mente, do formal, do espírito, mais superior e valorizado pelos mais nobres recursos simbólicos e materiais. Já quanto mais próximo da execução, do material, do corporal e do carnal, menos valorizado. Daí a divinização da pessoa branca e a animalização das pessoas não brancas, em especial as africanas.

A cultura branca caucasiana, árabe, judaica e ariana cultua a materialidade do mundo através da espiritualidade do mundo, enquanto os berços africanos, ameríndios, aborígenes e hinduístas dravidianos cultuam a espiritualidade através da materialidade do mundo. Isso se manifesta mais explicitamente no caráter fragmentário e isolada com que os primeiros lidam com o mundo, enquanto os segundos lidam de maneira integral e articulada.

Daí que é mais do que esperado que muitos negros e negras que se considerem panafricanistas, nacionalistas ou quilombistas lidem de maneira acadêmica e esquerdista com essas ideologias pretas. A maioria saiu da esquerda, já começa por aí. A constatação de que o mundo está muito errado e desequilibrado, saindo dos lugares mais fundidas do rolê, e tendo como únicas opções apresentadas nesse mundo branco o capitalismo, o cristianismo e o marxismo, é compreensível que a negada se esquerde, pois percebe que o ganho individual é incapaz de resolver o dano coletivo. Só os que acreditam que o ganho individual basta, já que “o mundo é assim e não pode ser de outro modo”, que caem na asneira de disputar o capitalismo.

Daí esse hábito esquerdista é esse de ser uma mistura de Revista Caras e jornal Meia Hora. Vitrinizam as concentrações dos ricos e espetacularizam a miséria dos pobres. Suas organizações partidárias são incapazes de romper com o capitalismo e seus militantes não tem qualquer prática antissistêmica efetiva para minar aquilo que dizem lutar contra. Mostre-me uma revolução de esquerda que tenha rompido com o mundo branco e eu te mostro que ela até reforça e aprimora o mundo branco. Os marxistas, anarquistas e social-democratas têm uma robusta teoria que aguarda a fantasmagórica classe operária ou a desinteressada classe trabalhadora para executar.

Daí que esses vícios de esquerda - teorizar sem botar na prática - é muito comum entre essa elite intelectual negra. E não passa de uma elite intelectual, mesma. Comportam-se como uma casta iluminada a pastorear a negada pela seara da afrocentricidade rumo à emancipação do povo preto sem, já n largada, serem emancipados. Esperam que a massa alienada no cristianismo, na branquitude, na palmitagem, na miséria, um dia despertarão após séculos de entorpecimento e dominação e haitizarão o mundo negro do continente e da diáspora. Felizmente, isso jamais acontecerá. Primeiro, porque a escravização dos africanos não foi um processo que começou no tráfico negreiro nem acabou com as cartas abolicionistas, assim como a colonização da África não começou com os árabes e terminou com Nkrumah. Aliás, se esse fictício dia chegasse, muitos dos que hoje se apresentam como militantes pelos negros, líderes da raça e etc e talz seriam os primeiros a rodar. Haiti taí pra passar o recado. Possivelmente, eu mesmo seria um deles.

E iria contente.

Acreditar que ideias e compreensões da realidade são suficientes para a nossa emancipação definitiva é, como o rigígulo do Leop já disse, fazer o Morgan Freeman Reverso: se vc só falar do racismo e do colonialismo, um dia ele acaba.

Nosso povo tem uma relação diferenciada com a palavra. Não falamos para manifestar um pensamento, mas uma vontade. O pensamento se realiza na sua transmissão enquanto a vontade se realiza na sua execução. O pensamento, tão logo transmitido, se completa. A vontade, tão logo se executa, projeta-se a uma nova vontade e a novas execuções. É isso que diferencia um intelectual de um guerreiro. E nosso povo precisa muito menos de intelectuais e muito mais de guerreiros.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Douglas Malûngu

Written by

“Branco Sai. Preto fica.”

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade