Nem Tudo que Reluz é Ouro
Nem televisionado
Há um tempo atrás eu escrevi sobre como as pessoas procuram inspiração em ídolos das redes sociais (idolatria está criada pelos próprios seguidores). Escrevi sobre isso porque sempre achei essa relação de amor e ódio estranha. Desde a forma como os fãs interagem com o ídolo, quanto a forma que o ídolo faz de tudo pra conseguir fãs.
Lembrei desse assunto porque esta semana a Karol Conka apareceu com um namorado novo. Pra nenhuma surpresa de muitos de nós, o namorado dela é branco (tsc tsc tsc)… Pronto… Agora estão lá os fãs brigando online pra “defender” e outros pra “atacar” o namoro dela. Visto que, nesse lance ataque x defesa sempre jogam pra conta dos que acham esse namoro uma pataquada, que viram sempre os raivosos mal-amados da militância que estão atacando a pobre pessoa que está num relacionamento interracial.
Gente… a palmitagem é uma relação de auto-ódio muito grande. Procurar no brancko um amor que ele destruiu dentro de você e dos seus ancestrais é algo bem bizarro . Mas nem todo mundo consegue observar isso (à s vezes até consegue, mas prefere fingir demência enquanto pensa na sua subjetividade). O assunto pode ser complexo, mas ver o Nego do Borel pedindo a namorada dele em casamento me deu até tristeza. Eu já sabia que ela namorava uma mulher brancka, mas nunca tinha reparado se pareciam felizes. Bom, me mandaram o vídeo dele pedindo ela em casamento, durante o pedido de casamento ele tenta beijá-la algumas vezes e a mulher toda vez vira o rosto. Não dá pra saber exatamente o que se passou ali, mas a cena é bizarra, eu jamais desejaria isso para mim, ou para qualquer outra pessoa preta.
Se o brancko é responsável por toda a estrutura racista que estamos inseridos, aquela que nos mata emocionalmente, psicologicamente e fisicamente, por que as pessoas acham que o seu próprio relacionamento é uma exceção dentro desse contexto? É falta de vergonha na cara que chama, né? Mas enfim… Todos sabemos a complexidade que envolve a relação com branckos, e quando eu falo dessa relação de palmitagem eu não digo só de romances em si, e sim das relações financeiras, de amizades e todas as outras as quais às vezes nos submetemos devido ao nosso envolvimento com mundo brancko.
Voltando a Karol Conka… Uma galera foi justificar o namoro com o clássico mais furado da história “mulher preta não palmita porque é preterida”… Gente… Só parem! Como vcs têm coragem de usar uma justificativa dessas? Esse seria o caso da cantora Iza também? Porque pelo que vemos a Iza não parece ser a forma de mulher que é preterida, né?!
Pelas fotos do casamento dela dá pra ver que a maioria esmagadora das amigas dela eram branckas… Teve gente que ficou surpresa ao ver que o bonde pesadão dela só tinha brancka rsrs. Mas gente… Isso vale para qualquer pessoa, se você só tem branckos em seu convívio, ficará bem difícil encontrar um homem ou mulher preta para se relacionar, né?!

O fato, pra mim, tirando um pouco a tristeza que é estas mulheres estarem em relacionamentos com branckos, é a exigência dos fãs em relação a isso. As pessoas realmente acham que os artistas devem agir ou ser da forma que eles querem. Isso sem dúvida deve ser uma grande quebra de expectativa, mas não deveria. A gente tem que estar ligado que a mídia faz de tudo pra vender, e que o discurso de empoderamento dessas artistas não necessariamente condiz com suas atitudes pessoais… Vide o cantor Djonga, as suas músicas contém um poder de reação ao racismo muito potente, ele põe força nas palavras “fogo nos racistas” e que “vamos enegrecer nossas famílias”, mas na prática ele é casado uma mulher brancka e seu filho nasceu com a pele clara (pane no sistema rsrs).
Não adianta a gente achar que todos que cantam sobre militância ou causas sociais estão cantando porque vivem essa realidade, porque na maioria das vezes é sobre dinheiro e não sobre conquistar mudanças. A discussões da militância dão polêmica. Por que vocês acham que o programa de televisão Big Brother colocou participantes tão diversos nessa última edição? Sim… Foi simplesmente para vender mais!
Obs: Só vou dar um salve aqui para a perfeita Nina Simone que, na minha humilde opinião, morreu com um total de zero defeitos em relação a ter letras contra o racismo e agir dentro do que cantava apesar de pagar um alto preço por isso.
O fod@# é que vocês querem que estas pessoas sejam o que vocês querem e não observam que são só pessoas comuns (com talento, óbvio), mas são indivíduos que passam pelos mesmos atravessamentos raciais que vocês. A parada é que vocês mesmos têm que parar de colocar artistas num pedestal, que só porque é preto e tem um discurso afiado está realmente agindo contra o sistema racista que vivemos. Pelo contrário, o que mais tem é gente usando desse discurso afiado pra ganhar dinheiro e vocês acabam por promover estas pessoas e dar mais lucros para a indústria musical brancka.
Como diz a música do Planet Hemp: “nem tudo que reluz é ouro, nem televisionado”. Cata principalmente essa idéia do televisionado, se temos uma mídia racista, que exclui os pretos, por que alguns pretos estão participando dessa mídia? Vocês acham que estes pretos conquistaram seus espaços ou foram colocados como peças para levantar as questões de acordo com a própria necessidade dos branckos? Então… Pra quem se decepcionou com a escolha amorosas desses artistas está mais perdido que cego em tiroteio, porque o cego no tiroteio pelo menos sabe de onde vem o tiro a partir do som. Se você nem sabe de onde está vindo o tiro, vocês realmente precisam acordar!

