Carol Veiga
Aug 8 · 3 min read
Kilûmbu Òkòtó / Rafaela Nascimento

Existe um itan de Esú que conta sua vingança sobre um ebó feito com displicência:
Alumã um lavrador precisava das águas da chuva para seus campos que estavam muito secos, ele iria perder toda sua plantação caso não chovesse. Pediu a Esú que o ajudasse oferecendo um ebó com pedaços de carne de bode e pimenta, no entanto estava por demais apimentada a comida. Esú aceitou o ebó só que com muita sede procurou por água abrindo as torneiras da chuva. A chuva veio salvando a plantação, mas a sede de Esú era tamanha por conta de toda aquela pimenta que a chuva não cessava. A plantação agora corria risco de ser perdida por conta do excesso de chuva. Alumã preparou outra vez o ebó, mas dessa vez com a pimenta no ponto certo. Esú aceitou e estancou a chuva. Alumã cantava: Esú é justo!

Esú é cobrador, não aceita displicência e nada menos do que lhe é de direito e dever! Se o que você oferece e coloca não foi o combinado, não pode esperar que vá receber a sua parte do combinado exatamente como queria também.

Um trabalho mal feito deve ser cobrado em dobro, Alumã o lavrador teve que preparar o ebó duas vezes para que no final conseguisse o que de fato queria. Foi displicente com a preparação e as consequências vieram.

Na pretagogia Òkótó displicência também custa caro, não há espaço para desculpas e argumentos que tentem explicar o erro. Se está no erro você não vai se justificar, né? “Ah, mas eu só errei essa foi porque não me preparei”, se o preparo mal feito é seu já esteja também preparado para os custos de não ter tido cuidado. Em contrapartida quem cobra não deve ser visto como má pessoa, “Mas que desnecessário essa resposta”, certeza que se você já teve que cobrar alguma coisa de alguém deve ter ouvido algo parecido!

Voltando ao Itan, ele nos ensina que a vingança de Esú é justa, pois é assim a sua forma de cobrança pelo o que foi acordado. Parece estranho pensar em vingança e justiça juntos, mas hoje o que mais vemos é uma inversão de peso sobre o que se é justo. Uma atitude comum das pessoas hoje em dia, seria em, estando na mesma posição que a do lavrador, antes de mais nada culpar Esú pelo excesso de chuva diante do primeiro ebó, talvez até nem fizessem o segundo, não é mesmo? Apenas iriam maldizer sobre seus feitos e com desculpas quaisquer para explicar o porquê do ebó ter saído mal feito.

Fazer o que precisa ser feito sem que alguém tenha que vir te cobrar, isso é autonomia. E é aí que nos movemos em avanço com a nossa comunidade! Se viu que o combinado não vai dar, vai sair fora do acordo? Primeiro, busque alternativas, não fique parado buscando culpados pelo seu próprio despreparo, mas saiba de antemão que assim como Esú é justo poderá ser cobrado em dobro sim, afinal a balança deve pesar mais pra quem está no erro. Não entender isso é um atraso, porque o mais provável é que volte a cometer o mesmo erro de despreparo de novo e de novo e sua dívida só irá crescer.

O Combinado não sai caro porque é justo! A displicência sai dobrado porque é o justo, também! Para cada movimento um caminho e resposta diferente de acordo com o seu cuidado.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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