O dois caminhos não dá.

Ana Carolina
Sep 8 · 3 min read

Quando eu estava na faculdade participava de um “quilombo”. Pois bem, tem um episódio que vivi nesta organização que desde que entrei no Òkòtó me trouxe várias reflexões sobre quem se utiliza da comunidade para se servir.

Na época a faculdade fez uma semana de palestras, e uma dessas palestras era para falar sobre a mulher negra na literatura e era ministrada por uma branca (olha só). Uma integrante do “quilombo” foi assistir a tal da palestra e deu no que já sabíamos que ia dar: a branca que palestrou foi racista, a mina tentou discutir e a branca a ofendeu e no final das contas deu aquele furdúncio. Essa mina que colava com a gente foi pedir a ajuda da organização pelo ocorrido. Beleza. Na semana que tentamos resolver a parada, fizemos um documento para ser encaminhado a direção da faculdade e assinamos enquanto organização e pedimos para que a mina que sofreu o ataque racista também o assinasse de forma individual, para registrarmos a denúncia. Ela veio com um papo de que não ia assinar, que preferia não se identificar… e no final das contas, só ficou a assinatura da organização. Juntando os pontos, fui entender que essa mina, já era formada em psicologia, já tinha um nome nesse meio acadêmico e não assinou o documento contra a branca que já era reconhecida na academia, porque no futuro com certeza isso traria problemas pra ela e iria sujar seu currículo.

Ou seja, a mina mobilizou toda a organização para atendê-la quando sofreu um ataque racista que ela só soube chorar, e na hora de botar a cara a tapa ela tirou o dela da reta. Usou do coletivo para atender às suas demandas e na hora de chegar junto… só caiu fora.

Ela não é a primeira nem a última que vai fazer isso. Nossa comunidade tá com um monte de pretos(as) que querem ser atendidos… querem que seja atendida a sua demanda particular, do colorismo, do pai ou da vó que é branca e não sabe lidar, da sua sexualidade, disso e dá aquilo e na hora de chegar pra junto… não chega. É só sugar.

O pretos(as) em geral acham que as organizações pretas são igrejas onde eles tão ali pra receber a cura dos seus problemas. Acham que são ONG’s que ele vai receber um bom prato de comida e vai sair com a barriga cheia arrotando por aí. E não é à toa esse comportamento branquíssimo. A quebrada tá cheia de igrejas e é o paraíso das ONG’s. As organizações brancas assistencialistas são criadas a fim de nos “atender” e nos controlar, a gente vira um bando de pedintes e quando vamos nos organizar em comunidade dá nessa situação que contei. Uns chegam com desonestidade deslavada mesmo como essa mina e outros vão comendo pelas beiradas. E aqueles que estão dispostos a construir mesmo pelo nosso povo estão tão embranquecidos que agem “virando a outra face” e deixando quem tá um pouco se fudendo pela comunidade permanecer sugando só porque tem a pele preta.

Mano, quem não corre pela comunidade não tem que ser atendido por ela. Não existe carregar quem não tá correndo na mesma direção. Quem tá com energia contrária. Duas energias contrárias não movem nada. Quem não quer, cai fora. Ou a gente sacrifica o bem da comunidade pra atender o egoísmo de meia dúzia, ou a gente deixa a meia dúzia pelo bem da comunidade. Os dois caminhos não dá. Os dois não dá! E aí tá a encruzilhada e nela está Exú. Ou é um caminho, ou é o outro. Precisamos aprender a escolher, a priorizar e a sacrificar. Se uma organização não é autônoma o suficiente pra escolher por si própria e entender suas necessidades, ela quer se emancipar do que?

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Ana Carolina

Written by

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade