Evelyn Adetoun
Jul 15 · 3 min read

Um tempo atrás eu conversava com minha mãe, e ela falava sobre arrependimento. Sobre que se soubesse o que sabe hoje, não faria certas coisas, tomaria outras decisões. Disse a ela que não é possível exigir da figura de nós do passado algo que só sabemos hoje. Que ela certamente evoluiu em relação a mãe dela, e eu evoluí em relação a ela. Ela concordou.

Como ultimamente tenho o hábito de racializar tudo, transpus esse pensamento para a luta pela emancipação do povo preto. Quem está aqui, agora na luta deve ter um olhar de condutor de veículo. Ouvi uma vez essa parada de comparar o olhar pra vida ao ato de dirigir. Os retrovisores nos ajudam a olhar pra trás e conduzir de forma mais segura (até mesmo pra saber onde ir e onde não ir) mas temos toda uma visão na nossa frente. E vou além; mais que uma luta por emancipação, é sobre ter consciência nessa luta a respeito do que estamos deixando pros nossos descendentes.

Se olhar pra ancestralidade é um dos fundamentos na luta por emancipação, se tomar África pré-colonial como referência é um dos caminhos que tomamos, não podemos esquecer que uma coisa comum às diversas culturas africanas é o senso de comunidade. De família. Tudo que se faz é pensando em todos que estão ali e nos que virão. Portanto se trata de fazer o que é preciso, e nem sempre o que você quer. Quantos não conhecem a história do pai ou da mãe que se sacrifica de trabalhar pros filhos estudarem? Quando o fazem, fazem com alegria, mesmo às vezes querendo gastar a grana com outra coisa, ou desejando trabalhar menos. Mas o coração, a vontade de ver a cria bem, fala mais alto. E na nossa comunidade é assim que tem que ser. Nós somos de todos nós. Somos nossas crias, pais, mães, avós. A vontade de nos ver bem deve falar mais alto. Ou deveria…

Vou descer mais o buraco. Aí, quanto você já não fez pensando em você mesmo? No seu crescimento individual? Na sua emancipação financeira? E o quanto isso que você fez é relevante pro seu povo? Sinto dizer, mas na maioria dos casos que vemos noticiados aí, nada…

“Mas e meus filhos? Eles podem ter uma vida melhor? Mas e a representatividade? Outros pretos poderão se espelhar e ver que podem chegar lá! Mas e… Mas e…”

Miga, seus filhos e você são a mesma coisa. Volta lá em cima. Pra quem luta por emancipação, todo o povo que está no mesmo caminho é família. Não adianta eu estar jantando em Paris com a grana dos meus livros, ou sendo blogueiro na Alemanha se meus irmãos continuam morrendo e passando fome e eu só quero sustentar minha família e ser representatividade. E falando nela, ah a representatividade… Ela importa? Pra quem? Onde ela nos levou e a quem ela está enriquecendo? Pra onde vai a grana que você ganha com isso? Quem tá te pagando? Quem são as empresas que te contratam? Onde e o quê você tá consumindo? Ser representatividade pra enriquecer a branquitude, e dizer pros moleque do sinal que eles podem chegar lá quando por estatística eles estão mais perto da morte que da porta de uma universidade… Acho que nem preciso concluir.

Então, vamos pensar. Pensar que caminho é esse que estamos tomando. O que efetivamente estamos fazendo nessa busca por emancipação. Olhamos de verdade pra quem nos precedeu? Aprendemos mesmo? E o que estamos deixando pros que vêm depois de nós?

Façamos o possível pra que, minimamente, nossos filhos iniciem a caminhada deles com menos obstáculos e com uma distância menor pra percorrer.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Evelyn Adetoun

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