Permita-se ser curado(a) pelo amor

Allan Miranda
Sep 3, 2018 · 5 min read
Fonte: https://www.eurweb.com

~Nota escurecedora: O texto a seguir propõe uma tentativa de reflexão sobre o processo de “auto-interdição” sobre as relações entre pessoas pretas nos dias atuais. No entanto, não é uma “fórmula padrão” que tenta dar conta de analisar todas as relações construídas atualmente, e está bem longe de estabelecer um fim sobre a discussão do assunto. Permita-se ler, refletir, e claro, trocar sobre o tema. Nossa proposta, antes de mais nada, é a de propor o crescimento coletivo. Vale a pena também conferir o texto da rainha e também escritora desta revista Marinéa Coutinho~


O amor preto cura. Essa frase tão curta e poderosa tem sido utilizada por nós em diversos contextos. Seja pra foto de capa do Facebook, ou pra legenda daquele fotão com o dengo ou aquele grupo de amigos no Instagram, todo mundo já (ou)viu essa frase em algum lugar, e claro, sua interpretação tende a ocorrer de várias formas, de acordo com a vivência de cada um(a).

Essa frase me leva a mais ou menos os meus 7 anos de idade, quando, na casa de minha vó, no meio de uma brincadeira, caía e me machucava. A primeira coisa que minha avó falava era: “vai tomar banho que eu vou tacar álcool nisso aí”. Eu já tremia na base (risos). No ritual de cura da mais velha, era impossível ignorar o ardor que o álcool causava, enquanto minha avó limpava a ferida com uma gaze encharcada do líquido. Mas ela sempre dizia “com álcool vai doer, mas, vai sarar”, e era tiro e queda. A ferida era limpa e dias depois, repetindo as doses (e sentindo a dor) mais algumas vezes, estava novo em folha.

Essa memória me trouxe um princípio: o processo de cura, muitas vezes, é desconfortável e muito difícil, mas a melhora é alcançada.

Desde muito cedo, aprendemos a não nos relacionar bem com nossos próprios afetos, ora por uma forma de defesa frente ao sofrimento gerado pela condição de não humanidade experienciada através do racismo e seus desdobramentos; um deles é a impossibilidade de expressão sobre nossos próprios sentimentos. Além disso, mecanismos gerados através do racismo, como o ideal de branqueamento, fizeram com que tomássemos como objeto de desejo o branco, tornando impossível o ato de estabelecer uma relação plenamente positiva com nossos pares e até mesmo conosco. Aí está a ferida aberta.

Essa ferida, muitas vezes, se torna ainda mais intensa após a vivência de experiências tóxicas de relacionamento, o que gera em nós um terrível sintoma: passamos a “cristalizar” aquilo que sentimos; tornamo-nos “inacessíveis”, indispostos a expressar aquilo que realmente há dentro de nós, principalmente em nossas relações amorosas. Deixamos de ouvir nosso muxima (coração) e passamos a não nos permitir a viver a experiência de uma relação de troca, seja com o crush, namorado, amigo, parente ou qualquer pessoa que conviva em nosso ciclo.

Nos tornamos verdadeiros indivíduos com o pé atrás quando o assunto é relação afetiva. Passamos a nos acostumar com a ferida aberta, e isso é um problema. E claro, não digo que não tenhamos de ser cautelosos na relação com o outro. O problema está na percepção desse processo de conhecimento.

Em nossa caminhada, é comum que vivamos a experiência da construção de nossas relações afetivas utilizando como referência nossas vivências passadas. Agora imagina qual a bagagem que teremos em um processo de desenvolvimento enviesado pelo racismo, onde o amor, além de ter sido moldado em um ideal que não nos contempla, quase sempre nos foi negado? Isso nos faz criar algumas crenças desfuncionais dentro de nós. Uma delas é de que em algum momento a coisa vai desandar e que você vai acumular mais uma experiência negativa. Pensamentos como esse são autodestrutivos.

Permita-se enxergar o outro em sua totalidade, incluindo seus defeitos; um dos maiores erros da cultura ocidental é criar um parâmetro de perfeição na construção dos relacionamentos. Começamos relações citando e enxergando no outro somente as qualidades, como se isso fosse o antídoto pra qualquer problema. Não é. Antes de tudo, criemos laços afetivos reais. E laços afetivos reais não têm nada a ver com aquilo que aparece no comercial de margarina ou nos contos de fadas.

Ser curado pelo amor é um processo demorado e delicado. Muitas vezes requer de nós que nos dispamos de um universo de “verdades” negativas acumuladas, o que é um processo muito difícil.

Sabemos que é complexo encarar o novo, principalmente quando já se se espera o pior. No entanto, o amor preto pode nos afetar positivamente em várias dimensões. Vamos a algumas delas:

O amor próprio: Em uma cultura onde traços negroides nunca foram associados a um padrão de beleza , o que fez com que introjetássemos — ainda que inconscientemente — o sentimento de ódio pela própria cor e nossos traços, o amor preto representa uma verdadeira ressignificação desses ideais. Se permitir amar alguém com as mesmas características fenotípicas que você é também se amar. Ora, se não me amo por conta do que vejo em mim, dificilmente conseguirei amar alguém que me faça lembrar de como sou. Logo, amar nosso(s) semelhante(s) nos ajuda a sentir e estabelecer uma relação de amor a nós mesmos.

A relação com a comunidade: Aprendemos no ocidente que as relações entre pessoas, particularmente as relações afetivo-sexuais, são estritamente particulares. Porém, há um limite nisso aí. As relações vividas por você impactam a vida de pessoas que talvez você nem imagine ou conheça. Já parou pra pensar no impacto que existe em duas pessoas pretas andando de mãos dadas na rua? Isso inspira. Dá energia. Cria esperança. E mais do que isso, é a prova de continuidade dos nossos.

Resistência: Em uma sociedade que investiu durante muito tempo na ideia de que somente o branco poderia ser amado, estar entre os nossos e vivermos o amor entre nós é, antes de mais nada, revolucionário. É uma verdadeira quebra de paradigma. E é maravilhoso fazer parte disso.

Além dessas dimensões, poderíamos apontar diversos outros atravessamentos que o amor entre pretos pode nos trazer. Mas lembre-se: a cura pelo amor preto é também responsabilidade. Talvez por isso seja tão difícil estabelecermos relações sólidas entre nós.

Apesar de tudo, acredito que é impossível pensar em qualquer espécie de revolução/emancipação/melhoria para nossa comunidade dissociando ela do afeto, independente do tipo (até porque o ódio também é importante nesse processo); O afeto é quem constrói, quem dá a combustão, quem mobiliza. Logo, se permitir ser curado pelo amor pode ser um processo complexo, mas, essencial para nossa vida e saúde enquanto pretos em diáspora.

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Allan Miranda

Written by

Homem negro, psicólogo por formação, 25. Autor do artigo “Racismo brasileiro: a cultura da percepção seletiva em uma visão psicológica social.”

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