Carol Veiga
Dec 15, 2018 · 3 min read
Anastácia, instrumento de tortura para silenciar

Por onde começar? Parece que ainda me falta voz. A voz que hoje sai de mim ainda soa rouca e falha, como quando se fica muito tempo sem falar e quando fala o som do que se queria dizer sai cortado e em pedaços. Pois bem, há alguns meses me faltava ainda um posicionamento definitivo sobre qual tom usaria quando minha voz fosse direcionada para o combate ao racismo.

Depois de tantos anos acreditando que era possível arrumar e limpar a casa e o terreno para que eu e mais dos meus pudessem lá estar e talvez descansar, escurecer tudo foi a mais incrível forma pela qual aprendi que é com o fogo que se inicia essa limpeza.

Sempre que as coisas parecerem estar muito claras, nós devemos nos questionar se estamos seguindo o um propósito que realmente nos beneficia. Ocorre que com tanta claridade no seu entorno a gente pode acabar se cegando, machucando a visão e ficando mais vulnerável em relação à qualquer golpe que entre na nossa direção. Quando pessoas pretas estão envolvidas com espaços e pessoas branca existe uma possível e forte tendência de nós nos silenciarmos ou escondermos nossa subjetividade preta, nos assimilando à eles. Não acredito que seja por vergonha, mas por estar vivendo nesse meio naturalmente se percebe que se não for se adaptar não vai ter como ficar por lá de uma forma, digamos… muito cômoda. E por que então ficar nesse meio, não é mesmo?

Da minha vivência até aqui, em que sim foram de muitos espaços e com pessoas brancas, me condicionei a me calar por muitas vezes, ou até mesmo permiti que eu fosse calada, sem perceber a princípio que isso era uma faceta do racismo. Acontece que sempre quando nós nos colocamos nessa condição de emudecer, a gente reprimi toda nossa percepção corporal, que acaba entrando em curto com nossos pensamentos e comportamentos. Uma das consequências pode ser a dúvida que criamos sobre nós mesmos e que acaba separando nossos sentidos (corpo) do nosso conhecimento (mente) de nossas crenças (espiritualidade).

É importante compreender que essa divisão, essa modo de desconexão consigo mesmo, nos adoece e nos faz desacreditar no real potencial que somos. Minha voz que hoje pode ainda soar meia rouca é por conta de tanto tempo que fiquei calada, aprendo na Capoeira e com principalmente os mais “velhos” do Kilûmbu que minha ação ou a resposta à ação não pode mais vir com delay (atraso). Pois é o que ainda acontece, muito penso, penso, e penso por demais, que teve até uma vez que no cantar da roda depois de ouvir todos cantarem a ladainha eu me atropelei toda e errei o que já tinha escutado de todos (risos, porém preocupada).

Escurecer é maravilhoso e é esse o tom que decidi dar à minha voz, porque estar entre os nossos, viver e trocar dentro da nossa cultura nos fortalece juntos. Na escuridão os sentidos estão mais alertas e é preciso trabalhar todos eles em conjunto. Não vai te bastar ver pra crer, você vai precisar ouvir, falar, sentir e sentir para além do tato e olfato, de uma forma espiritualizada. Empretecer é isso, é trabalhar em conjunto é se reconectar e permitir que todo seu corpo, mente e espiritualidade estejam aguçados, preparados e em melhor equilíbrio.

Mesmo sem saber por onde começar, comecei. Comecemos todos, sabendo ou não como começar! Vamos botando essa voz pra jogo! E bem, se errado é quem leva, já passou da hora de nos permitir sermos silenciados e todo nosso ser preto. Mas veja bem, um grande cuidado temos que ter entre nós, não tendo o que dizer, não saia falando qualquer coisa. Se a palavra é prata o silêncio é ouro. É nossa responsabilidade nos educar racialmente, buscarmos conhecimento para então sabendo o momento falarmos. E a chance é uma só, se for pra agir faça assumindo as responsabilidades e os custos que virão. Portanto falemos quando for realmente preciso, mesmo que ainda roucos!

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Carol Veiga

Written by

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade