Qual o objetivo?

Pérola Njiwa
Nov 5 · 5 min read

Uma vez li num texto sobre espiritualidade africana:

“A vida é feita de decisões. Se você se deita na cama e não sente que fez pelo menos cem decisões no seu dia, é porque alguém fez essas decisões por você.”

Há um senso comum que dita que a vida é uma estrada e os obstáculos são pedras no caminho. Hoje eu entendo a vida como uma série de encruzilhadas, uma após outra, ditando nosso caminho. Se sentimos que vivemos em linha reta, é por estarmos seguindo os caminhos pré concebidos. Sempre na mesma direção, sempre o mesmo curso de vida, mesmo com algumas diferenças fundamentais que nos fazem sentir como indivíduos.

Mas, se nos colocamos de corpo, mente e espírito no caminho, é possível ver suas infinitas possibilidades. A cada momento, surge uma oportunidade de seguir na linha reta ou traçar algo novo, pra um lado, outro, o que a gente quiser.

Por que não seguimos por direções diferentes das comuns, então?
Porque tudo tem um custo.

O custo de viver na linha reta nós já conhecemos. Faço parte de uma geração que tem como uma das principais características a saúde mental fragilizada. Isso é apenas uma amostra do quanto o mundo que conhecemos hoje está corrompido, estragado, fora do eixo. Vivemos sem propósito além de nos encaixar em caixinhas pré concebidas. Nasça. Cresça comportado. Faça faculdade. Trabalhe. Obedeça. Não questione. Dependa de objetos ou de outras pessoas para definir sua felicidade. Controle sua ansiedade. Contribua com a sociedade.

Parece cruel, e é — é o preço de ser “normal” em um mundo corrompido. Qualquer coisa que fuja das regras deve ser sumariamente destruída.
Seguir outros caminhos tem custo. Criar o próprio caminho é a princípio extremamente doloroso. Nada está a nosso favor. Nada. E nem é para estar. O mundo é corrompido. Não fosse, eu não estaria aqui, nesse corpo, escrevendo em português.

A encruzilhada pede sacrifício. O dono da encruzilhada é conhecido por vários nomes. Eu gosto de lembrar dele como Exu.
Exu está em muitas histórias e dentro de cada um de seus descendentes. Exu é quem guia o caminho, o meio que justifica o fim. É o que testa a vontade, desafia a vaidade e castiga a displicência. Exu pede sacrifício pois sem ele não há caminho. Ou há, na verdade — mas um caminho já definido, e não por você. Se quer seguir seu caminho, tem que alimentar Exu.
Não é barato. Mas também não é caro. É apenas o preço justo. E não existe metade, meio sacrifício. Existe mulher meio grávida? Para que uma criança venha ao mundo é preciso passar por todos os processos. São quarenta semanas. São enjoos e pés inchados. A barriga cresce. No final o quadril se expande e pelo que entendi a dor é ao mesmo tempo a pior e melhor coisa do mundo. Se não expande, é preciso cortar a barriga. Sem isso não há criança.
A vida só toma forma se o processo for seguido por inteiro. Os caminhos só se abrem se o sacrifício for feito por completo.
Decidir atravessar os outros lados da encruzilhada em busca do que há nos caminhos que são desconhecidos exige sacrifício. E não será fácil. A vida não é fácil, por que isso seria?

E, além disso, o sacrifício é determinado de acordo com o objetivo.

Objetivo.

Exu te pergunta o que você quer, para depois dar o preço do que é preciso fazer. Sem o querer, não há caminho. Não existe caminhar a toa. Onde você quer chegar? Fazendo o ebó, chegará. Sem saber pra onde, caminhará a esmo e se perderá. Não existe sorte. Existem escolhas. Não existe esperar em deus, porque deus só existe enquanto parte de nós. Deus somos nós. Deus é o sopro da vida e aquilo que entendemos como espírito. Se você decide acreditar em deus como um ser acima de você, e não dentro, você escolhe seguir um caminho pré concebido pelas pessoas que inventaram esse deus. Há um dito cristão que afirma que deus é o caminho. Isso é posto para que haja um entendimento de que o caminho está feito, ele é deus, então apenas siga. Mas não. É seu corpo quem dá os passos e é ele quem escolhe o caminho. O verdadeiro dono do caminho não determina seus passos. Apenas te diz o que é preciso para atravessar para o lado que você gostaria de ir. Ele não te acompanha até o final, apenas afirma: “se quer chegar aqui, é preciso fazer isso.” Mas é necessário, antes de dar qualquer passo, saber onde se quer chegar. Só assim, com o objetivo bem definido, é que o dono da encruzilhada te mostra o que é preciso fazer. Sem objetivo, caminhamos no escuro, em terra já batida, até pavimentada, mas malfeita, pois não é feita para e pelos nossos pés. Tropeçamos. Caímos. Tentamos seguir em frente no escuro, sem ter decidido nada, passivos em relação à nossa própria existência. Sem perceber que estamos de olhos fechados.

Abra bem os olhos. Perceba a encruzilhada. Seguir obrigatoriamente pelo caminho reto parece mais seguro, mas nos afasta de tudo o que podemos ser. Escolha suas curvas. Escolha sua direção. Estabeleça o seu objetivo. Tenha sempre em mente o lugar onde quer chegar. Assim, de olhos abertos, perceba que toda encruzilhada traz um enorme leque de opções. A escolha é sua, o sacrifício é posto. Não é barato. Mas também não é caro. É apenas o preço justo.
Se não quiser pagar o preço, tenha em mente que voltará à estrada principal, pré moldada, corrompida. Será, mais uma vez, vítima de suas próprias decisões.
Seus pés fazem o caminho. Deus é nada mais do que parte de você. Seu eu completo enquanto um deus o espera no final da estrada. Mas você só o encontrará quando resolver segui-la. De olhos abertos. Decidindo onde quer estar. Pagando o preço para chegar lá.

Respeite o dono do caminho. Respeite seu eu como deus. Você é feito de vida, carne, osso, água e sangue. Os deuses são apenas a vida em suas diferentes formas, com nomes dados pelos homens. Respeite a vida que há em você. Abra seus olhos. Alimente Exu.

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Pérola Njiwa

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Pedra que escreve, mas não necessariamente escreve nem objetivamente é pedra. Sacou?

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