Sobre essa tal “okoopação”

Leop Duarte
Oct 24 · 18 min read

Em cinco séculos de convivência, questionavelmente voluntária e civilizada, entre negros e brancos, pouco temos o que comemorar — em termos não-umbiguistas. A maioria à margem continua tendo uma cor predominante da mesma forma que os postos de poder e prestígio seguem sendo ocupados majoritariamente pelos descendentes dos colonizadores/imigrantes — miscigenados e não. A proposta política de uma integração, por sua vez, só foi ganhar força em meados do século passado a partir do movimento pelos direitos civis nos EUA. Mais notoriamente através da radical política de “dar a outra face” às forças opressoras do pastor Martin Luther King Jr. Os frutos dessa luta podemos perceber nas constantes notícias de pessoas negras vitimadas por policiais estadunidenses. Tal como acontece por aqui e no resto da diáspora, mas numa frequência bem menor uma vez que aqui compomos parte mais que significativa da população. Posto isso, por que em pleno 2019 ainda temos tantas pessoas negras tidas “conscientes” pleiteando uma cadeira ao lado dos senhoures e senhouras de engenho de ontem e de hoje? Em pleno país da “democracia racial” ainda por cima! Amnésia histórica? Síndrome de Estocolmo? Ou a desonestidade de sempre mesmo? Que tipo de cisma democrática nos faz perseguir uma “igualdade” com quem deliberadamente não soube nos oferecer “liberdade” e nunca procurou nos tratar com “irmandade”? Matutando sobre essas questões surgiu o texto a seguir.

Foto: Emmanuel Achusim

“Cheguei a conclusão de que estive integrando o meu povo a uma casa em chamas”

A “revolucionária” ideia de integrar a sociedade negra ao “sonho americano” ganhou o mundo através dos esforços do líder “pacifista” — principalmente sob a ótica policial que não encontrava resistência a seus cacetetes e cães — Martin Luther King Jr. nos anos 1950-60. No entanto, apesar de desde então ser contraposto ao radicalismo de Malcolm X, que defendeu a absurda noção de que pessoas negras deveriam parar de esperar solidariedade de quem nunca sequer o prometeu, o ideal integracionista de MLK só passou a ser visto com bons olhos depois que o pastor teve o mesmo fim que sua “violenta” contrapartida islâmica. Obviamente somente depois que sua trajetória foi distorcida a ponto de transmutar todos os sangrentos embates que travou em “pacífica” passividade e fé na moralidade (cristã do homem branco) e na ideia de democracia que nunca pretendeu ser plena ou acessível às massas. Ou seja, somente depois que a radicalidade de sua luta foi brutalmente silenciada e a força de sua liderança enterrada. Basta repararmos como Martin e Malcolm são mais comumente comparados em termos de “radicalismo” que de filiação religiosa ou de classe social para contextualizar seus direcionamentos políticos.

Talvez por nunca ter depositado muita fé no cristianismo, nunca vi com bons olhos essa coisa de servir de saco de pancadas em praça pública a fim de expor a gratuidade e a brutalidade dos “cidadãos de bem” (estadunidenses) para o mundo. Pode ter sido, também, porque ter crescido vendo alguns dos horrores da escravidão encenados em Xica da Silva já tivesse me ensinado essa lição, contudo isso nunca me desceu. Só fui conseguir racionalizar esse meu incômodo com as táticas de MLK e preferência pela postura de X depois que entendi que o pastor veio do tradicional/segregado sul dos EUA. Já familiarizado com a noção de que o norte desse país seria mais “progressista” e ainda deslumbrado com a mistureba cultural projetada sobre a cidade de Nova Iorque, ficou bastante nítido pra mim como essa ideia de que a abolição de leis segregacionistas poderiam encher os olhos de um homem negro criado num dos estados-berço do KKKlan. Exatamente o tipo de busca que jamais encheria os olhos de um menino negro de classe média, como eu, que sempre estudou em escolas de brancos no país da “democracia racial”. Por mais que já tenha caído nessa de que nos EUA o racismo era muito pior, desde a alfabetização já sabia de causa vivida que aqui não era nenhum paraíso nem entre as crianças com muito mais condições e oportunidades que eu. Ter sido, quase sempre, o único (outro) aluno negro da sala desde então até o mestrado, passando pelos cursinhos todos, tampouco me ajudou a acreditar que a superação dessa questão estaria ao alcance das próximas 5 gerações porque se eu, que fui (des)educado a vida quase toda pelos mesmos “bons” currículos em suas “boas” escolas que a maioria dos brancos, não aprendi a lidar ou sequer definir, satisfatoriamente, o racismo não faço ideia de que pós/cursinho/terreiro/roda pessoas brancas acessaram que as poderia tê-las ensinado, ao menos a enxergar, o que até eu mesmo evitei por muito tempo identificar como racismo. Por mais danos que isso me tenha causado. Que dirá eles que tem como benefício exatamente jamais sentir e toda a licença para não enxergar! No entanto, também sei de causa vivida que esse tipo de exposição prolongada acaba nos anestesiando tanto às “sutilezas” do racismo que a maioria acaba considerando parte da paisagem. Quando não passam a acreditar que elas adornam suas trajetórias de “ascensão”. #PretosNoTopo

#Aquenda: a pior parte disso de importarmos bandeiras de outras diásporas sem a devida contextualização é que a gente muito dificilmente incorpora as críticas posteriores produzidas pelas outras diásporas no combo. Costuma ficar tudo na superficialidade das frases de efeito e da decoreba de datas, lugares e sobrenomes. Por exemplo, por mais que a galera, mais atenta, saiba que MLK foi pastor e que X iniciou seu processo de letramento racial na cadeia, raramente alguns pontos que deveriam ser óbvios são ligados. Muito esporadicamente se dá a devida atenção para o fato de que ter sido filho de pastor e graduado fez de King alguém bem mais crente na boa “índole” da sociedade branca que alguém tão a margem como Malcolm ou qualquer outra pessoa negra vinda de contextos menos próximos do sul iankkke. Muito dificilmente se debate como a proximidade de Luther King aos brancos em termos espirituais e intelectuais foram imprescindíveis na formação de suas convicções. Da mesma forma que as privações às quais X perdurou o levaram a defender “qualquer meio necessário” de não permanecermos mais dependentes da “benevolência” de um grupo que fundamentou e institucionalizou a nossa desumanização. Menos ainda se problematiza a ideia de que o Deus dos colonizadores sempre esteve mais propenso a destruir aqueles que ameaçam os avanços do povo “eleito” enquanto que o dos colonizados sempre esteve atrelado a ideia de sacrifício em benefício de desígnios alheios aos nossos anseios e provações. Geralmente só se discute quem foi o mais radical, todavia quase nunca se lembra que estar disposto a não revidar agressões físicas vai contra qualquer noção de autopreservação ou “instinto” de sobrevivência.

“Você precisa aprender a sair da mesa quando o amor não estiver sendo mais oferecido”

Acredito que deve ser com o orgulho de um trabalho bem feito que os responsáveis pelo mito da “democracia racial” encarariam essa atual geração que tem como objetivo de vida #OcupaTudo. Em total ignorância da realidade de que nem os dois mandatos de Obama ou o casamento real do príncipe inglês com uma “negra” em nada alteraram ou alterarão a realidade de pessoas negras pelo mundo. Pelo contrário, apenas contribuíram para a narrativa de uma convivência harmônica e inclusiva de dois países que tanto se beneficiaram com a nossa escravização. Afinal, essa crença toda em que a mera presença de pessoas com “genes negros” é o suficiente para enegrecer um espaço reverbera bem o mito do nosso “paraíso” racial. Além de perpetuar a ideia de que a “inferioridade” do negro era unicamente biológica; que bastava o acesso aos valores civilizatórios europeus para o negro sair de seu estado de “selvageria”. De fato chega a ser doloroso perceber como muitos ainda demonstram resumir negritude a traços fenotípicos. Principalmente os/as autodeclarados(as) “conscientes” de que ser negro é uma questão sociológica e não estritamente biológica. Doloroso porque acreditar que mesmo a gente tendo estudado através dos mesmos currículos coloniais e tendo as mesmas pretensões e referências de vida e mundo que o ocidente a nossa melanina nos diferenciaria, nos permitindo engrecer o que for significa repaginar a falácia de que a única diferença entre negros e brancos é a exterior/aparente. Uma sugestão que acaba dando no mesmo que retomar o pressuposto de que os africanos traficados até aqui não possuíam cultura — uma forma própria de se conceber, interagir e (co)existir no mundo.

Essa constatação fica cada dia mais nítida toda vez que negros(as), sobretudo os com mais acesso à educação e informação, rechaçam a ideia de emancipação e autonomia devido ao seu alto custo. Chega a ser curioso como aqueles(as) que argumentam que o lugar do(a) negro(a) é onde ele/a quiser costumam ser os maiores contestadores de proposições que extrapolem os parâmetros tidos civilizados/superiores/legítimos. Se ocupar esses espaços se trata realmente de um querer, e não de uma imposição, a existência de alternativas não deveria ser mais que bem-vinda?! Até porque, para se falar em escolhas é preciso ter mais opções que ou a casa grande ou a senzala; ou ser útil aos propósitos de ioiô/iaiá, ou ser ferramenta lucrativa para os mesmos. Meus olhos/ouvidos chegam a sangrar quando me deparo com uma pessoa negra “consciente” chamar de utópico qualquer noção de retorno à cultura de nossos ancestrais. Quando nem conseguem conceber dignidade fora da gaiola ocidental. Chego a me sentir ridículo toda vez que preciso lembrar a essa gente que quando confrontados pelas amarras (físicas e simbólicas) dos brancos nossos mais velhos não titubearam tanto ao construir Palmares e quilombos por todo o território nacional. Em todos os períodos da escravização. Sem cartilha, sem teorias e sem grupo de zap. É necessário muita desfaçatez ou demasiada alienação para, além de crer que dá pra ser negro pensando e agindo conforme delimitado por brancos, que ocupar cargos concedidos por eles altera qualquer coisa na estrutura de poder que nos subjuga. Felizmente faz tempo que aceitei que não dá pra esperar coisa muito diferente de quem assimilou tanto os valores narcisistas europeus a ponto de defender projetos umbiguistas de ocupação/hackeamento da casa grande como grandes conquistas da coletividade negra. #FavelaVenceu #MilitânciaSutil

#Aquenda: Espero que a essa altura não soe tão absurdo que o negro burguês/diplomado/concurso está para a nossa emancipação tal como a classe média (independente da cor) está para os avanços sócio-econômicos (sem cor). Isso porque o negro-classe-média, embora ciente de que jamais integrará a nata das elites coloniais, se esforçou tanto para me-re-cer um lugar entre os “bem” nascidos/educados que acabou nutrindo a expectativa de ser reconhecido como seus suplentes “naturais” nos postos de poder e prestígio “oficiais”. Como se não tivesse sido o fato de pessoas negras transitando por esses espaços/cargos desde os tempos do Império a justificativa “empírica” para projetar o Brasil como um exemplo de harmonia entre as raças quando comparado ao segregacionismo estadunidense e sul-africano. Como se nos fazer contratável/palatável para a casa grande não fosse indicativo suficiente do compromisso em romper com a própria depois desta se tornar nossa fonte de renda e benefícios — quando comparado a quem não “fez por onde” preencher os mesmos pré-requisitos ocupacionais. Como se a figura do capitão do mato não fosse conhecida o suficiente para ignorarmos que a casa grande sempre recompensou — com ocupação remunerada — pessoas negras adaptadas demais ao sistema de opressão para procurar uma existência que escapasse a sua lógica.

Juízes da Suprema Corte do Zimbábue (Foto: Belal Khaled)

“Qualquer mudança real implica na ruptura com o mundo tal como se conhecia, na perda de tudo que nos deu identidade, no fim das garantias”

A casa grande tem lugar pra todo mundo? Já se propôs, algum dia, a abrigar todo e qualquer um? Algum dia já deu pra chegar lá de qualquer jeito ou é requerido formas específicas de aparentar/pensar/portar? Essa “diversidade” da qual tanto se tem falado, beneficia mais ela mesma ou os grupos, supostamente “representados” pela presença de alguns exemplares “excepcionais”? Para seus herdeiros é mais fácil usar uma exceção nossa como exemplo de “progresso” ou abrir mão de seus privilégios pra recompensar a maioria que não alcança? Espero que ninguém se perca nessas perguntas, mas fica difícil botar fé nessa marola de hackear por dentro quando as mesmas pessoas que alegam isso não estão construindo, nem sequer incentivando, alternativas. Tá mais que na cara que no puxadinho ocupado dessa galera não tem como caber todo mundo. Quanto mais a negada sem lattes, nem “modos”, nem nada que reflita o narcisismo dos proprietários fidedignos. Então, tá mais do que na hora da gente parar de achar que essa galera do #OkoopaTudo tá nessa de inocente. Todo tumbeiro zarpava da costa africana com as melhores e cristãs das intenções. Tá mais do que na hora da gente aceitar que sempre teve uma galera se apegando a qualquer migalha para não ser moída na engrenagem que nos trucida. E, como se trata de uma imposição em busca de sobrevivência nem tem isso de certo, nem de errado. #Escolhas. O que não dá é pra gente ficar plantado esperando que bananeira dê coco. Quem tomou pra si os títulos da “boa” educação — professada pela cartilha colonial — já tá dizendo bastante ao que veio e quais suas prioridades no que diz respeito a coletividade da qual teve que se afastar para alcançar essa graça. Portanto, da mesma forma que qualquer teste do pescoço não deixa dúvidas de que nunca caberemos todos na casa grande, quem pegou a visão não deveria ter receio nenhum de ser recíproco e largar essa galera de (rei na) barriga. Trajetórias diferentes costumam levar a destinos diferentes. E nem é tão difícil assim sacar qual desses é “por” nós e quais apenas aprenderam empoderadês para agregar valor e legitimidade às tentativas de “inclusão” de quem dá as cartas por aqui. Basta ver quem desconversa quando é chamado(a) na responsa “pelo” nós. Basta ver quem tá mais focado em teorizar sobre a chegada de dias melhores do que arcar com o preço de inaugurá-los ontem. Se não estão preocupados em dividir seus “avanços” no agora, não vão saber como somar depois mesmo! Não vão saber nem por onde começar a se livrar dos perfumes da sinhá ou das brisas de noiô porque tentaram fugir tanto do fenótipo que nem se atentaram para a possibilidade de haver outras fontes nas quais podemos nos espelhar nossa existência. Criticam Pelé e O.J. Simpson que têm milhões e pompa a perder, sem conseguir abrir mão de Sodexo/bolsa de pesquisa/cargo comissionado/edital/etc. Não foi a toa que os assimilados foram os primeiros a rodar na preparação da revolução — e não reforma — do Haiti.

Desde sempre nessa maafa o preço para sermos credenciados(as) a comungar das comodidades da casa grande foi sermos eternamente gratos pela oportunidade concedida. Afinal, eles sempre souberam que quem se contenta com as migalhas que eles nos consentem não vai ter muito pique de se embrenhar no mato atrás de uma liberdade sob a qual eles não assinaram embaixo. Nunca faltou vaga para aqueles(as) de nós que não tivessem ambição nenhuma de um “reino dos seus” e comprovasse saber andar na linha traçada por eles — seja à base de balas ou de livros (sagrados ou mundanos). E nada seria mais coerente com a dinâmica de tutela estabelecida pelo projeto colonial –instaurada magistralmente pela ordem jesuíta que, “altruisticamente”, velejou os setes mares com o propósito de salvar os sem “luz”. Pastores não são nada sem ovelhas sequiosas em seguir seus passos. “Mestres” perdem a “superioridade” quando seus alunos tomam pra si a responsabilidade de trilhar suas próprias jornadas e construir suas próprias verdades. Ou faz algum sentido a casa grande convidar/contratar alguém com potencial ou disposição reais de bagunçar a casa? Paradoxalmente ninguém ilustra melhor o lugar do negro nessa sociedade racista que aqueles poucos de nós –selecionados e capacitados — que se empenharam em se provar de grande valia à sua estrutura. Ou seja, toda vez que um de nós encontra o mínimo de conforto em sermos exceção em espaços brancos é como se concordássemos que a negritude seria, além de “superável”, algo totalmente dispensável, do qual nem nós mesmos fazemos questão de nos cercar. Quando os nossos objetivos mais “suados” de vida se resumem a ocupar cotas dentro do engenho 2.0 fica difícil não compactuar com a ideia de que somente a civilização europeia nos oferece caminhos dignos. Quando abrimos mão do legado de nossos ancestrais para fazer carreira dentre os limites do latifúndio, gostando e não, acabamos por ressignificar todos os sacrifícios dos que resistiram para não termos sumido do mapa como queriam os magistrados eugenistas. Acabamos dando brecha para a interpretação de que todo o sofrimento perpetrado contra os nossos mais velhos teve como único objetivo nos inserir dentro das mesmas engrenagens que os massacraram. Só que na posição de quem também mói e não de quem permanece sendo moído. Como se todos os caminhos nos levassem, inescapavelmente, à glória de uma nova Roma (ocidental). Como se o único destino da humanidade tivesse sido pioneiramente trilhado por Colombo e qualquer “inconveniente” provocado ao longo do processo tivesse valido a pena. Afinal, eis chegado o dia no qual os colonizados enfim aprenderam que a luz, a verdade e a vida só teve um berço legítimo no mundo. Eis chegado o dia em que os colonizados largaram seus batuques e sua ginga pra finalmente incorporar a valsa da “civilização”.

#Aquenda: Correndo o risco de ser repetitivo ou óbvio demais… Enquanto os nossos ideais de sucesso se restringirem a ter/ser como o branco, jamais alcançaremos o mínimo de respeito que nos seja próprio. Seremos eternos inquilinos nas concepções europeias de dignidade e humanidade. Sem chance nenhuma de nos esquivar da supremacismo branco que os fundamentou. No máximo garantir o nosso pirão primeiro. Somente quando nos mostramos capazes de (re)criar nossas próprias alternativas — uso o nós aqui porque se forem não-negros a criar e nos conceder o “nosso” espaço ele jamais será Nosso –, não teremos outra saída senão ter que pedir licença/caridade/serventia nas portas da casa grande por mais algumas gerações até que uma passe a sonhar mais alto do que o status no qual nos encontramos desde antes da abolição — quando era preciso dispensa por “defeito de cor” para ocuparmos cadeiras designadas para bundas brancas. Da mesma forma, enquanto não cunharmos nossos próprios referenciais, individual e coletivamente, pessoa branca nenhuma terá como respeitar quem somos ao invés do que fizeram de nós. Até que nos empenhemos em extrapolar os conceitos colonizantes do que significa ser “negro” não teremos como não passarmos de xerox da mesma “humanidade” e “civilidade” que nos desumanizou. Nesse sentido, cabe somente a nós fazer por onde que os outros saibam que temos sido “humanos” muito antes das caravelas e até mesmo antes do apogeu da Grécia “clássica”. Somente nós temos como romper com o projeto imposto se encararmos o compromisso ético de sermos continuidade da civilização dos nossos antepassados que sempre foi tão digna/bela/rica/estruturada quanto qualquer outra.

“As palavras do meu mais velho devem sair melhor na minha boca”

A cada dia que passa vai ficando mais constrangedor insistirmos nessa ideia de nos apropriamos das ferramentas do opressor para martelar Nossa Liberdade. Já ultrapassamos o humilhante ao continuarmos tentando nos fazer ouvir na tentativa de desconstruir uma supremacia que se vê como pólo norteador do mundo. Como se tivesse sentido esperar que quem se colocou no lugar de pastor e lobo do mundo acatar conselhos do seu rebanho. Assim como é extremamente contraditório cobrar dos brancos uma consideração e respeito nos quais nós mesmos não investimos por/para nós mesmos. Tutelados(as) podemos espernear até a voz sumir, mas — como “bons” meninos e meninas — teremos que nos contentar com o que foi posto na mesa caso não queiramos passar fome ou tomar uma coça. A não ser que nos emancipemos. A não ser que façamos o nosso por fora para garantir que, ao menos, os nossos (tetra)netos tenham, um dia, a opção real de só baixar a cabeça em ocupação desses espaços porque quis e não porque nos faltou solução/criatividade/insolência/fé/pernas e braços. Ou então condenaremos nossos mais novos a passar eternamente por todos os sufocos que ainda enfrentamos para chegar “lá”. Por mais que tenha aqueles(as) que se sintam “especiais” por serem a exceção nesses lugares, a realidade é que estão apenas reforçando a balela de que o grande sonho da senzala é sermos os senhores da casa grande, que a suposta “superioridade” deles nos causa uma inveja tal que nos leva a querer ser que nem eles e a ter todos os mesmos títulos e pompa que eles trouxeram consigo da Europa. #BeijosDeParis

Até que depositemos os mesmos esforços, que suamos e sangramos, para ocupar, seremos nada mais do que convidados sem chance nenhuma de tirar nada do seu devido lugar sem corrermos o risco de sermos escorraçados para o “buraco de onde viemos”. Seremos as exatas crianças que o homem branco se autoincubiu de “civilizar”. O paradoxo fica por conta de que quanto mais “civilizados” nos comprovamos ser, mais subalternos e dóceis nos tornamos. Quanto mais uso fazemos dos carimbos de aprovação dele, mais reafirmamos nossa subserviência a opressão racial/colonial. Podemos até nos enganar que estamos promovendo #Representatividade, mas fica nítido pra quem tá de fora que apenas nos tornamos limpadores de suas latrinas argumentativas e remendadores de suas teorias “universais”. Basta reparar como costuma ser essa mesma galera que gasta onda e grana dando festa em Copacabana Palace em nome do “antirracismo”; ou que se vende como consultoria de diversidade pra baile de gala de revista de moda racista; ou que vira trunfo em boca de branco “desconstruído” contra argumentos de pretos “revoltados”; dentre outros auges. Nessa noia de #Enegrecer a casa grande nos tornamos faxineiros do racismo deles, só que agora sentados no ar condicionado e com benefícios enquanto a maioria dos nossos continua se fodendo sem perspectiva melhor que substituir quem já entrou, pois a cota continua sendo mínima — sobretudo em tempos de crise, quando a preferência só será nossa caso aceitemos condições às quais brancos não se submeteriam ou quando precisarem que alguém lhes limpe a barra diante de uma acusação de racismo. Em outras palavras, quanto mais avançamos, seguindo as regras do jogo deles, mais dependentes do racismo nos tornamos para (sobre)viver. Quanto mais nos acomodamos em sermos o “bendito fruto”, mais compactuamos com o pecado original da colonização porque facilmente fazemos a coisa parecer que quem ficou de fora não me-re-ceu. O mais bizarro nisso tudo é perceber como essa galera quando, inevitavelmente é descartada por um modelo mais novo e mais amaciado, ou sofre racismo conta com a mesma coletividade na qual limparam suas mãos para “ascender”. Ou vai dizer que não se atentou pra isso ainda? Ou vai dizer que tu acredita mesmo que a casa grande permitiria reais ameaças entrarem pela porta da frente e ainda lhes oferecia renome e sustento? Porque se esse foi o caso, acende uma vela pra sinhá Isabel e agradeça pelo milagre de ter transformado mercadorias em cidadãos com apenas uma canetada e me erra, pois é exatamente isso que acontece quando prefirimos bater continência para os livros sagrados deles ao invés de batermos cabeça para os nossos mais velhos que fizeram de tudo para que fôssemos além e não que nos contentássemos com lhes foi permitido conseguir.

#Aquenda: Tal qual meus colegas brancos só aprenderam a não ser racistas se fizeram algum curso na PUC ou no exterior para o qual não tive condiçõe$ de cursar, tampouco eu, ou qualquer pessoa negra, jamais aprendi a ser negro sendo educado através das instituições oficiais — por essas que muito(a) preto(a) doutô ou filhos negros adotivos de branco raramente se sentem confortáveis em círculos de gente preta. Tornarmo-nos negros seguindo prontuários arquitetados e aprovados por brancos faz tanto sentido como saber a nadar e mergulhar por ter diploma em oceanografia. Por isso tive que escolher nadar contra a maré renunciando aos mimos/migalhas que poderia receber pela minha (de)formação. O foda é que, diferente de outras diásporas, nós temos um acúmulo de experiências de resistência negra — mais-afro-que-brasileiras — incrivelmente vasto e rico. Por mais embranquecidas/esvaziadas/apropriadas que muitas dessas organizações culturais tenham sido, elas continuam bastante acessíveis para uma retomada às suas funções originais. O empecilho é que elas só tem gerado status quando atestam uma “desconstrução” branca, o que torna o nosso desafio o ato de atribuirmos o mesmo valor (senão mais) que temos mostrado pelos carimbos das instituições brancas à capoeira, ao jongo, ao samba, ao candomblé, ao rap entre tantos outros caminhos deixados por quem soube chegar aonde a gente “desamparou” — em troca de papéis que certifiquem que sabemos nos portar e pensar conforme nos foi educado. E não pense que não sei o quão salgado é abrir mão da aprovação dos brancos, porém se realmente desejamos não precisar mais baixar cabeça para uma estrutura profundamente injusta/racista esse precisa ser o custo-princípio, pois, do mesmo modo que não dá pra arrotar negritude recheado e rodeado de branquice, não estará sendo possível alcançarmos Respeito por nós mesmos, pelos nossos e pela luta dos que vieram antes permanecendo rendidos às regras desse tabuleiro viciado e abusivo. Se nem nós mesmos formos capazes de imaginar um mundo fora do jogo colonial, jamais teremos inteiridade suficiente para deixarmos de ser peças surradas a ser agregradas no quebra-cabeça da “inclusividade” deles. Ou a gente para de nos agachar até caber nos critérios da casa grande, ou a gente reclama que nossa bunda tá aparecendo. Ou começamos a cavar nossas próprias saídas, ou nos damos conta de que a liberdade que nos deram veio pela metade. Ou nos fazemos agentes da nossa própria história, ou nos contentamos a ser eternos objetos a espera de alguma tábua de solução branca. Ou viramos combustível ancestral para a impulsão dos nossos, ou somos “elevados” a cânone de consciências tão tranquilas quanto brancas. E, favor, não conclua levianamente que pretendi fazer julgamento de valor sobre quem ocupa/ocupou esse espaços, pois o foco não é o que a gente faz lá dentro para sobreviver aos boletos e ao genocídio, mas sim o que estamos deixando de semear fora para que isso não se repita por mais 500 anos. Um dos grandes obstáculos é que a história ensinada dos brancos tem sempre o propósito de justificar as cagadas continuadas no presente, quando o nosso legado ancestral nos exige a fazer diferente e melhor no agora para evitarmos os sufocos e rasteiras de ontem que persistem no hoje. Outro entrave, talvez maior ainda, tem sido a gente acatar o pressuposto colonial de que o mero teorizar é mais construtivo que ter o corpo pra fazer acontecer e o espírito fortalecido por noções de mundo que não nos permita baixar a cabeça ou oferecê-la a tapas a quem sempre teve mais acesso a educação e informação que nós e nem por isso aprendeu a nos tratar como todos merecemos. És entendendor(a)? Em caso de dúvida só conferir o vão entre suas escolhas e esforços e o seu discurso em nome da coletividade, com a plena ciência de que, quem virá depois o fará a partir dos frutos que amargarem e/ou deixarem de colher e não das validações individuais/brancas conquistadas.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Leop Duarte

Written by

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade