Tema tabu e muitas vezes motivo de deboche, existe, sim, solidão do homem negro

Maicol William
May 6, 2018 · 10 min read
Foto da internet — retratando o morador de rua e seu fiel companheiro, atento.

Considerações preliminares

A primeira parada que queria colocar é que esse é um tema tabu que não é bem tratado e se faz pouco conhecido por conta de algumas posturas e algumas falácias com origem no feminismo. É comum a gente querer falar disso e já se levantar um tom de deboche. Porque esse movimento colocou a mulher negra como a mais sofrida e aí dá-se um tom, quando queremos falar da pauta que seria tipo a mulher branca querendo falar de sofrimento perto da mulher negra que, aí sim, é uma baita de uma piada.

No feminismo há três falácias que se entrecruzam e são responsáveis por tudo isso. A primeira é a de que é a mulher negra que ocupa a base da pirâmide. A segunda é a de que mulher preta não palmita; falácia essa que se apóia em uma outra, que é essa que trataremos no texto, de que só existe solidão da mulher negra, que o homem negro não é acometido por isso.

A mulher negra não ocupa a base da pirâmide de opressão na sociedade. Se amparar apenas na pirâmide social do IPEA, que coloca o homem negro recebendo mais que a mulher negra é muito reducionismo. Como também o é achar que ela sofre mais por sofrer a soma de machismo e sexismo. É uma análise muito simplista. Se formos pensar que os maiores tipos de violência à vida são os que te impedem de viver, sendo a prisão e a morte os meios mais incisivos de se fazer isso, a coisa muda figura. Mulheres não são nem 7% dentre as pessoas vítimas do genocídio e encarceramento em massa. Além do que, pense só: quem mais sofre violência do Estado? O homem negro, certo? Quem é que mais sofre violência na mão do homem negro? O próprio homem negro. Pois, então, como na equação quem sofreria mais violência na sociedade seria a mulher? De onde? De quem?

Enfim, essa é uma discussão densa, mas que com dados chegamos lá. Não é o propósito desse texto mas quem tiver dúvidas, a quem duvidar, fizemos um encontro para debater isso no mês de abril e na página dele temos o material comprobatório. Quem ler, com certeza, vai ver que o entendimento anterior sempre foi um equívoco. Só acessar no facebook a página do evento “Dissecando o Racismo — O Erro da Pirâmide de Opressões”. Lá tem o material que vai te dar uma visão mais embasada sobre o assunto. Tem até mesmo um post resumo.

A outra falácia é a de que mulher preta não palmita. Como assim? Elas por acaso não teriam preferência pelo branco? Não foram submetidas à mesma mídia? Só ver que grande maioria alisa ou já alisou seus cabelos. É aquela parada, a branca uns querem ter outras querem ser. É uma violência que nos foi imposta. É questão de raça e não de gênero.

Antes de entrar na terceira falácia, que é a base desse texto, precisamos falar de mais algumas razões que junto com as duas supracitas colaboram para que o tema solidão do homem negro seja abafado, que é o fato de nos grupos negros de militância da internet, onde a galera se reúne pra trocar essas ideias, quase 70% dos membros são do gênero feminino. As mulheres — isso tem a ver com a pirâmide — têm mais facilidade para chegar aos espaços acadêmicos e de militância. Só ver que elas sempre estão em maioria não apenas em grupos como também em eventos, um reflexo, dentre muitas outras coisas, da alta taxa de encarceramento e genocídio. Aí, a regra básica: quem sobra num “evento”, genocídio e encarceramento, falta no outro e vice-versa. Simples.

Vocês não sabem como é triste/revoltante ouvir as amigas falando que os homens negros não comparecem porque estão pouco se fodendo….

Mas enfim… o que acontece é que esse maior número faz pressão, gera constrangimento. É lugar comum homem abrir a boca pra falar e já rolar um “sai macho”, “macho escroto”, etc e tal… e a gente que já não é muito dado a falar dessas coisas porque é revestido da necessidade de sempre mostrar força (homem não chora, nem lamenta rss) acaba deixando essa porra pra lá. Sem contar que já somos poucos nesses espaços, uma parte significativa não é de uns camaradas tão articulados, um tanto pela dificuldade de acesso aos estudos e outro pouco pela masculinidade tóxica mesmo. Logo…

Mas, por falar em masculinidade tóxica, temos encontro marcado para discutirmos e melhorarmos nisso, na edição de maio do Dissecando o Racismo. A exemplo da outra aqui citada, a do erro da pirâmide, vale muito catar o material que disponibilizamos na página do evento. Vale muito mesmo. Abaixo, link para a página dele no facebook.

Enfim, quando trocamos pau com o feminismo não é porque queremos nos desviar da discussão de machismo. Não. Até porque o machismo arrebenta com a gente também. Para cacildis! Mas o que não queremos é que a discussão se dê pautada no feminismo, que além de vir com esses problemas acima de desconsideração e desonestidade, ainda mostra muito racismo implícito em suas análises. Só você pegar as justificativas dadas no caso de palmitagem por exemplo, onde muitas fazem parecer que quem menos gosta de negro é o próprio negro… coisa que brancos nos querem fazer acreditar. Tem um flerte também com a questão do branco salvador… Consideram o branco no varejo e o negro no atacado… pro branco parece sempre haver salvação (sempre aparece o desconstruidão), pro negro não… Enfim… Queremos, sim, falar de machismo mas não a partir de uma ótica profundamente eivada de racismo, cheia de vícios.

É isso! Apenas isso. Considerações feitas, vamos falar um pouco sobre a solidão do homem negro.

A Solidão do Homem Negro — Sim, Ela Existe!

Essa semana me passou pela timeline do facebook um vídeo de um homem negro todo fodido, puto pra caralho!! gritando que não gosta de ser só. Quem ainda não viu o vídeo, pode ver agora abaixo, só acessar o link do facebook:

https://www.facebook.com/groups/idmaberta/permalink/1857518974420031/

Foi postado com viés de galhofa mas não é nada engraçado. Isso é sério! Isso é foda! Isso é pesado! Acomete muita gente. A grande parte do nosso povo está longe dos olhos da academia, que dita o que é e o que deixa de ser. Tá errado!!

Pra quem inventou esse papo de que solidão é só da mulher negra, vamos dar um rolé na rua. Vamos? A maioria é homem. Grande parte também é de pretos bem escuros, retintos, como o do vídeo. Esses sofrem mais ainda com preterimento, social e afetivo. Só levar as amigas pra dar um rolé na rua. Vocês vão ver só homens, praticamente. Vocês acham que à noite chega carregamento de mulheres para eles? Chega carregamento de família? Porra nenhuma!

Essa semana mesmo, vi pelas ruas passar dois homens negros, bem escuros, desacompanhados, falando sozinho pra caralho! Gritando coisas aleatórias. É foda! A solidão enlouquece. Se liga que é dito que homens também são maioria em hospitais psiquiátricos.

Imagem reprodução da internet

Eu, quando criança, fui menino de rua. Abandonado pela minha mãe aos 8 anos…. meu pai quando nasci já estava preso, nunca conheci. Depois a mulher que me adotou faleceu. Ela tinha nove filhos, morava em beira de estrada. Hoje não sei pra onde foram; não sei onde estão os meus (9) irmãos. Uns, sei que morreram. Outros, nunca mais tive notícia. Fora isso, há meus dois irmãos de sangue que depois dos 6 anos nunca mais vi… Enfim, sempre fui sozinho. Isso não consta como solidão? Sempre fui — como muitos dos nossas na rua — muito sozinho.

Tanto que me acostumei e passei a ser tranquilo. Tanto que hoje tenho maior facilidade pra mandar um foda-se pra tudo. Perdi um tanto a sensibilidade. Sempre fui de boa sozinho, não ligo pra porra nenhuma. Quer ficar, fica. Quer vazar, vaza. Em primeiros contatos, até nem faço esforço pra ser agradável. Fica quem quer. Não ache que me faz favor…. Pois é assim que muita gente nos domina. A rua ensina. A agrura ensina. Pra cacete!

Mas voltando ao lance do hospício e de como as pessoas na rua ficam malucas, eu mesmo quando andava na rua variava bastante, vários devaneios. Na minha cabeça, tinha toda uma história montada, onde eu tinha família, era isso e aquilo. Detalhe: eu não era eu, eu tinha outra pele, outros traços… advinha aí quais! Eu era tipo autista mesmo. Tinha um fantástico mundo de Bob só pra mim, onde eu me realizava.

E, continuando… por que você acha que em meus devaneios eu tinha outros traços? As minas falam que são preteridas. Existe algum universo em que somos os escolhidos? Estão pegando o universo dos jogadores de futebol e pagodeiros e generalizando. Mas os das jogadoras de tênis, das mulheres negras que ascendem, das pretas maravilhosas das escolas de samba e de dança afro isso e aquilo…. ninguém fala. Convenientemente esquecem.

Só somos escolhidos, pretos e pretas, quando ascendemos. E aí, é a disputa com o branco. E eles sempre levam. Porque racismo é isso: na disputa com branco, tá desenhado pra ele sempre levar o que se faça desejável. No papo palmitagem, a gente desconsidera isso, esse desenho social em que branco sempre pode chegar na frente do que se faz desejável. O branco sempre dispõe de mais armas para a “disputa”.

Mas enfim, as mulheres são preteridas. Os homens também. Porém, solidão vai além disso. Muito além! Dos meus 15 anos pra trás, não conheço mais ninguém, não tenho contato. Vá nos orfanatos. Eu morei numa instituição. A maioria ampla é de meninos, como também na cadeia e no genocídio predomina o gênero masculino. E quase fui jogado em qualquer lugar com essa idade porque no abrigo só se podia ficar até os 15 e como eu não tinha família para me entregarem…

Ainda bem que me arrumaram, depois de muita guerra de bastidores, um lugar em um outro abrigo, que hoje me é a minha referência familiar, minha base…

Mas voltando a falar de meninos de instituições, de abrigo, esses meninos não têm família. Foram abandonados… ou a família morreu… ou aparece apenas para natal e ano novo… como para o homem do vídeo, que estava se queixando.

Tem outra parada que é foda nas instituições que é o lance das adoções. Uma expectativa frustrada… uma esperança de que um dia será você… mas ao mesmo tempo aquela sensação de que você nunca será escolhido. Você quer ser o escolhido, você quer ser alguém pra alguém. E quando você é escolhido mas é devolvido? Rola muito! Abandono em cima de abandono.

Há ainda as pessoas que têm suas carências pessoais e vão para os abrigos fazer “caridade” muito mais para se atender, para dizer pra si que é uma pessoa boa; Pra tirar foto e pagar de “cidadão de bem”, pra ficar com consciência tranquila… sei lá. O que eu sei é que fazem uma criança se apegar, ficam de lenga-lenga e, de repente, somem. Isso é pesado. Abandono em cima de abandono!

Outra parada onde entra pesado uma nuance do racismo, o colorismo: os meninos que são adotados. Vai ver os meninos que são mais adotados, mais abraçados, que recebem mais padrinhos para lhes dar presentes e tal… O preterimento tá longe de ser só essa parada que vocês falam de relacionamento. Tem diversas nuances.

A solidão ali nos abrigos e na rua está diretamente ligada à morte, loucura, prisão… diretamente! A das mulheres dos nossos meios, indiretamente. É aquela falta de homens no mercado, homens indisponibilizados. Homens que não estarão aí pra construir contigo uma família mas que antes mesmo de você pensar nisso já era família de alguém, né? Filho, pai, marido de alguém… Familiares de pessoas como eu, das pessoas que tiveram suas famílias destruídas e vão pras ruas e para abrigos. Muitas das quais acabam parando na cadeia, outro locus da solidão.

Foto reprodução da internet

Eu procuro me pronunciar pouco e não falar de forma séria sobre isso porque eu tento não abrir diálogo com esse passado, com as coisas que vi e vivi. Mas saibam que a maneira que vocês tratam o tema é branca, é desrespeitosa e acadêmica. Como branco, parece que só vale a realidade de vocês e a partir do que vocês viram. Só é dor se for dor pra vocês. Vocês, como brancos, querem se colocar como medida de todas as coisas e, vira e mexe, se passam, colocando a exceção acima da regra, vindo disputar sofrimento em umas paradas que nem tem cabimento.

Pergunto a vocês, nessa militância aí, quantas pessoas vocês conhecem que vieram da rua, que viveram na rua? Pois é!! Vocês que falam tanto de recorte, saibam que vocês são um recorte. Pois a galera que chega na universidade coisa e tal não representa nem 10% do nosso povo. Sobrepor essa vivência e essas dores ao todo é foda! Se liga!!

Precisamos expandir nossos horizontes e precisamos trazer essas pessoas, homens, pra falar. Porque a verdade é de quem conta (de quem tá podendo contar). Eu falo de uma realidade que vocês pouco ouviram alguém de lá falar. Eu falo, com certeza, por muitos que não puderam estar aqui pra falar, que nunca terão a oportunidade de sentar do seu lado e trocar uma ideia contigo. Só ver que eu fui um, dentre vários… pois, como já disse, de 15 anos pra trás… não veio ninguém. Porque não chegam. E é aquilo, se eles não chegam cá, a gente tem que ir lá. É o nosso dever! A gente tá indo pra academia… e de lá não sai. Esquecemos a margem de baixo e só pautamos nossas vidas e ações pela margem de cima. Tá errado!! Minha postura aqui é igual no colorismo: ou é pela margem, ou não vai ser. Ou a gente vai lá, ou vai geral pra pqp!!

Essa parada de geral só no próprio umbigo… não é comigo! Todo mundo quer compreensão mas ninguém quer compreender porra nenhuma.

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Maicol William

Written by

revistaokoto

Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade