Sobre esse tal “deboche”

Leop Duarte
Jun 4 · 10 min read

Dá pra contar quantas gracinhas com políticos — destros e canhotos — você se deparou online só nesse mês? Ou quantas piadinhas com chefe, professor(a), e outras figuras de autoridade você já ouviu na hora do “recreio”? E alguma anedota — tão constrangedora quanto hilária — de enterro? Conhece algum causo que dá pra rir hoje, mas no ao vivaço a vontade foi de sumir ou de correr pra ajudar? Difícil chegar a vida adulta sem ter ao menos presenciado nenhuma experiência dessas. Rir do que nos exige (compulsória) retidão e seriedade faz parte da vida. No Brasil, então, com “esse povo que ri, quando deve chorar”, às vezes só rindo pra não chorar — ou esmurrar — mesmo. Todavia, cada vez tá mais difícil ignorar como a mesma galera que ri dos memes do Bozo/Dilma reage exatamente igual ao lado “adversário” quando o deboche lhes bate a porta. Pique quinta série, quando vale gargalhar do coleguinha que tropeçou, mas se magoa todo(a) com quem riu com o nosso próprio tropeção.

Nina + James

“É tão triste ver pessoas negras interagindo dessa forma”

Sabe aquela disputa verbal que geralmente aparece em filme/seriado de preto estadunidense que geralmente começa com “sua mãe é tão…”? Então, o nome disso é the dozens. Essa “brincadeira” consiste numa troca de ofensas até que um dos (dois) participantes perca a capacidade de reação. Pergunta e resposta. Comentário e réplica. Bateu, levou! Há a teoria de que o nome date do período escravista cujo mercado vendia os africanos/negros nas piores condições físicas em dúzias. Nada muito certo, como a carta de Lynch, mas ainda assim aproveitável, como ilustrarei a seguir. Essa dinâmica atende por diversos nomes — como Ikocha Nkocha para os povos da Nigéria e Gana e Flyting na Inglaterra medieval –, entretanto talvez a mais conhecida por aqui seja o shade, que consiste nesse mesmo tipo de troca de insultos de forma mais truqueira que escrachada, como poderia se esperar das gay e das mana trans pretas e latinas que desenvolveram essa forma peculiar de ler os “defeitos” umas das outras.

Algo na mesma lógica do nosso “cinco minutinhos sem perder a amizade”, só que verbal — não que uma coisa impeça alguém de “cair na pilha” e chegar a vias de fato. Bate-rebates como esses já foram costume também em rodas de repente e de samba, nas batalhas de rap ou de sapateado entre outras tantas manifestações culturais tidas “populares” — e frequentemente de origem negra. Todas, disputas nas quais vence quem tiver o maior repertório/arsenal, porque, tal como os nossos craques do futebol, basquete, tênis, etc., não basta fazer (tecnicamente) bem, é preciso fazer com malemolência pra todo mundo ver que vamos além do básico. Retomando o caso dos shades, podemos perceber uma forma de manter a língua tão afiada quanto uma navalha na hora de se defender dos abusos os quais pessoas LGBT e não-brancas ainda estamos diariamente expostas, pois como as agressões mais recorrentes são as “gracinhas” verbais, ter uma resposta sempre à mão pode espantar covardes que não estão acostumados a ser retrucados.

#Aquenda: sempre que alguém desqualifica o deboche como forma de (re)ação às escrotices do mundo pode desconfiar de que se trata de alguém muito bem “respaldado” por alguma “civilizada” estrutura colonial — principalmente as instituições da educação tida “boa”. Isso porque sistemas de opressão precisam limitar as possibilidades de reação dos oprimidos para ter justificativas para o uso desigual de seus poderes. Ou seja, é nessas que “perdemos” a razão quando reagimos fisicamente a algum racista/LGBTfóbico que tenta nos humilhar com palavras; e também estamos “no erro” quando temos respostas mais cortantes que as deles. A forma mais… “adequada” segue sendo cruzar os braços e engolir o sapo para não darmos a satisfação de uma resposta “irracional” — ou alguém ainda conta com a “justiça” dos homens brancos héteros de classe média/alta? Parece até que a solução seja nos tornarmos seres estritamente intelectuais. Como se fosse possível reagir como robôs sem qualquer esboço de emoção e nos aproximarmos de recuperar nossa humanidade ao mesmo tempo. Como se nossos ancestrais não tivessem ido pro tronco o suficiente para gente ainda acreditar que dar a outra face, hoje, fará a chibata desistir de cantar. Basta sabermos nos comportar “direitinho”.

“Galera acha que tá debochando, mas tá é doente”

O deboche, na pior das hipóteses pode chegar a uma piada de extremo mau gosto, mas no melhor dos cenários pode ser também uma potente arma dos grupos subalternizados. Se revermos com mais atenção a figura clássica do bobo da corte das monarquias europeias perceberemos que somente essa figura tinha permissão de ridicularizar os ricos e poderosos de maneira notória e pública, pois, por estarem no lugar da não-razão, qualquer coisa dita por eles, ao ser tomada como verdade, seria visto como entrar em concordância com os devaneios de quem perdeu o compromisso com qualquer noção de realidade e lógica. Seria assumir a própria carapuça de bufão. A shakota, dessa forma, nos possibilita expressar o que cotidianamente convenções e hierarquias nos dificultam dizer. Como naquela fábula em que somente uma criança não “bem” (des)educada/adaptada/podada pelas normas sociais pôde dizer que o traje novo do rei não passava de uma farsa.

Sendo assim, não é mera coincidência que os grupos mais privilegiados/protegidos se sentem tão desconfortáveis diante de atos de tamanha insolência. Afinal, onde já se viu um pé rapado qualquer ter mais habilidade com a língua do colonizador que alguém com mestrado/pós-doutorado/o que valha? Pachorra demais, né não? Quem não fez por me-re-cer diplomação de universidade ou cargo confortável na casa grande não deveria nem emitir opinião “levianamente” por aí, que dirá demonstrar mais sagacidade com as palavras que pessoas de alto gabarito! Ou deveriam? Por que será que subalternos têm essa mania de contrariar as normas da “civilidade”/elegância de forma tão despudorada? É mesmo muita indelicadeza desses Zé Povim querer subverter as dinâmicas sociais através da língua que tão mal e parcamente dominam. Será pedir demais esperar que as pessoas postas à margem tenham o mesmo comprometimento com a ordem social que as mais beneficiadas pela mesma?

#Aquenda: pelos idos do ano de 1851, nos EUA, um médico identificou uma “doença” que muito apavorava os grandes latifundiários do país: a drapetomania. O diagnóstico previa uma perturbação de ordem mental que levava, inexplicavelmente, os escravizados a ideações e tentativas de fuga. Afinal, se até a Bíblia dizia que um “escravo” deveria ser submisso ao seu “senhor”, só mesmo algum tipo de insanidade da alma/psíquica poderia justificar uma audácia dessa grandeza. Apesar de muitos dos argumentos terem sido fundamentados no Velho Testamento, a patologia tinha um alto teor moderno, compatível com os critérios científicos da época. Um texto irônico do Luis Gama me faz suspeitar que essa “mania” chegou ao conhecimento das nossas elites letradas, mas é com certeza que digo que para estes mui “civilizados” senhores a razão da insubmissão dos seus cativos constituía um mistério por aqui também, visto a forma quase lúdica na qual muitos descreviam o que hoje conhecemos por “banzo”. No entanto, o que mais me incomoda nessa história não é o grupo dominante definir o que seria normal/saudável e o que seria doentio/abominável segundo seus próprios interesses, mas reparar no escárnio com a memória dos nossos ancestrais quando confundimos ser “bem” educado com ser dócil ou academiquês com seriedade. Depois de termos sido pintados, por tanto tempo, como selvagens/vulgares/degenerados, que sentido faz fazer sermos os(as) mais “polidos(as)” do baile pra não desagradar quem ocupa a casa grande? O que considero preocupante nesse tipo de fala é a pessoa discursar sobre a perversidade do racismo e cobrar que afrodescendentes arrotemos perfumarias. Daqui a pouco vai ter gente falando que não avançamos com o racismo porque tem gente debochando demais de quem vacila, e não porque a identidade branca foi construída precisamente para desumanizar os demais habitantes do planeta.

“Se ficar putin é pior”

Talvez o preço mais salgado pela nossa “assimilação” aos modos de pensar/agir/sentir do mundo brankkko seja aceitarmos os parâmetros europeus como os únicos verdadeiros e positivos possíveis. De fato é bastante compreensível querer adotar os valores “universais” do grupo opressor na esperança de que isso nos blinde de alguma forma dos tentáculos do racismo, mas nada justifica impor padrões de “bom” comportamento ao todo das pessoas negras. Se sabemos que nada além do próprio racismo justifica que pessoas brancas (pre)dominem nos espaços de prestígio e poder vigentes por serem mais “qualificados” — em termos profissionais, éticos, morais, estéticos ou o que for — não deveríamos falhar em perceber que o racismo significa exatamente que o que vale para pessoas brancas jamais funciona da mesma forma para pessoas negras. Levar a ferro e fogo cartilhas brancas não tem como ser visto, em 519 anos de história, como um ato de ingenuidade, mas de má fé — para não dizer oportunismo/omissão ou algo pior. Assim, não é à toa que sejam as pessoas negras que se camuflam atrás de “méritos” as que mais facilmente desqualifiquem formas “incivilizadas” de reagir ao racismo. Ou alguém verdadeiramente acredita que a mesma “civilização” que tanto saqueou, dizimou, escravizou e explorou tem como nos oferecer mecanismos de defesa para os problemas gerados e mantidos para sua própria glorificação?

Diante do profundo cinismo da sociedade branca — e embranquecida — com a questão do racismo, o deboche tem como ser o melhor (contra-)argumento, justamente porque quando sacamos que as “virtudes” eurodescendentes remontam ao menosprezo a tudo que não compartilhe de seu berço, desvelar o ridículo nessa suposta “superioridade” pode ser a única forma de nos fazer ouvir. Por essas, que costumam ser os mais acomodados pelo padrão de “qualidade” colonial os que mais demonstram repulsa às gambiarras críticas dos mais marginalizados. Por essas, que costumam ser os negrescos, os habituados com debates mais… “qualificados”, os primeiros a invalidarem formas de contestação menos formais e mais espontâneas. A ironia aqui fica por conta daqueles que se autodeclaram conscientes dos efeitos atrozes do racismo defendendo o debate político seguindo, à risca, a cartilha/etiqueta do colonizador. O deboche, fica por conta do bingo que pontuei agora com esse lote de atos falhos. Falar em romper com o colonialismo nos amparando em suas instituições e batendo continência a autores europeus faz tanto sentido quanto usar situações de racismo para ofertar serviço de consultoria às empresas racistas.

O silenciar dos rangidos da senzala não deveria ser novidade pra ninguém a essa altura do campeonato. Portanto, a quem interessa um tipo de debater no qual os que “vem de baixo” precisam (re)agir como robôs? Até imagino que possa ser muito chocante interagir, assim do nada e na reciprocidade, com quem vive o que só se conhece através de estáticas e citações. No entanto, a “crueza” de quem tá mais a fim de se comunicar com a pixta do que em bater cabeça pra Lattes tem que incomodar mesmo. E f*da-se! ;) Sei que teve muito investimento até aprender a falar “bonito”, mas supera, gacta! Se Trump e Bolsonaro não te fizeram entender que currículo e eloquência nunca foram critério, não se espante quando alguém tirar uma com a sua cara ao manifestar essa crença, ainda que inconscientemente. Agora, se tua autoestima tá tão boa a ponto de cismar que sozinho(a) numa torre de marfim, dependendo de aval/tutela/apadrinhamento brancos, tu vai conseguir Autonomia para TODAS as pessoas pretas… vai na fé! Acredita no teu potencial, abiguim. #SeIludeQuemQuer. Apenas sustente o B.O. de suas #Escolhas quando a parada azedar. Ninguém é obrigado(a) a comprar barulho por conta de contratos assinados por gente que não se faz presente entre a coletividade. Se a tua estratégia é só tu e você mesmo, não se espante quando o coletivo não te tratar com o “cuidado” e o “jeito” que julga me-re-cer só porque brancos adoram ouvir sua história de “superação”. Tá desonestaço ter tanta gente colhendo “benefício” por falar pela negritude sem nem lidar diretamente com a opinião de outras pessoas negras. Debochar é o mínimo que se pode fazer diante de quem “milita” contra a dominação racista se fazendo valer de méritos racistas. O mí-ni-mo! Se é pra falar pelos outros, saber escutar esses “outros” é mais que fundamental — independente do jeito no qual se expressem.

#Aquenda: no que se refere a militância, realmente me espanta como as pessoas, “estudadas” e tudo, não conseguem perceber que deboche só faz sentido quando a ordem estabelecida é subvertida e que não saibam a importância que tem conseguirmos rir até de nós mesmos. Achar alguma graça de quem já fomos no passado para nos tornarmos quem acreditamos ser necessário ser no futuro faz parte do processo. Só que a galera é capaz de protestar contra censura ao jornalismo da Globo segundos depois de falar pra algum(a) preto(a) em movimento que “o problema não é o que você diz, mas como você diz”. O que anda faltando não é jeito pra falar, mas responsabilidade com o que se diz. Quem realmente está acostumado(a) a critica — sem hierarquias — acaba adquirindo um certo gosto/familiaridade com o deboche. Quem faz da crítica prática e não mera teoria sabe que o improviso do deboche pode ensinar mais que mil textões porque a galera passa a ficar #Atenta pra ser alvo no futuro. Se sabemos que o problema é da sociedade, nos reconhecer em críticas sociais não deveria incomodar ninguém que, teoricamente, se propõe a fazer exatamente isso. Ou é sério que essa coisa de nos imaginar acima de críticas não te parece um tanto autoritário — pra não dizer excessivamente branco? A gente só critica o que sabemos que pode melhorar, por isso que meus textos nem se dirigem mais aos “incolores” — que tem todos os recursos para mudar, mas nunca moveram uma palha desinteressadamente. Dessa forma, se for pra sustentar esse caô de “tenho potencial suficiente pra implodir o sistema interna e individualmente” segura a cabeça pra coroa não cair, monamour. Se tu não tem dois papos, não tem porque raios d’água se incomodar quando alguém te chama na responsa soltando um reto. Afinal, quem toma cuidado com o que diz consegue antecipar o que pode ouvir de volta e já evita ter que ficar emendando soneto na era do print. Aquele ditado: se não tá disposto(a) a trocar, não desce do palanque. A responsabilidade por você só se garantir atrás de roteiro de mediação acadêmica não tem como ser da pixta. Só não vai achar ruim se alguém não levar a sério a sua teoria de como “vamos destruir o racismo/capitalismo/heterossexismo/etc.” quando você se sente “silenciado(a)” por deboche de internet. Se o teu conhecimento depende de anotação, PowerPoint e citação, prejuízo teu. Se tu quer cantar de galo por conta de um pedaço de papel autenticado, não venha achar ruim quando uma língua menos “lida”, porém com mais bala na agulha, facilmente escancarar as incoerências do teu discurso. No mais, o primeiro mandamento para quem não quer virar shakota é “te preservarás”.

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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