Um estereótipo pra chamar de seu…

Gleicy Souza
Sep 3, 2018 · 5 min read

Outro dia vazou um nude do ator Michael B. Jordan e as reações não fugiram muito do esperado. Gente muito animada para ver, inúmeros comentários desejosos e um sem fim de compartilhamentos.

Até aí, normal, não sou pseudo moralista e acredito que nudez não deveria ser um tabu, afinal todos temos um corpo. Mas na cultura que hoje estamos inseridos, a linha entre a admiração e a hipersexualização é muito tênue e a gente vive transpondo essa linha sem perceber.

Nesse episódio uns e umas admiraram e outros e outras hipersexualizaram, mesmo sem perceber, um corpo negro já tão estereotipado e animalizado nessa cultura anti negros.

"- Ah, ele é figura pública, já está exposto!"

Mas a reflexão é pelo macro, correto? Como quando se trata qualquer fenômeno social, certo?

E no macro, o que representa hipersexualizar um corpo preto? Qualquer corpo preto? O que representa reduzir o ser completo e holístico que somos a apenas o seu órgão sexual em um contexto onde já fomos (somos) vistos como animais reprodutores e objetos, no sentido inanimado do termo, de prazer ou descarga da branquitude?

Comentários sobre o tamanho do pênis do ator foram do espanto ao contentamento, passando pelo "poderia ser maior", reforçando outro esteriótipo, o do negro pauzudo, reprodutor, viril ao extremo.

Entre apontamentos à essa hipersexualização, feita e criticada por homens e mulheres, eu fiquei refletindo em como esteriótipo na subjetividade do outro é refresco... Porque "não vem hipersexualizar meu corpo", mas "Nossa, com um/uma desses (insira aqui um órgão sexual ou uma zona erógena recortados do individuo) eu pegava!". A gente ainda está fazendo com o outro o que pede para não fazerem conosco! E isso em vários sentidos e contextos.

E aqui não se trata de moralizar comportamentos e desejos, e sim em ver além das nossas exigências. Estamos dando o que estamos exigindo? Quais estereótipos estamos alimentando no outro que repudiamos em nós? Quais desses estereótipos contribuem para nossa animalização e como perceber se estamos propagando-os?

E é interessante dizer que essa propagação de alguns estereótipos também é auto imputada, com alegria muitas vezes.

Ainda vemos muitos homens negros ficarem felizes em ter seu pênis tratado como troféu desligado de seu todo, seja pelo tamanho ou desempenho, onde esses parâmetros em uma sociedade falocêntrica são fatores de disputa, de imposição de força, onde, falsamente, quanto maior melhor. Várias teorias versam sobre como o homem branco vê o homem negro como potencial ameaça de violência por uma suposta agressividade sexual exacerbada, mito esse imposto pela forma deturpada e moralizadora como a branquitude vê e vivencia sua própria sexualidade. Sua desconexão com o corpo projetou em nos uma sexualidade adoecida. E nós compramos essa projeção. Muitos homens negros, destituídos historicamente de poder social e simbólico, vêem no tamanho do seu sexo uma vantagem, simbólica e material, diante do homem branco, esquecendo porém que essa suposta vantagem o empurra ciclicamente à condição de agressor, violador, ameaça, uma condição animalizadora e animalizante.

O mesmo ocorre com a hipersexualização da mulher negra. Vista como boa de cama, quente, gostosa, bunda grande... Disposta e disponível ao prazer e/ou ao trabalho, de líbido incansável. Essa imagem também é vista como trunfo para nós, mulheres negras, que muitas vezes nem somos vistas como mulheres de fato. Invisíveis como alvos dos desejos "mais sublimes" e direcionadas, por diversos fatores que o racismo gerou - desde o genocídio e encarceramento de nossos pares, até o auto ódio que atinge nosso povo e nos afasta - a uma condição de isolamento afetivo, tendo como placebo para esta solidão a resposta rápida de ser um "corpo quente e gostoso", vendo esse título, também, como vantagem na disputa com a mulher branca, apontada como objetivo ideal de desejo.

Mais uma vez ressalto que a intenção não é discutir se determinado comportamento é ou não hipersexualizado, isso não cabe a ninguém pontuar, cada um sabe o que o motiva a experienciar seu corpo e sua sexualidade, desta ou daquela forma, ou talvez nem a própria pessoa saiba...

E entre os esteriótipos que repudiamos e os que abraçamos, quais são os que nos imputaram e quais o que realmente fazem parte de nós de alguma forma? Porque a castração que domou parte de nossa corporeidade, diminuindo nosso tom de voz, limitando nossos gestos efusivos, podando nossa gargalhada e direcionando nossa reação contra violências cotidianas, foi o que criou a preta barraqueira, escandalosa e disse que é errado ser assim, fazendo com que quase nenhuma preta queira ser reconhecida dessa forma. Afinal quem realmente tem medo da preta barraqueira e porquê? Ou do preto que se impõe, reage, não é dócil e nem servil?

ilustração Rafaela Nascimento

Nosso gingado, requebrado, nossa sensualidade e nossa forma natural de lidar com a sexualidade foram vistos sob a ótica do pecado cristão e transformados em sexualização e fetiche. E entre o excesso de pudor e castração e entre a hipersexualização, entre o comportamento educadamente ocidental e o extremo barulho, seguimos perdidos e nos perdendo.

E sigo também fazendo essa reflexão de como colocar meu corpo negro em um mundo que quer o fim desse corpo, e isso passa por me conhecer hoje e saber de onde eu vim. Saber que esse corpo, que não é apenas partes e sentidos isolados, mas um todo que busca e precisa da uma conexão com a ancestralidade, necessita entender qual nossa real essência.

E isso tem sido, e continuará sendo, até para meu próprio bem, incansavelmente repetido em minha fala: se conhecer! Se saber!

Saber, conhecer e entender da matéria preta da qual somos feitos para reconhecer e reencontrar essa real essência e a reconectar com nosso corpo.

Quando a gente sabe de onde veio, ninguém pode nos contar outra história. Nossos costumes, legados e tesouros serão nossos para sempre!

Quando a gente sabe de quem descendemos, ninguém pode transformar nossos deuses em demônios e nossa ancestralidade será preservada!

Quando a gente sabe quem é e do que nossos corpos são feitos e como eles funcionam, saberemos que nosso recato ou nossa sensualidade são o que são. Nossa naturalidade será mantida…

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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