Uma Escola de Capoeira e Educação em Dinâmica Racial

Maicol William
Feb 8, 2018 · 6 min read

Porque nossa intelectualidade, dentre outras coisas, seria bem mais efetiva trabalhada na sagacidade, na corporeidade, na conexão com a ancestralidade, que são a alma da capoeira. A militância negra precisa ser capoeira.

Esta é uma proposta de aulas de Capoeira Angola com a missão de servir ao povo negro e suas necessidades do cotidiano no que concerne a responder ao racismo nos mais diversos níveis em que ele se atira sobre a gente. Para tanto, a escola de capoeira se faz também uma espaço voltado à educação em dinâmica racial; e, assim, criamos um ambiente propício para o desenvolvimento das pessoas e da própria capoeira, com foco em potencializá-las (a capoeira e as pessoas), para que possam ter uma atuação cada vez mais consistente de combate ao racismo.

A meta é que cada um de nós aprimore sua condição de identificar o racismo e situações racistas para oferecer-lhes uma resposta precisa, segura e imediata. A meta é conferir aos integrantes dessa escola a condição de se antecipar às situações, junto com a condição de aplicar a resposta que se faça necessária, seja ela qual for, no nível em que se demandar. Por isso também, para uma atuação tão abrangente, no empenhamos em nos desenvolver de forma ampla. Prezamos pelo desenvolvimento de uma corporeidade aliada à intelectualidade e que seja atenciosa à necessidade de se trabalhar a espiritualidade.

Em nossas atividades, integramos à capoeira — o carro chefe — discussões sobre temas da militância negra e sobre diversas situações de racismo; mais o estudo da mitologia iorubá, refletindo sobre os ensinamentos contidos nos itáns, com o propósito de desenvolver e consolidar uma filosofia de vida, um entendimento do mundo, cuja base sejam referenciais inteiramente próprios, negros. É por uma corporeidade preta; por uma intelectualidade preta; por uma espiritualidade preta. Tudo junto. Tudo entrecruzado, se perpassando. Afinal, é nossa base existencial entender que estamos todos — e com tudo — conectados. Corpo, mente e espírito, para nós, não se separam. E nós não vivemos à revelia do que nos circunda. Somos conexão. Ubunto define nossa existência.

Os Requisitos

Os dois principais requisitos — além do óbvio que é ser negro(a) — são: fazer parte de um coletivo negro e ser uma pessoa de compromisso. Quanto a ser parte de um coletivo negro, ressalto que pode até mesmo ser um grupo virtual de discussão com recorte racial. Podemos até indicar alguns.

A razão desse requisito é que nós somos conexão. Isso nos é um princípio. Estarmos conectados com os nossos e com nossos temas é preciso. É fundamental. Como também o é o segundo requisito: o compromisso. Sem ele, não é possível fazer nada. Entende?

Nós queremos fazer muita coisa por nós, pelo nosso povo. É nosso compromisso. Mas não adianta querer se não tem compromisso ou tempo para fazer. Toda intenção que não possa ser comprovada pela ação é (auto) enganação/ilusão.

Um dos principais gargalos à nossa emancipação é justamente isso, a falta de compromisso, a falta de axé na palavra, que carece de poder de realização. “Axé na palavra”, para nós, é o maior dos princípios. Portanto, para chegar, tem que ter o compromisso de se desenvolver e se envolver quanto a isso.

Conexão e compromisso nos são grandes fundamentos. Defendemos como elementos essenciais à cultura emancipatório que devemos estabelecer entre nós. Essa é, para a gente, a energia que vai movimentar o nós por nós, por meio da qual o Ubuntu há de se realizar.

A Razão de Ser da Proposta

Há uma provocação, direcionada ao movimento negro, à intelectualidade negra, que se faz sempre necessária: ao desenvolvimento intelectual, vocês atrelam o desenvolvimento do corpo? Ou melhor, vocês prepararam o próprio corpo para dar vazão à intelectualidade de vocês? Então, quem não tem o próprio corpo para materializar suas vontades no mundo, fatalmente vai precisar fazer uso do corpo do outro, certo? Aí, vem a contradição, pois, não é o próprio racismo um sistema no qual uns realizam suas vontades por meio do corpo de outros?

Essa é a grande base do racismo, substanciada no cartesianismo, que nos é uma maldição. Essa desconexão de mente e corpo não é nossa e não nos serve. Com isso, muitas das nossas ideias não têm corpo, não ganham materialidade. Ficam só na vontade.

Outra coisa, o cartesianismo pressupõe a primazia da mente sobre o corpo. O que é um baita engodo. Toda ideia nasce de um corpo, a partir de suas experiências, para servi-lo. A essa altura do campeonato, todos já deveriam estar cientes e contra essa teoria de uma ideia que precede/transcende o corpo, de um pensamento universal. Sempre chegam com um papo de que “ah mas sem cabeça, o corpo…”. Peraí, alguma ideia se materializa sem corpo? O corpo é o princípio, é o grande canal entre o imaterial e o material. Tudo começa nele e termina nele. A começar pela vida.

E a mente de forma alguma está desconectada do corpo. Quem cuida do primeiro e descuida do outro, está privilegiando parte em detrimento do todo.

O racismo tem sua marca a partir do corpo, incide sobre ele. Como falar de resistir ao racismo se não começamos pelo desenvolvimento de saberes que protejam a integridade desse corpo? Defesa pessoal é saber fundamental. Se vacilar com o corpo, se perde o todo. Temos que saber protegê-lo. “Nosso corpo, nosso templo”. E a capoeira é a coisa mais perfeita para isso. Ela nasceu disso; nasceu para isso. Ela trata do embate direto e do indireto; como nenhuma outra luta, investe no combate indireto, na manha. Ela é a manha de safar o corpo. Ela te dá sagacidade para se livrar da parada antes mesmo que chegue a você. E, se chegar também, fica ruim para quem chega. Como disse o grande Mestre Pastinha: ai daquele que corre atrás do capoeira.

É bem verdade que a capoeira que está aí não é bem aqueeeeela capoeira. A apropriação cultural deturpou. Mas a gente também ficou irreconhecível com o tempo e ação branca. Estamos desconectados igual da nossa história e das nossas glórias. Não fica evidente, para quem nos olha agora, que descendemos de reis e rainhas. Bem como também não fica evidente, para quem olha a capoeira atualmente, como ela nos foi das manifestações mais refinadas e ameaçadoras na luta contra o racismo.

Já se articulou politicamente em uma guarda pela defesa da emancipação negra, já defendeu as manifestações negras e já foi o braço forte dos terreiros… Porém, foi imposto a ela — como a nós — um afastamento, uma desconexão, em relação à sua potência, à sua glória. Mas, junto, a gente chega lá. A gente retoma. Estamos aqui para isso. A gente se fortalecendo, fortalece ela. Ela se fortalecendo, nos fortalece. Somos juntos. Tamo junto! Vamos juntos! É Ubuntu, sou porque somos. Quanto mais forte um, mais forte o outro. Somos conexão. Somos um todo. Definitivamente, Ubuntu nos define e define nossa caminhada!

Por falar em conexão, nos é imprescindível a integração e o desenvolvimento em conjunto de corpo, mente e espírito, conforme já dito acima. Pois, na prática, isso significa que desenvolveremos condições de rechaçar quem venha nos atacar no papo ou pelas vias de fato. Temos que ter habilidade para fazer com que, pela primeira via, lhes fique ruim e, pela segunda, ainda pior. E, de forma complementar, cuidar da espiritualidade é fundamental. Sem a alma legal, o corpo definha. Saco vazio não pára em pé. Se entender nesse mundo, entender nossa conexão, se achar num propósito, saber o porquê das coisas a fazer… é primordial. Uma visão de mundo e uma filosofia arraigadas em nossos próprios valores é tudo que a gente mais precisa.

Por fim, ainda em integração, em conexão, esse é um espaço que promove encontros regulares entre pessoas com o mesmo propósito. É, portanto, também, aquele espaço para dar algo de real àquelas afinidades de ideias que só se encontram no mundo virtual. Esse é um espaço onde uma coletividade negra, que compartilha de ideias e propósitos que se reforçam, tem a oportunidade de se encontrar e trocar regularmente fora do mundo virtual. Quantos mais reais fizermos nossas relações e interações, mais próximos de alterar a realidade em si ficamos, de fazermos nossas reflexões virarem realidade. E é para isso que aqui estamos. Para fazer de tudo aquilo que falamos e aspiramos algo bem real.

Axé!!!

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Espaço de divulgação para os textos e reflexões do Kilûmbu Òkòtó

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