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NOTA

O QUE É O TRANSTORNO DISSOCIATIVO DE IDENTIDADE?

O TDI é bem conhecido pelas suas representações cinematográficas, mas nem sempre mostra a realidade de quem vive com a doença.

Por Guilherme Matos

Editado por Arthur Almeida e Eduarda Motta

O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) é comum em Hollywood e frequente em filmes de suspense e terror. Os personagens que sofrem com o distúrbio e seus sintomas são exibidos nas telas de forma irreais e provocam, no imaginário popular, uma visão distorcida da realidade.

Psicose (1960), marco do cinema dirigido por Alfred Hitchcock, apresenta Norman Bates, personagem que sofre com o distúrbio e comete assassinatos quando é controlado pela segunda personalidade.

Eu, eu mesmo e Irene (2000), estrelado por Jim Carrey, retrata o transtorno de forma cômica. A segunda personalidade surge quando Charlie, personagem principal, não consegue mais tolerar a forma que é tratado na cidade e passa a reagir.

Em Clube da Luta (1999), Tyler Durden, segunda personalidade, contracena com a vítima do distúrbio e a move por ações que alteram a ordem mundial, tudo isso sem que ela perceba que está sendo controlada e sem se lembrar de nada.

Na realidade, o TDI é bem diferente do representado nos blockbusters. Mas isso não quer dizer que a doença não seja assustadora e não traga problemas para os portadores como nos filmes.

Quais são as verdadeiras causas desse distúrbio? Quais os sintomas e as reais consequências para quem é afetado?

SINTOMAS

O Transtorno de Identidade Dissociativa, antigamente denominado Transtorno de Múltiplas Personalidades, é raro. De acordo com o Journal of Psychiatric Research, em um estudo realizado com 658 participantes, houve uma prevalência de apenas 1,5%.

Os portadores apresentam duas ou mais identidades e têm lapsos em suas memórias sobre eventos cotidianos, informações pessoais e eventos traumáticos. Também podem coexistir com outras doenças, como a depressão e a ansiedade.

Existem duas formas em que a doença se manifesta: a forma possessiva e a forma não possessiva. Na primeira, as identidades surgem como agentes externos assumindo o controle da pessoa. O indivíduo conversa e age de forma diferente e deixa óbvio para outras pessoas que está sob controle de outra personalidade.

Em algumas culturas ou religiões, essa “possessão” é considerada normal ou um dom. Mas ela pode surgir em horas e locais inapropriados para a situação social ou cultural, provocando angústia ao portador.

Na forma não possessiva, ela é menos aparente a outras pessoas. O paciente sente alterações súbitas no senso de si próprio e relata sentir-se como um observador de seus discursos e ações.

Para diagnosticar a doença são necessárias entrevistas psiquiátricas completas e questionários especiais. A hipnose e o uso de sedativos podem auxiliar na identificação do distúrbio.

Muitas vezes, os sintomas podem se confundir com o de outros transtornos de saúde mental, bem como de outros problemas médicos no geral.

Por conta da ansiedade e depressão, que, muitas vezes, acompanha o paciente com TDI, o abuso de substâncias, a automutilação e o comportamento suicida também se fazem presentes.

É comum que os portadores tentem esconder seus sintomas e os efeitos provocados por eles.

CAUSAS

O TDI surge a partir de casos de estresse extremo. Acontecimentos dolorosos que abalam o emocional e o psicológico do indivíduo podem provocar o seu desenvolvimento. Isso, principalmente, em fases mais vulneráveis, como a infância.

O transtorno age para proteger a pessoa das suas próprias memórias e evitar que elas emerjam e causem a dor extrema que as traumatizou.

A maior parte dos pacientes que adquiriram o transtorno sofreram graves abusos físicos, sexuais ou emocionais durante a infância. Outros, passaram por perdas dolorosas no início da vida, um problema grave de saúde ou qualquer outro evento excessivamente estressante.

No decorrer do desenvolvimento, as crianças precisam integrar as experiências em uma única identidade pessoal e complexa. Os abusos criam uma dissociação que impede que a integração ocorra.

TRUDDI CHASE

Nos anos 1990, a apresentadora Oprah Winfrey recebeu em seu programa Truddi Chase, uma mulher que sofria de TDI e possuía 92 personalidades distintas. Depois da aparição no programa, o caso se tornou um dos mais famosos.

No livro “When Rabbit Howls, Truddi conta sobre sua jornada desde os abusos até sua recuperação. Quando começou a buscar terapia, a mulher não tinha noção de que dentro de si conviviam tantas personalidades.

Apenas com tratamento psicoterápico que Truddi conseguiu recuperar memórias traumáticas de sua infância. Os traumas eram divididos entre as personalidades e a autora recordava-se somente de algumas parcelas.

A farmacoterapia pode auxiliar no tratamento das pessoas, aliviando os sintomas de doenças concomitantes, mas os medicamentos não têm nenhum efeito direto sobre o transtorno.

Porém, com o acompanhamento terapêutico, é possível que os pacientes consigam conviver harmoniosamente com as outras personalidades, mesmo que a integração não seja sempre atingida.

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