CÂMARA ESCURA

OS LIMITES DO CINEMA MAINSTREAM

Nós todos queremos ver Homem-Aranha, mas o que mais estamos assistindo?

Revista Torta
Dec 17, 2021 · 6 min read

Por Ingrid Felix

Editado por Arthur Almeida e Eduarda Motta

Imagem de divulgação do filme Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), dirigido por Jon Watts. || Foto: Reprodução/Marvel

Com a popularização das plataformas de streaming e o fechamento de diversos cinemas de rua, as críticas sobre o domínio de conteúdos mainstream nos cinemas de shopping ganharam força. Na última quarta-feira (15), quando fui assistir Homem-Aranha: Sem Volta para Casa na pré-estreia (com direito a combo de pipoca e copo promocional), percebi que havia pelo menos cinco salas reservadas para o longa da Marvel, o que me fez pensar, e os outros filmes?

Eu que acompanho os lançamentos, especialmente em época de premiação, fiquei pensando em alguns nomes interessantes que poderiam estar em cartaz como Marighella (2019), A Crônica Francesa (2021) ou Deserto Particular (2021), por exemplo.

Minha surpresa maior foi perceber que fazia uma autocrítica naquele momento: não vi nenhum dos filmes citados ainda porque inconscientemente estava esperando que entrassem em uma plataforma de streaming para ver.

Não percebemos o movimento silencioso e gradual do avanço dos filmes mainstream nos cinemas de grande alcance e, com isso, também não percebemos que os filmes considerados “cults” foram realocados para sites e aplicativos pagos, bancos exclusivos de material cinematográfico.

O acesso a essas novas vias de distribuição on demand é limitado a apenas uma parte da população e aqueles que não podem pagar por esse serviço, frequentam os cinemas de shopping que tem cinco salas apresentando Homem-Aranha, dublado, legendado e em 3D.

Mas uma coisa precisa ser dita: não acredito que nenhum filme é mais válido que outro, e diferente das afirmações de Scorsese, prefiro dizer que filmes de heróis são produzidos para um público diferente, aquele que prefere ver combates frenéticos filmados em plano holandês, ou cenas emotivas alternadas com comédias exageradas que nos cativam e melhoram o humor de qualquer um.

Outras declarações parecidas com a do diretor foram realizadas por atores como Timothee Chalamet que afirmou ter sido aconselhado a não fazer filmes baseados em Histórias em Quadrinhos (HQs), ele disse:

Então, após sair de uma belíssima experiência com o ‘miranha’, fiquei pensando em como aqueles mesmos espectadores apaixonados reagiriam a Fallen Angels (1995), Cinema Paradiso (1988) ou Parasita (2019).

Essa realidade parece distante, no entanto, já que nessa mesma semana, o cinema preferiu reprisar Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) pela segunda vez desde o início da pandemia.

Imagem de divulgação do filme Fallen Angels (1995), dirigido por Wong Kar-Wai. || Foto: Reprodução/Mubi

Diante desse contexto, é possível observar duas movimentações distintas. Na primeira delas, as produtoras de filmes independentes ou de menor alcance estão inserindo os seus filmes em plataformas de streaming (sejam elas mais famosas, como a Netflix e a Amazon Prime, ou menos conhecidas, como a Mubi).

Já na outra via, os filmes mainstream, com suas produtoras gigantes (tal como a Disney), começaram a mudar a apresentação de seus conteúdos, para, assim, também agradar aos críticos.

Nos filmes e séries de super heróis da Marvel, por exemplo, dilemas morais, emocionais, violência mais realista e roteiros com menos incrementos mirabolantes se tornaram comuns. Não só os figurinos e direção de arte chamam a atenção de quem vê uma cena de Wandavision (2021), como a profundidade psicológica dos personagens impressiona e conquista, assim como a complexidade narrativa de Loki (2021) é imprevisível e pega qualquer um desprevenido.

Os filmes menos comerciais, por sua vez, sempre conquistam seu lugar no pódio das premiações, o que fez com que a base de crítica profissional se tornasse o novo controle de qualidade das obras, podendo tanto impulsionar sua divulgação, quanto arruinar completamente.

Em ambos os casos, o espectador tornou-se mais atuante na construção dos roteiros, uma vez que muitas vezes o famigerado “fanservice” ou a opinião pública de especialistas definem o rumo que determinada história toma dentro de um longa audiovisual.

Os números de divulgação e lucro passaram a ter mais importância do que a arte em si, o que não incomoda aquele que assiste, mas que perturba a mente daquele que cria, já que esse tem a sua criatividade castrada.

Essa separação evidente de tipos de filmes e locais onde estão hospedados é apenas uma manifestação da obra na sua era da reprodutibilidade técnica, na qual o objeto artístico perde sua unicidade, singularidade e autenticidade, para servir apenas aos propósitos do capital. O importante é vender o máximo de bilheteria e faturar em cima dessa distribuição de arte.

É claro que inseridos em uma sociedade capitalista, caímos perfeitamente nessa armadilha armada, o que eu pessoalmente fiz ao comprar a pipoca inflacionada da bomboniere do cinema apenas para ganhar um copinho decorado.

Somos conquistados por infinitas possibilidades de prazeres momentâneos que o mercado nos proporciona e por isso alimentamos cada vez mais o fim progressivo de cinemas tradicionais que exibem filmes menos conhecidos, por exemplo.

O dano parece mais pesado quando percebemos que muitas vezes valorizamos uma super-produção estadunidense e rebaixamos longas brasileiros nessa lógica do mercado, o que faz com que muitos deles continuem desconhecidos pela maior parte da massa populacional que acaba propagando a maior mentira do meio cinematográfico: “filme brasileiro é ruim”.

Dessa forma, se por um lado temos um avanço na diversidade e na complexidade de algumas produções mainstream, por outro lado enterramos mais filmes ótimos e complexos que não apelam para ganchos apelativos e que podem não ser apreciados por todos, como toda manifestação artística deve ser.

Quando penso sobre, me vejo em uma encruzilhada, porque amo esses dois mundos, mas não vejo eles se conectarem, tampouco se conversam e interagem, sendo partes de universos paralelos.

No entanto, sinto que são apenas produções criadas para serem assistidas e apreciadas em momentos diferentes ou, como diz meu irmão, “filmes para não pensar muito” e “películas criadas para expandir a capacidade mental”. Ele está muito certo sobre isso.

De qualquer forma, todos aqueles que apreciam o cinema deveriam ser capazes de aproveitar qualquer gênero de filme, seja ele nacional ou não. Porém, isso não é possível devido ao monopólio de streaming e ao trágico fim de cinemas de rua, praticamente extintos, que lutam para se manter, como ocorre no Cine Belas Artes, no coração de São Paulo.

Sinto que os “templos sagrados” do cinema estão sumindo do Brasil e, com isso, o direito de aproveitar a experiência única de se contemplar a tela infinita, a sinfonia de sons e as cadeiras mágicas. Não consigo pensar em uma solução para esse fatídico fim, isso é, para além de estar presente nesses refúgios sempre que possível.

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