NOTA

POR QUE GOSTAMOS TANTO DE FILMES SOBRE CRIMES BRUTAIS?

A violência, que desperta curiosidade, e o cinema, que seduz, formam o espetáculo perfeito para a indústria cultural.

Revista Torta
Dec 15, 2021 · 4 min read

Por Giullia Colombo

Editado por Arthur Almeida e Lorrana Marino

Em agosto de 2021, a Revista Torta publicou uma matéria analisando como, se apropriando do gênero true crime, Hollywood criou o clichê dos cemitérios indígenas mal assombrados || Foto: Reprodução/Amazon Prime

O gênero cinematográfico true crime sempre fez muito sucesso por despertar interesse exponencial do público. Os filmes que se encaixam na categoria são aqueles que se propõem a contar histórias baseadas parcial ou totalmente em fatos de crimes reais.

No Brasil, o estilo vem ganhando espaço na cena cinematográfica nacional. Inclusive, recentemente, duas produções despertaram o interesse do público:

“O Caso Evandro”, que despontou como podcast e virou documentário; e a dupla de filmes que narram o crime de Suzane von Richthofen por duas perspectivas diferentes em “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou os meus Pais”.

Na produção internacional, especialmente em território norte-americano, o gênero tem uma cinematografia mais extensa, com filmes como “O Desaparecimento de Madeleine McCan” e “Ted Bundy — A Irresistível Face do Mal”, ambos de 2019 e da Netflix.

Apesar dos sucessos recentes e do foco do gênero na indústria cinematográfica, histórias de crimes são produtos culturais que sempre estiveram presentes nas narrativas da humanidade. Desde as tragédias gregas e as disputas registradas na Bíblia Sagrada, a violência é uma constante.

Contudo, com a popularização do cinema, da televisão e, posteriormente, da internet, as narrativas de violência, sobretudo as baseadas em crimes reais, ganharam caráter de espetáculo por usarem a linguagem visual para contar suas histórias.

Nesse sentido, é válido questionar: por que crimes têm tanto potencial para entreter e, logo, virar produtos culturais, como filmes, livros, documentários e séries?

Espetáculo por si só

O Cinema, assim como a Literatura e as Ciências em geral, é uma maneira de ter acesso ao mundo e, portanto, obter conhecimento por meio da experiência sensível.

Quando nos sentamos em uma poltrona de cinema, nos propomos a passar os próximos minutos imersos em uma realidade, na tentativa de compreender os aspectos do mundo apresentados naquela determinada produção.

No artigo “A linguagem espetacular da mídia sobre adolescentes em vulnerabilidade social: o caso do jornal paraense O Liberal”, os autores contrapõem que o cinema é uma forma de comunicação que trabalha com efeitos de sentido que visam atrair, entreter e seduzir — o que eles nomeiam como “a caracterização do espetáculo”.

Somado a isso, a violência possui o seu próprio valor de sedução, uma vez que desperta espanto (e, talvez, medo). Esse sentimento suscita o ímpeto para a curiosidade e é capaz de transformar os atos brutais em um espetáculo por si só.

Assim, segundo os autores, quando o cinema une imagens de violência a uma narrativa peculiar, ele cria uma estética que produz efeitos de sentido capazes de despertar o interesse e a curiosidade do público, convencendo multidões a ir aos cinemas, seduzidas pela curiosidade.

Vida de interesse público

Mas, se por um lado há aqueles que acreditam que o sucesso de filmes do gênero true crime se deve à curiosidade do ser humano sobre aquilo que é excepcional, outros a criticam. Destacando a espetacularização da violência, outros defendem que essa é também uma forma de banalização da vida.

Quando foi divulgado, em fevereiro, o filme do caso de Suzane von Richthofen gerou polêmicas do tipo. No Twitter, o assunto chegou a estrelar entre os assuntos mais comentados do dia, com publicações de indignação por um crime violento ganhar tamanho prestígio e até questionamentos sobre o envolvimento dos condenados na produção e na bilheteria.

Na época, todo o caso, desde a investigação até o julgamento, foi ostensivamente coberto pela mídia — o que, por si só, já fabricou uma narrativa e “espetacularizou” o caso.

Devido à grande repercussão que o crime teve, a vida de Suzane acabou tornando-se matéria de interesse do público. Então, sempre que um fato novo surge, o acontecimento vira pauta nos veículos de informação e a notícia reverbera.

Notícia de novembro de 2021 que acompanha as movimentações de Suzane. || Foto: Reprodução/G1

Compreende-se, então, que quando crimes possuem ampla cobertura pela mídia e/ou se tornam produções cinematográficas, os personagens da história acabam sendo “pessoalizados”, ou seja, se tornam conhecidos pelo público e objeto de interesse do mesmo.

Desse modo, as indústrias da informação e da cultura, que obedecem a lógicas de mercado, não vão deixar de entregar ao seu público consumidor o que ele quer ler, ver e acompanhar.

Assim, o cinema é um elemento que contribui para perpetuar os crimes no imaginário das massas e essa, por sua vez, alimenta a indústria cultural responsável pelas produções de true crime.

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