AOS QUE NÃO LERAM

QUANDO UMA GRANDE OBRA PERTENCE A UM AUTOR QUE DESPREZO

O que faremos com os autores (e algumas autoras) que não merecem o nosso apreço?

Revista Torta
Jan 7 · 4 min read

Por Gabriel Fonseca

Editado por Elisa Romera e João Vitor Custódio

As histórias do pequeno bruxo que deram fama à J. K. Rowling já venderam mais de 450 milhões de exemplares em mais de 79 idiomas | Foto: Reprodução/Lefteris Pitarakis/AP

Confesso que já assisti a cinco filmes e meio do diretor de Cinema estadunidense Woody Allen. Apesar do número insignificante em relação à extensão da obra, é o suficiente para dizer que eu me interessei. Gostei da metade, para ser claro. Depois aceitei um empréstimo de Fora de órbita, uma coletânea de crônicas “humorísticas” do cara, e não passei do terceiro título.

Demorou alguns dias para lembrar-me de que Woody estava sendo boicotado pelo público por causa de acusações de abuso sexual — contra sua enteada desde que ela tinha 13 anos.

A minha primeira reação foi: “o que pensarão de mim com este livro?”; a segunda, “o que devo fazer com ele? Não quero ler, mas deveria?”. Guardei as perguntas até escaparem novamente, quando começaram a promover o reencontro do elenco de Harry Potter, que reunirá os atores da franquia de cinema, e deixará a sua grande autora de fora.

A essa altura Joanne Rowling, conhecida como J. K. Rowling, não foi mencionada no especial da HBO Max e está na cara que o motivo é a sua transfobia. Depois de publicar o livro Troubled Blood, com um personagem odioso que engana mulheres ao se vestir como uma, a autora foi questionada sobre tal decisão e passou por um cancelamento.

Ela se entregou só depois da repercussão negativa, publicando tuítes sobre não aceitar a existência de transgêneros e, mais recentemente, tratando o assunto como uma inversão de valores.

O não comparecimento dela no especial de 20 anos significa um real boicote? Dá para acreditar que a indústria está protegendo o seu ganha pão, não se aproximando de uma figura marcada negativamente; ou que está pensando em seus fãs, cortando o vínculo da comunidade nascida nos livros e filmes com sua mãe intolerante.

E quanto a nós? Devemos assumir uma postura prática e dizer “é um imbecil? Não lerei!”? Se a obra contém os desvios mais absurdos de seu autor, fica fácil responder. A coisa se complica quando é o seu livro favorito ou quando a notícia vem depois de você ter se conectado com aquilo.

Machado de Assis espetou suas obras com ciúmes sem deixar um rastro de desconfiança da sua amada Carolina. Pelo contrário, o que se tem de menção a ela é cheio de afeto. Aonde quero chegar com isso? Estou dizendo que por mais que um romance carregue a essência de seu autor, não corresponde às suas opiniões o tempo todo.

Recusar-se pagar pelos autores sujos é mais fácil. Eu não gasto o meu dinheiro comprando livros do Woody Allen, além de desinteressantes, despertam minha aversão moral. Mas e se o livro vier de graça? Pirateado, um PDF de busca razoavelmente fácil… Aí posso ler e me sentir menos culpado? Ou a maneira certa de lidar com isso é distinguir os dois? Autor e criação.

Gosto de tudo o que você produz, mas considero-lhe o diabo!

Entramos automaticamente na discussão sobre a obra pertencer ou não ao seu autor, logo depois de publicada. Posso dizer que sim em casos como o de Stephen King. Porque não dizemos “estou lendo Misery”, dizemos “Stephen King”! Também posso dizer que sim, se considerar a particularidade de cada leitura, cada impressão deixada no indivíduo. A minha experiência é diferente da sua, certo?

Por mais decepcionado que um leitor possa estar com JK, ainda tem o direito de se emocionar com A Câmara Secreta, não porque os mistérios surpreendem-lhe , mas porque reservou um sentimento específico para cada trecho, descoberta e reviravolta. Como quando pedimos um prato conhecido e já antecipamos o gosto e a textura.

Reconhecer a própria intenção não é justo apenas com aqueles que leem para recordar. O garoto que está folheando a Pedra Filosofal pela primeira vez não precisa ter algo em comum com a autora. Provavelmente se identifica com os personagens: o bruxinho órfão, professores paternais, amigos fiéis, a inocência e o crescimento.

O que seria capaz de invalidar um best seller mundial? Enquanto algumas pessoas se recusariam a ler Harry Potter por um impasse moral, outras se sentiriam representadas pelos preconceitos de uma escritora. No fim, sobraria o estigma.

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