A transformação do Mundo 4.0

Quarta Revolução intensifica as transformações digitais e traz rupturas importantes no mundo social e biológico

Rico Machado | Insitituto Humanitas Unisinos — IHU

A rápida, profunda e dispersa transformação a que diversas dimensões da vida estão submetidas na contemporaneidade nos coloca no limiar de uma era nova, em que as fronteiras são cada vez mais invisíveis. Estar atento ao tempo não é tarefa simples, sobretudo quando estamos à beira de mergulharmos por completo na transformação de toda a humanidade.

A dobra do mundo em sua versão 4.0 ocorre a despeito da tecnofilia otimista ou da tecnofobia pessimista de quem ama ou odeia as transformações correntes. Dois importantes livros discutem o tema, A quarta revolução industrial (2016)de Klaus Schwab, mais voltado aos cenários das transformações atuais; e Homo Deus: uma breve história do amanhã(2016) de Yuval Noah Harari, dedicado a pensar os impactos dessas transformações. Há outros, sem dúvida, mas estas obras ganharam versões em diversos idiomas, seja por suas capacidades ilustrativas ou argumentativas.

Se não acreditam em nós, escutem dois especialistas que há muito tempo estudam o novo paradigma enfrentado pela sociedade. O primeiro diz: “Seria presunçoso tentar descrever com precisão a próxima era no mundo digital. Mas é razoável concluir que a internet que conhecemos há quase três décadas está em mutação, e que a próxima vai mudar o mundo mais do que sua irmã mais velha” — Vincent Mosco, em artigo publicado nas Notícias do Dia do IHU.

Apresentamos, portanto, a Revolução 4.0 a partir da divisão proposta por Schwab que classifica os impulsionadores da transformação em três eixos: Categoria Física, Categoria Digital e Categoria Biológica.


Revolução 4.0 — Categoria Física

No que diz respeito às transformações da categoria física na Revolução 4.0, os impactos no mundo do trabalho são ainda sem precedentes e cujas projeções merecem ser melhor investigadas. Há quatro impulsionadores físicos desta transformação: veículos autônomos, impressão 3D, robótica avançada e novos materiais.


“Alguém pode dizer: ‘Mas o que esse padre vem nos dizer? Vá para a paróquia?!’ Não, o mundo do trabalho é o mundo do povo de Deus” — Papa Francisco

Veículos Autônomos

Táxis do Google sem motorista começam a prestar serviço no Arizona
A Waymo, empresa de veículos sem motorista do grupo Alphabet Inc., ao qual também pertence a Google, realizou nesta terça-feira em Phoenix (Arizona, EUA) o seu primeiro teste aberto ao público de veículos autônomos. A empresa anunciou que possui 100 vans Chrysler Pacifica e que acaba de adquirir mais 500 para atender à demanda estimada — Leia na íntegra.

Conheça também a reportagem Tesla. Carro se dirige sozinho.

Impressão 3D

Embora a impressão 3D não seja algo totalmente novo, as transformações recentes a colocaram em outro patamar e estão cada vez mais próximas de se tornarem populares. Se é fácil imaginar que um objeto de plástico ou de outra resina possa ser construído lentamente por uma impressora 3D até chegar ao seu formato final, imagine o que significaria isso em termos de revolução alimentar. Isso mesmo, o seu sanduíche do café da manhã não seria feito na torradeira, mas impresso contendo, exatamente, as substâncias (vitaminas, proteínas, gorduras) necessárias para a primeira dieta do dia.

Futuros alimentares
Alimentos 3D: o restaurante Food Ink é o primeiro do mundo a ter um cardápio impresso em 3D. O exército norte-americano pretende usar as impressoras 3D para customizar o alimento para cada soldado.
A NASA está explorando a impressão 3D de comida no espaço. A tecnologia poderia até mesmo acabar com a fome em todo o mundo.
A fabricante de chocolates Hershey já oferece produtos impressos e permite os consumidores fazerem sua própria impressão — Leia na íntegra.

Robótica Avançada

Se a automação na indústria também não é algo novo, afinal esse processo vem ocorrendo desde a Segunda Revolução Industrial, a conexão entre a automação e as informações armazenadas nos bancos de dados digitais permitiram uma evolução muito consistente da Inteligência Artificial nas últimas décadas. Nesse sentido, os robôs são capazes, por exemplo, não somente de interpretar a fala humana, mas também conseguem apresentar respostas lógicas a perguntas.

“No século XVIII, Julien Offray de La Mettrie questiona a distinção cartesiana entre corpo e alma, e faz a seguinte pergunta: por que não imaginar que a alma seja produto da matéria? Ele abre, assim, o caminho para a inteligência artificial como a compreendemos hoje, numa concepção materialista e não mais espiritualista. Os roboticistas já não procuram mais colocar os conhecimentos na cabeça dos robôs, como o deus de Descartes teria feito com as nossas almas, mas os tornam capazes de exercer funções sensório-motoras básicas que eles poderão, na sequência, complexificar, tornando-se ainda mais inteligentes” — Jean-Michel Besnier é filósofo e doutor em Ciências Políticas, em entrevista publicada nas Notícias do Dia do IHU.

Novos materiais

Embora os estudos do uso de novos materiais estejam em pleno desenvolvimento pouco se sabe a respeito do que ainda pode ser feito, sobretudo por questões relacionadas aos segredos industriais. Atualmente, um dos mais comentados é o Grafeno, por sua durabilidade, leveza e excelente capacidade de condução de calor e eletricidade.

Fonte: BBC publicado pelo Jornal El Comercio

Revolução 4.0 — Categoria Digital

Vivemos no encontro dos mundos de George Orwell, em 1984, e de Larry Wachowski e Andy Wachowski, em Matrix. A promessa tecnológica de liberdade se transformou, também, em um processo altamente sofisticado de controle do qual abastecemos incontáveis bancos de dados que usam nossos dados de navegação em informações que determinarão o funcionamento daquilo que pertence ao mundo da Internet das Coisas — IoT (Internet of things, em inglês). Isso é efeito daquilo que Deleuze chamou de “sociedade do controle”, ainda em 1992. Se por um lado há controle, por outro há possibilidade de remotamente controlar dispositivos tecnológicos, o que permite, também, que haja comunicação máquina-máquina.

Internet das Coisas

“Um estudo da Cisco prevê que a internet das coisas terá um valor econômico de 14,4 trilhões de dólares em uma década no mundo. Desse total, cerca de 50% do maior valor econômico presente está nas conexões máquina a máquina” — Reportagem de Roberto Rockmann, publicada por Carta Capital, e reproduzida nas Notícias do Dia do IHU.

Blockchains, as moedas eletrônicas

“Do lado da tecnologia, a disrupção dos modelos atuais provavelmente virá da blockchain. Essa tecnologia permite qualquer tipo de troca (informações, produtos, serviços…) entre pessoas (peer-to-peer) de maneira descentralizada e protegida sem uma autoridade central de controle (portanto, sem intermediários), particularmente através do uso de criptomoedas como o bitcoin. Um de seus principais trunfos reside, portanto, na proximidade da troca e na capacidade de dispensar um fornecedor de serviços que vá captar e usar seus dados, para por exemplo revendê-los a outros sem que você saiba e sem que você tenha dado seu consentimento” — Rachel Botsman, em reportagem publicada nas Notícias do Dia.

Tecnologias disruptivas

Basicamente, a ideia que está por trás das tecnologias disruptivas é que, certa maneira, elas são resultado de um processo totalmente inovador, não como efeito de uma certa evolução tecnológica. O ponto é que não há, de fato, tecnologias disruptivas em essência, senão a convergência de vários aspectos tecnológicos que produzem algo novo. O Uber, por exemplo, reúne a expertise de dispositivos digitais como mapas interativos, serviços de geolocalização e serviços de mensagem.

O Uber, assim como, serviços como Airbnb e o próprio Spotify, que reproduz músicas via streaming, são mais disruptivos do ponto de vista do negócio que das tecnologias. Isso porque embora esses aplicativos sejam inovadores da perspectiva do uso, eles não rompem com as tecnologias existentes, mas operam a partir de várias funcionalidades que são readaptadas em uma nova ambiência.


Revolução 4.0 — Categoria Biológica

A vida, escrita com a elegância simples destas quatro letras, não é, nem será a mesma. Mapeamos o genoma e acaso se transformou em um dado identificável e programável. A complexidade da vida do ponto de vista do DNA também é descrita na elegância simples de quatro letras — A adenina, T tinia, C citosina e G guanina, conforme publicaram na revista Nature os cientistas Francis Crick e James Watson, em 1953. A famosa "escada retorcida".

As sementes, por exemplo, há muito tempo se transformaram em ativos financeiros, a partir da mutação genética dos grãos, agora mais tolerantes aos agrotóxicos. Dos humanos a espécies utilizadas para alimentação humana — gado e porcos, entre outros — haverá a possibilidade de se alterar o código genético para que, por exemplo, eles possam subsistir com uma dieta mais “econômica”, ingerindo substâncias desenvolvidas especificamente para tipos específicos de genoma.

Brasil e o genoma humano, dicussões sobre o CRISPR-Cas9
CRISPR-Cas9 representa uma verdadeira revolução nas pesquisas em biotecnologia. CRISPR-Cas9 (Repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente espaçadas, em inglês)é muito mais barato, preciso e rápido do que as outras ferramentas para alterações no código genético de um determinado organismo. Uma organização sem fins lucrativos chamada Addgene, localizada nos Estados Unidos, é a principal fornecedora de kits de CRISPR-Cas9, despachados pelo correio todos os dias para diversas partes do mundo. Em princípio, qualquer pesquisador, ou até mesmo estudantes de biologia com conhecimentos razoáveis de genética, e acesso aos reagentes e equipamentos necessários, já podem realizar experimentos que envolvem a modificação do código genético de um organismo — Artigo de Marcelo de Araújo, publicado na edição 489, de 18 julho de 2016, na Revista IHU On-Line.

Como evidenciamos acima, estuda-se a possibilidade de se produzir alimentos “sob medida” em futuras impressoras 3D e como acabamos de ler, alterar a estrutura dos genomas de seres vivos digitais ou vegetais é apenas questão de tempo. É possível, inclusive, a partir de uma reorganização do encadeamento do DNA eliminar as combinações que causam tristeza e reordená-las para "produzir" felicidade. Abaixo, a simulação de uma proteína carregando uma endorfina ao longo de um filamento no lobo parietal do cortex cerebral.

A questão, no entanto, é que, se por um lado avançamos exponencialmente na razão técnica, somos na mesma medida indigentes no que se refere a razão ética. Além disso, o fato concreto é que a sociedade tecnocientífica se tornou tão sofisticada que somos capazes, tecnicamente, de produzir órgãos humanos no corpo de porcos para depois transplantá-los novamente em humanos. A esse processo dá-se o nome de “xenotransplante”. Se tecnicamente esse processo é fácil de resolver, eticamente estamos diante de desafios sem precedentes, pois, afinal, se um porco possui órgãos humanos, ele não seria “meio humano”? E se ele tivesse vários órgãos humanos, como rins, coração e pulmões e até mesmo um cérebro, que seriam produzidos a partir de células tronco humanas implantadas nos embriões desses animais, estaríamos diante de um porco ou de um humano? Se sua resposta tiver como um pressuposto uma obviedade, repense-a. Estamos no limiar de um novo tempo, com novos desafios, cada vez mais instigantes e imprecisos.


As portas de uma nova era estão abertas e o tempo presente corre em uma esteira eletrônica que nos joga diretamente dentro deste novo mundo. Diferente das grandes revoluções anteriores, desde a primeira com as máquinas a vapor, depois a elétrica e mais recentemente a informática, a chamada Quarta Revolução ou Revolução 4.0 manda embora todas as fronteiras físicas, biológicas e digitais.