A repressão fracassou
Uma breve análise sobre o fracasso da política proibicionista.

13.agosto.2015
Supremo Tribunal Federal deve começar a julgar hoje se é crime portar entorpecentes para consumo próprio.
A questão das drogas é uma pauta importantíssima a ser discutida, que é minimizada ao ser taxada como “polêmica”. É preciso trazer lucidez ao debate, e, por consequência, desmistificar o assunto.
Enfrentamos um sério problema no sistema penitenciário. As prisões inobservam seus propósitos, estão sucateadas, ausentes de segurança, higiene, vagas etc. Engana-se quem pensa que o controle do presidiário é do Estado. O presidiário obedecerá à facção criminosa vigente naquele sistema de reclusão.
Como Rafaela de Oliveira bem elucida, “Os presídios brasileiros, de uma maneira geral, não conseguem promover aos detentos a ressocialização esperada pela sociedade brasileira. O que tem-se observado é que a questão da superlotação e as péssimas condições de vida e de higiene dos presos, dentre outros fatores, contribuem para que as penitenciárias sejam ineficazes para atender ao que a Lei de Execução Penal preceitua, qual seja, a recuperação daquele que está detido por ter cometido determinado crime, transformando, assim, o que deveria ser um centro de ressocialização de criminosos em uma “universidade do crime”.”
Em geral, a população carcerária no Brasil tem crescido em um ritmo vertiginoso nos últimos anos, e o tráfico está relacionado a este fenômeno.
De acordo com o relatório divulgado pelo Infopen (levantamento nacional de informações penitenciárias), entre 2004 e 2014, a população carcerária brasileira aumentou 80% em números absolutos. Atualmente, o Brasil apresenta a quarta maior população carcerária do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, Rússia e China, segundo dados de 2015 da ICPS (Centro Internacional para Estudos Prisionais, na sigla em inglês).
Segundo o Jornal Folha de S. Paulo, tráfico é causa de 24% das prisões realizadas no país. O estado de São Paulo aparece um pouco na frente, com 30% de seus 180 mil presos encarcerados por esse motivo.
Um dado que chama atenção é que mais de metade das mulheres que estão presas foram detidas por tráfico. O motivo, segundo policiais, é que elas são usadas pelos companheiros para transportarem a droga, e acabam sendo detidas.
Como ilustra Drauzio Varella, no documentário “Cortina de Fumaça”, “no Brasil, em qualquer presídio você tem acesso à droga”. Se não é possível controlar a questão em presídios de segurança máxima, o quão pretensioso é o Estado para pensar que controlará o uso da droga em uma sociedade livre?
Um dos incontáveis problemas em formarmos superpopulações carcerárias é — evidentemente — o desperdício de renda, já que o dinheiro gasto com a manutenção dos presos poderia ser destinado a áreas mais benéficas à sociedade.
Para exemplificar, os municípios capixabas gastam por mês, em média, R$ 356 para manter cada estudante em escola pública, seis vezes menos que o governo do Estado aplica para manter uma pessoa presa nas penitenciárias do Espírito Santo — aproximadamente R$ 2,3 mil por mês.
O modelo de repressão às drogas surgiu nos Estados Unidos na década de 20, com a famosa Lei Seca, que proibiu a comercialização de qualquer tipo de álcool. Essa proibição fez com que os consumidores adquirissem o produto pelas vias ilegais, dando origem à máfia. Al Capone foi um dos ilustres que prosperaram com a medida governamental. Os impostos, que antes eram arrecadados com a venda de bebidas, mudaram das mãos do governo para as mãos do tráfico, que investia o lucro em outras atividades ilegais, como roubo e prostituição, inobstante da política proibicionista brasileira.


Nossa legislação antiquada está arruinando a vida de milhares de jovens maconheiros da periferia, que foram enquadrados como traficantes por serem negros e pobres.
Há um forte estigmatização sobre o usuário de maconha, e mesmo figurando como alvos de discriminação, volumosas Marchas da Maconha reivindicam uma política de redução de danos e respeito à liberdade individual.
Como bem lembrou o amigo Mateus Frigerio, a cannabis também é importante para seus fins medicinais, como para doenças que provocam dores neuropáticas, como a esclerose múltipla, em que seu uso comprovadamente se faz eficaz. Além de tudo, essa posição discriminatória em nada favorece a Ciência, que não produz pesquisas na área.
A própria venda da droga e seus impostos financiariam melhorias estruturais. Em 2014, o estado do Colorado nos EUA trouxe 699 milhões de dólares em vendas da maconha, o que se traduziu em 71 milhões de dólares em impostos, segundo o Conselho Legislativo da Assembléia Geral do Colorado (“Legislative Council of the Colorado General Assembly”).
Entretanto, perante inconcussas evidências científicas, os tupiniquins ainda adotam uma visão reacionária (cujo significado é “ser contrário às inovações políticas e sociais”).
Devemos legalizar para regulamentar porque é imperativo que tiremos o monopólio do comércio das mãos dos traficantes. Nada custa lembrar que os traficantes são a favor da proibição e seriam bastante prejudicados pela venda legal do produto taxado e com controle de qualidade. O Governo deve legalizar o quanto antes, para que não fiquemos desesperançosamente desarmados como o México se situa em relação aos cartéis.
Não podemos manter essa desastrosa política de drogas.
The one who does not remember history is bound to live through it again
George Santayana
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