A urgência de reestruturação do sistema de ensino
Nosso obsoleto sistema educacional afasta o pensamento crítico e não abrange os diferentes tipos de inteligência.


Quem estudou sabe que há uma pergunta recorrente pelos corredores das escolas: “por que eu tô estudando essa m****?”. Esse desinteresse pela matéria lecionada é consequência de um método de ensino antiquado, estruturado às pressas devido à industrialização, que a partir principalmente dos anos 30 do último século, modifica lentamente a sociedade brasileira, tornando necessária uma nova proposta de educação: faz-se necessário preparar trabalhadores para a indústria, dentro de uma nova ordem social, gerada pela acumulação do capital. (EDUCAÇÃO PROFISSIONAL. Ana Margarida de Mello Barreto Campello; Domingos Leite Lima Filho)
Quando o aluno questiona o pragmatismo de certo estudo, ele, na verdade, afirma que para nada aquilo lhe servirá. Devo dizer que algumas dessas reclamações são burras quando, por exemplo, diz-se que não há necessidade de se aprender a conjugação correta dos verbos, ou a evolução — alicerces do entendimento da língua e biologia, respectivamente.
Como a aprendizagem está estruturada, é comum haver situação em que tal inútil e obrigatório tópico tem o mesmo peso de nota que temas de grande valor e utilidade.
Hoje, a própria aprendizagem é destruidora do fomento pela sabedoria. Entretanto, esse fato é apenas um reflexo do sistema. Não deve-se criticar o oprimido (o aluno, abandonado pelo Poder Público). A questão foi estruturada ao longo do tempo, pelos diversos partidos e políticos que optaram pelo lado do opressor no momento em que se omitiram perante uma injustiça [frase de Desmond Tutu, Nobel da Paz em 1984 por sua luta contra o Apartheid].
Todo político que se situou neutro perante a necessidade da reforma e fomento do ensino contrariou também o seguinte pensamento de Thomas Jefferson: Se há algo errado, aqueles que têm a capacidade de tomar medidas têm a responsabilidade de tomar medidas.
Hoje, a classe política não só deixa de investir na educação, como marcha contra o pensamento crítico progressista.


Por que tanta obscuridade? Em pleno século XXI, vemos tantos discursos medievais que levam à seguinte pergunta: “qual a fonte de tamanha desonestidade intelectual?”.
Clóvis de Barros Filho elucida que as Elites são conservadoras na medida em que julgam ter e já dispor daquilo que lhes é fundamental para uma vida feliz: as condições materiais de conforto existencial. Se são realmente felizes, é outra discussão. Mas acreditam dispor do que é mais fundamental para felicidade. E por isso adotam uma postura de conservação do status quo; para que não haja grandes mudanças; para que não haja riscos de perda patrimonial.
Portanto, uma reforma no sistema de ensino seria algo brutalmente revolucionário, que se caracteriza pela possibilidade de renovar os padrões estabelecidos.


O ensino deve ser conscientizador. Atualmente, prioridades como vestibular contribuem para a proliferação de “intelectuais” incoerentes e desinformados, dotados de técnicas para preencher gabaritos, e ausentes de capacidade interpretativa.
Considero que o domínio da língua portuguesa é fundamental para formarmos uma sociedade que saiba expor seu pensamento crítico. O atual grau de analfabetismo funcional é responsável pela enorme população de humanos-papagaios, uma espécie engraçada. Não muda de opinião conforme novas evidências são apresentadas; não produz nada genuíno; só replica retalhos do que ouve.


A nossa língua é a base para aprendermos e ensinarmos com exatidão. É uma ferramenta incrível para se opor à manipulação das informações veiculadas pela mídia corporativa.
Há, também, a urgência de revermos a especificidade dos temas e as avaliações. Certas matérias aprofundam-se demasiadamente em seus ensinos obrigatórios, e só alunos daquela área de conhecimento específica os usarão (caso os usem). Logicamente, é um ciclo que só faz crescer a apatia pela aula.
O sistema educacional não respeita a existência de diferentes inteligências.


Como está, a educação objetiva um pragmatismo de mercado, e desconsidera o conceito de inteligências múltiplas, teoria desenvolvida pelo psicólogo Howard Gardner, que afirmou que o conceito de inteligência como tradicionalmente definido em psicometria (testes de QI) não é suficiente para descrever a grande variedade de habilidades cognitivas humanas.


Os alunos artistas são muito prejudicados pelo sistema, por causa da distância entre o ensino formal e o universo da criação.
Lembrando que a linguagem da arte pode ser arquitetura, cinema, dança, desenho, escultura, fotografia, literatura, teatro, música, pintura etc.




Quando defendo a conscientização dos alunos, não digo que devamos orientá-los ideologicamente. A sua ideologia é individual, resultado da análise motivada entre as evidências que lhes são apresentadas e seu grau de empatia. A própria divindade Pink Floyd se posiciona contra o ensino ideológico nas escolas, por meio de seu ilustre verso We don’t need no thought control.
“Como diversas músicas do The Wall, ‘the Happiest Days of Our Lives’ e a subsequente ‘Another Brick in the Wall, Part 2’ detalham as injustiças do que Pink Floyd retrata como um pessoalmente sufocante sistema social.” (Resenha do The Wall Analysis)
Vale pontuar a impecável crítica de Renato Salomão ao sistema educacional, publicada aqui no Medium:
Quando os alunos já passaram por vários anos de repetições diárias desse ciclo, recebem o rótulo de “formados”, o que significa que o lote está pronto para ir para o mercado.
Infelizmente, não para por aí. Além de fábricas, as escolas também possuem características de presídios. Elas cerceiam a liberdade dos alunos. Todos têm hora para entrar, hora para ir para o pátio e hora para sair. Há inspetores vigiando os estudantes e punições — advertências, suspensões, expulsões — para os que tiverem mau comportamento.
Por fim, gostaria de deixar claro que não tenho a intenção e nem teria capacidade de esgotar o assunto. Não conseguiria, também, apresentar uma nova versão de todo o Ensino Fundamental e Médio. Para isso seriam necessárias centenas de horas de estudo aplicado, e muito debate.
Muito obrigado por ler. Espero que lhe seja útil.



