Jesus era revolucionário, e não reacionário

Perspectiva à esquerda sobre a ideologia de Jesus Cristo e sua deturpação pelas autoridades eclesiásticas e seus fiéis.

Breve opinião e ressalvas

Algo que não posso afirmar é se Jesus Cristo viveu. De fato, a discussão sobre sua existência não é tão relevante quanto o debate acerca de sua ideologia. Tendo existido ou não, no período afirmado ou não, ele tem milhões de devotos, e seu ponto de vista influencia seus seguidores. Além disso, acredito que, se Cristo viveu, não era divino, e era um doutrinador revolucionário.

Enquanto publicações conservadoras argumentam que “Comunismo é fundado na inveja e na desordem”, minha opinião vai no mesmo sentido da publicação From Jesus’ socialism to capitalistic Christianity, de Gregory Paul, no Washington Post.

Entendo que essa é uma questão delicada. Não pretendo convencer ninguém da minha perspectiva. Muitos já se posicionaram e argumentaram no sentido de que Jesus não era de esquerda. E eu entendo que pensem assim. Não vejo como dirimir a parcialidade quando trata-se desse assunto, porque:

  1. Jesus é uma figura tida como divina e incondicionalmente amada por muitos.
  2. As posições ideológicas políticas também têm seus inúmeros adeptos. (Mas a devoção no espectro político se dá por meios diferentes. Os adeptos conscientes costumam mudar de opinião quando novas evidências lhes são apresentadas — diferentemente do panorama religioso).
  3. As pessoas procuram unir o que lhes agrada. Afirmar Jesus como de direita ou esquerda é, de certa forma, como o filme do Batman contra o Super-homem para os fãs de quadrinhos, ou como o Tomorrowland para os fãs de música eletrônica.

Até o Libertarianismo disse que sua filosofia é compatível com o Cristianismo, mesmo quando repudiam os impostos e Cristo incentiva as taxas. Mas o comunismo também se diferencia do cristianismo em alguns aspectos.

Divergências

Antes de tratar sobre as semelhanças, devo alertar sobre as divergências entre o Cristianismo e o Marxismo.

A clara divergência é a respeito da crença em qualquer sorte de divindade. O comunismo sustenta a rejeição de todas as formas de religião por um Estado em favor do ateísmo. Para Marx, a religião é suspiro da criatura oprimida. A religião é o ópio do povo. Para Lenin, a religião é uma das formas de opressão espiritual e pesa fortemente sobre o povo, sobrecarregado pelo seu perpétuo trabalho para outros. Aqueles que trabalham são ensinados pela religião a serem submissos e pacientes enquanto aqui na terra, e ter conforto na esperança de uma recompensa celestial. (Socialism and Religion)

O cristianismo é uma religião monoteísta, enquanto o comunismo é uma doutrina econômica e sociopolítica, que prevê um ateísmo de Estado. Ou seja, Jesus não era comunista stricto sensu. Mas isso não quer dizer que ele não era de esquerda.

Essas ideologias divergem na concepção de divindade, mas convergem no campo econômico, quanto à distribuição igualitária em prol da coletividade. As mais valorosas lições de Jesus seguem uma linha fundamentalmente à esquerda, como as lições sobre a riqueza e impostos, do amor ao próximo (enquanto o capitalismo é basicamente cada um por si e salve-se quem puder).

Ele pregava a comunhão, e essa é a base da esquerda.

Política

É preciso trazer alguns conceitos para melhor relacionar às ideias expostas.

revolucionário: aquele que é favorável a transformações radicais, esp. no campo político-social; progressista.
reacionário: aquele que é contrário às inovações políticas e sociais.
socialismo: doutrina política e econômica que prega a coletivização dos meios de produção e de distribuição, mediante a supressão da propriedade privada e das classes sociais. Na teoria marxista, estágio intermediário entre o fim do capitalismo e a implantação do comunismo.
comunismo: doutrina econômica e sociopolítica, de cunho revolucionário, elaborada pelos teóricos alemães Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895), que prevê a superação do capitalismo por meio da luta de classes, o fim da propriedade privada dos meios de produção, a instauração de um regime de partido único e, num último estágio, a supressão do Estado e o estabelecimento de uma sociedade sem classes.
capitalismo: sistema econômico baseado na legitimidade dos bens privados e na irrestrita liberdade de comércio e indústria, com o principal objetivo de adquirir lucro.
esquerda: basicamente trata-se de uma posição ideológica que defende práticas voltadas a uma sociedade mais igualitária. Defende uma melhor redistribuição de renda e respeito as diferenças e prega mudanças na realidade socioeconômica em prol da coletividade.
direita: basicamente trata-se de uma posição ideológica conservadora e defensora, hoje, do Neoliberalismo Econômico. Defende a meritocracia e a manutenção da realidade socioeconômica em prol da individualidade.

Cristianismo

Fiz uma tradução livre de trecho do From Jesus’ socialism to capitalistic Christianity, de Gregory Paul.

Jesus oferece um substancial encorajamento aos pobres, e alerta aos ricos que estão em grave perigo de arruinar suas perspectivas de alcançar o paraíso, pela metáfora de um rico entrar no paraíso ser mais difícil que um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Essa advertência faz sentido: um estudo social está confirmando que quanto mais seguramente prósperos indivíduos e sociedades são, mais provável que eles percam a fé. Um ponto básico do centro da doutrina cristã é que os ricos não têm mais acesso ao paraíso que nenhum outro (e, de fato, têm até menos), oferecendo esperança aos empobrecidos rejeitados pelos cultos que cortejam as elites. Isso remanesce verdade no Catolicismo, onde ser pobre não constitui evidência de deficiência pessoal, e as autoridades da igreja condenam os excessos do desenfreado capital à custa da justiça social.
Mas para entender como não-capitalista o Cristianismo deveria ser, retornamos ao primeiro capítulo após os evangelhos, Atos, que descreve os eventos da antiga igreja. Capítulos 2 e 4 afirmam que “todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Ninguém afirmava que qualquer daquelas posses era sua. Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.”.
Os cristãos pró-capitalistas que estão cientes dessas passagens as ignoram, mesmo sendo a única explícita descrição de economia cristã na Bíblia.
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males;
Timóteo 6:10

Se queres ser perfeito, vai vender tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem seguir-me. (Mateus 19:21)

Jesus disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. (Lucas 18:18–30)

Impostos

Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo a César, ou não? Jesus, porém, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um denário. Perguntou-lhes ele: De quem é esta imagem e inscrição? Responderam: De César. Então lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. (Mateus 22:17–21)
Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência. Por esta razão também pagais tributo; porque são ministros de Deus, para atenderem a isso mesmo. Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. (Romanos 13:5–7)

Fariseu

Alguns pastores e fiéis, hoje, assumem o papel de hipócrita dos Fariseus que Jesus tanto criticava.

fariseu: aquele que, por observar fielmente um dogma ou rito, se acredita dono da verdade e da perfeição, achando-se no direito de julgar e condenar a conduta de outrem a pretexto de dar ajuda.
Angelo Lopez

A filosofia do amor ao próximo e comunhão foi transformada em uma ferramenta para manipulação e dominação ideológica dos fiéis.

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é:

Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Não há outro mandamento maior do que estes.
Marcos 12:30,31

Querido Pastor
Gregório Duvivier
Querido pastor,
Aqui quem fala é Jesus. Não costumo falar assim, diretamente — mas é que você não tem entendido minhas indiretas. Imagino que já tenha ouvido falar em mim — já que se intitula cristão. Durante um tempo achei que falasse de outro Jesus — talvez do DJ que namorava a Madonna — ou de outro Cristo — aquele que embrulha prédios pra presente — já que nunca recebi um centavo do dinheiro que você coleta em meu nome (nem quero receber, muito obrigado). Às vezes parece que você não me conhece.
Caso queira me conhecer mais, saiu uma biografia bem bacana a meu respeito. Chama-se Bíblia. Já está à venda nas melhores casas do ramo. Sei que você não gosta muito de ler, então pode pular todo o Velho Testamento. Só apareço na segunda temporada.
Se você ler direitinho vai perceber, pastor-deputado, que eu sou de esquerda. Tem uma hora do livro em que isso fica bastante claro (atenção: SPOILER), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.
Analisando a sua conta bancária, percebo que o senhor talvez não esteja familiarizado com um camelo ou com o buraco de uma agulha. Vou esclarecer a metáfora. Um camelo é 3.000 vezes maior do que o buraco de uma agulha. Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin — esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica. Distribuo pão e multiplico peixe -só depois é que ensino a pescar.
Se não quiser ler o livro, não tem problema. Basta olhar as imagens. Passei a vida descalço, pastor. Nunca fiz a barba. Eu abraçava leproso. E na época não existia álcool gel.
Fui crucificado com ladrões e disse, com todas as letras (Mateus, Lucas, todos estão de prova), que eles também iriam para o paraíso. Você acha mesmo que eu seria a favor da redução da maioridade penal?
Soube que vocês estão me esperando voltar à terra. Más notícias, pastor. Já voltei algumas vezes. Vocês é que não perceberam. Na Idade Média, voltei prostituta e cristãos me queimaram. Depois voltei negro e fui escravizado — os mesmos cristãos afirmavam que eu não tinha alma. Recentemente voltei transexual e morri espancado. Peço, por favor, que preste mais atenção à sua volta. Uma dica: olha para baixo. Agora mesmo, devo estar apanhando — de gente que segue o senhor.

Guilherme Pandini.