O Comércio da Guerra e as Eleições nos EUA

Uma análise à esquerda sobre o comércio da guerra; o Imperialismo americano; o Terrorismo; a inidônea influência da mídia corporativa; e Bernie Sanders, candidato à Presidência da Casa Branca.

A mídia corporativa

A mídia corporativa no Brasil tem severa influência na concepção política da população. Não apenas a respeito do cenário político nacional, mas como do estrangeiro. Para grande parte da população, infelizmente iletrada em inglês, a única fonte de informação de política estrangeira é a TV. Porém, a mídia convencional de massa tem uma agenda específica que tende a distorcer os fatos que veicula, por conta de compromissos com anunciantes, grupos políticos ou instituições governamentais.

A televisão retrata Bush, Obama, e todos seus antecessores, como homens corretos, pacíficos, mantenedores da ordem e paz. Entretanto, fato é que os EUA estão e sempre estiveram envolvidos com o fomento da guerra.

O comércio da guerra

O controle da economia e a manipulação da sociedade por potências financeiras é apenas uma parte do jogo que está em curso. Em outro nível está o comércio da guerra.

É preciso entender que a guerra é uma das coisas mais lucrativas que podem acontecer para um banqueiro. O estado de beligerância força o país a pegar ainda mais dinheiro emprestado, com juros, sem mencionar os lucros gerados por meio do financiamento da produção militar.

Nas palavras daquele que foi por duas vezes o congressista americano ganhador da medalha de honra da instituição, Smedley D. Butler:

A guerra é extorsão. Sempre foi assim. É a mais antiga, facilmente a mais lucrativa, e com certeza a mais perversa. É talvez a única em âmbito internacional. É a única em que os lucros são auferidos em dólares e as perdas em vidas.

A retratação do heroísmo da guerra ao terror por meio da televisão, cinema, e video game é uma maneira de tornar a violência aceitável.

A mídia de massa retrata o Oriente Médio como um deserto sem lei, onde todo adulto é homem bomba, toda mulher usa burca, toda criança é terrorista. Pinta uma suposta realidade onde todos são imundos, analfabetos, violentos, e que precisariam da “educação e pacificação” do homem-de-bem americano. Não passa de uma tentativa de mascarar uma pretendida higienização social.

O documentário Zeitgeist (2007) provoca uma perspectiva de que o terrorismo serve como um pretexto para uma guerra global constante.

O 11 de Setembro marcou o salto para uma agenda hegemônica, que permitiu a possibilidade de estado de guerra global constante. Foi um pretexto para a guerra não diferente do que envolveu o Lusitania [WWI], Pearl Harbor [WWII], e do Golfo de Tonkin [Vietnam]. De fato, se o 11/9 não foi um pretexto de guerra planejada, seria exceção à regra. Ele foi usado para lançar duas guerras ilegais sem motivo algum. Uma contra o Iraque e outra contra o Afeganistão.
Entretanto, o 11/9 serviu de pretexto para outra guerra. A guerra contra você. O Patriot Act, o Homeland Security, Tribunais Militares e outras legislações foram completamente elaborados para destruir a sua liberdade civil e proteger os que estavam no poder.

Wikileaks: EUA armaram Estado Islâmico e se recusaram a ajudar Síria no combate ao grupo. (Opera Mundi, Wikileaks)

Edward Snowden revela que Israel criou o Estado Islâmico para ter um ‘inimigo’. (SOTT, Diário Liberdade, Vermelho)

Guerras que não se chamam guerra e de questionável cobertura legal. (El País)

E o que as eleições de 2016 têm a ver com isso?

Bem, tudo, é claro. Como Comandante-em-Chefe das Forças Armadas, o Presidente é quem ajuda a formular a política militar, e toma as relevantes decisões de política externa de um país. É quem pode fazer a mudança e desobedecer o jogo do dinheiro: não enviar milhares de jovens que sacrificariam suas breves vidas, exterminariam a população local, e enriqueceriam os donos das fábricas de jatos, tanques, fuzis, fardas, munições, mísseis etc.

É lógico que o Congresso tem grande papel nas decisões dos abundantes gastos militares, mas alçar um progressista ao cargo de Presidente dos EUA seria fascinante, e certamente uma oportunidade de mudança — mesmo que possivelmente pequena devido à tamanha rigidez do status quo na ‘Murica.

Bernie Sanders

Em meio a um cenário político desordenado e ganancioso, surge a figura de Bernie Sanders, o primeiro socialista eleito para o Senado nos EUA.

Bernie Sanders é um político que se diz democrata-socialista. Inspirado em países europeus verdadeiramente sociais-democratas, ele defende que estudo e assistência médica são direitos de todos. Em uma época em que muitos jovens não conseguem pagar um ensino superior nos EUA, as despesas são gratuitas em muitos desses países — afirma Sanders em entrevista no Late Night.

Em poucos minutos da entrevista, Bernie Sanders defende a gratuidade da assistência médica, ensino, benefícios de aposentadoria, e até uma visão pró-ambientalista focada nas mudanças climáticas. Ele se mostrou ciente e inconformado com o fato de 40% da renda se situar nas mãos de 1% da população — que a família mais rica tem a mesma renda que as 130 milhões de pessoas mais pobres.

Fato é que Bernie é adorado pelos idealistas revolucionários dos EUA, como é personagem quase idolatrado dos movimentos The Other 98% e Occupy Wall St.

Fiz uma tradução livre de parte do texto We Are Not Thinking Big Enough, de Lawrence Lessig (Wiki, Medium), Professor da Faculdade de Direito de Harvard:

Bernie Sanders apoia algo. Ele apoia algo grandioso. Ele inflamou um incrível movimento — mais forte e compromissado a este ponto que o de Obama em 2007. Ele deu à America a visão de como eles podem retomar a America. Alguns duvidam que ele conseguiria vencer. Eu não duvido disso. Eu duvido que ele conseguiria governar. Não porque ele é fraco. Ele não é. Não porque ele é inexperiente. Ele tem mais experiência em Washington que qualquer outro candidato. Bernie Sanders não conseguiria governar porque Elizabeth Warren está certa: os mais poderosos da America capturaram o governo da America. Os mais poderosos detêm a Capital. E enquanto não mudarmos isso, nada — certamente nenhuma das ousadas idéias que Bernie Sanders está vendendo — acontecerá.

A última coisa que a força estabelecida quer é uma coletividade consciente e informada que seja capaz de ter pensamento crítico. É por isso que um estilo de vida desonesto é patrocinado pela religião, pela mídia de massa, e pelo sistema educacional. É do interesse deles que você se mantenha distraído na sua bolha de ingenuidade. E eles estão fazendo um trabalho impecável para isso.

Zeitgeist (2007)

In the past, politicians promised to create a better world. But after different ways of achieving it, that power and authority came from the optimistic visions they offered their people. Those dreams failed, and today people have lost faith in ideologies. Increasingly, politicians are seem simply as managers of public life. But now, they have discovered a new road that restores that power and authority. Politicians now promise to protect us from nightmares. They say they will rescue us from dreadful dangers we cannot see and do not understand. And the greatest danger of all is international terrorism. The powerful and sinister network with sleeper cells in countries across the world. A threat that means to be fought by war on terror. But much of this threat is a fantasy, which is really exaggerated and distorted by politicians. It is a dark illusion, spread unquestioned through governments around the world, the security services and the international media.

The Power of Nightmares: The Rise of the Politics of Fear (2004)

Desigualdade de renda nos EUA

Em inglês aqui (original). Em português no vídeo de Clarion de Laffalot:

fonte imagem esquerda