Pobre de direita
Perspectiva sobre a incoerência política da direita mortadela.


Quando critico a postura ideológica de um pobre de direita, comumente ouço na réplica a expressão “esquerda caviar”, como se isso tivesse algum poder argumentativo. E com esse pequeno desabafo vou mostrar a diferença entre a direita mortadela e a esquerda caviar.
A direita mortadela é a parte financeiramente frágil da população, que adota como ideologias políticas — econômicas e sociais — as que favorecem apenas uma minúscula parcela privilegiada da população, ou favorecem ninguém, apenas a manutenção do status quo.
O pobre de direita é contra a legalização do aborto, mas viu uma prima e algumas vizinhas morrerem porque tiveram de recorrer ao método clandestino e insalubre, pois ter filhos em tal momento e condição seria péssimo.
“Não quer criar, coloca pra adoção!”. Mas ele é contra o direito de casais gays adotarem filhos — esquece que estes filhos foram abandonados por casais heterossexuais.
O pobre de direita é contra a legalização das drogas, mas perdeu diversos amigos da comunidade para o tráfico de drogas. O que deveria ser uma questão de saúde pública torna-se matéria de segurança pública e Estado paralelo.
O pobre de direita vota no candidato financiado pelos bancos. Ele ama o sistema de reservas fracionárias, mesmo sem saber da sua existência, e muito menos as consequências de criar dinheiro agregado a juro.
E ao se deparar com contradições tão gritantes, o reacionário, acuado e impotente na discussão, faz uso do seu trunfo, o ad hominem:
Esquerda caviar!
Qual é o demérito em estar em uma posição minimamente privilegiada financeiramente, ter consciência disso, e querer revolucionar, para transformar esse sistema incrivelmente injusto?
Adotamos um sistema que permite que 16 mil crianças com menos de cinco anos morram por fome ou problemas a esta associados (fonte) — enquanto alguns têm lucros na ordem de bilhões. Se você acha isso aceitável, deveria reavaliar se tem empatia por outros seres humanos.
empatia: capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente;
Mas devo lembrar que o pobre de direita é contra a taxação de grandes fortunas, por sentir injusta a contribuição maior de alguns para o fisco.
Talvez o demérito em ser esquerda caviar estivesse na fantasia de nós que apoiamos uma sociedade mais igualitária seríamos obrigados a viver na selva, sem acesso à tecnologia. Dizer “comunista de iPhone” só demonstra uma mentalidade limitada. Como bem disse Gregório Duvivier, ser de esquerda não é fazer voto franciscano. Eu não quero que todo mundo seja pobre, eu quero que todo mundo seja rico.
E abordando outra perspectiva, o iPhone foi criado com o avanço da ciência, e a sua tecnologia não deve graças ao capitalismo. Esse sistema econômico só faz com que a empresa produza tal equipamento com uma obsolescência intrínseca, com o objetivo de perpetuar o ciclo insustentável do consumo.
Mentalidade limitada — não somente pela falsa dicotomia capitalismo-comunismo, como se estivéssemos enclausurados, até o fim da humanidade, a escolher entre esses modelos falhos criados há centenas de anos.
- “Vai pra Cuba!!!”. Bom, eu até iria para Cuba, se eu apoiasse ditaduras. E talvez Cuba estivese em melhor situação se a maior potência bélica do Ocidente não tivesse mantido um embargo econômico tão duradouro contra um frágil país vizinho. Aliás, Cuba tem o melhor sistema educativo da América Latina. (G1, Opera Mundi)
Por último, não há absolutamente demérito algum em não ter boas condições financeiras. O problema reside em ser explorado e apoiar o seu explorador. É uma verdadeira e epidêmica Síndrome de Estocolmo ideológica.
“A ciência talvez tenha encontrado a cura para a maioria dos males; mas não encontrou medicamento algum para o pior deles — a apatia dos seres humanos.” — Helen Keller


Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mas eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida
Max Gonzaga — Classe Média

